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A cegueira branca da República: Banco Master, INSS e o país que aprende a ver tarde

Em Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago descreve uma cidade sem nome tomada por uma cegueira branca — não a escuridão, mas um clarão que apaga contornos, referências e responsabilidades. A epidemia se espalha, o governo improvisa um confinamento e, em pouco tempo, o que desaba não é apenas a ordem: é a dignidade. Violência, fome e abuso de poder viram rotina. No meio do colapso, apenas uma personagem mantém a visão — a mulher do médico — e sua lucidez vira testemunho incômodo do que acontece quando a sociedade para de enxergar o outro e passa a enxergar apenas a própria sobrevivência.

A política brasileira, diante de escândalos que se acumulam, parece ter vivido algo parecido: uma cegueira não física, mas cívica; não por falta de informação, mas por excesso de tolerância. O “clarão” aqui é o ruído constante — denúncias, investigações, versões, notas oficiais — que, em vez de iluminar, ofusca. E nesse cenário, dois episódios recentes, de naturezas diferentes, revelam a mesma engrenagem: os escândalos em torno do Banco Master, que alcançam personagens graúdos da política e do Judiciário, e os desvios no INSS, em que aposentados tiveram vencimentos solapados por associações, muitas vezes conectadas a parentes de políticos ou gente muito próxima do poder.

Se o caso Banco Master remete ao alto da pirâmide — circuitos de influência, zonas cinzentas, relações que encostam nas instituições que deveriam impor limites —, o escândalo do INSS expõe a ponta mais cruel do sistema: o ataque direto a quem tem menos margem de manobra. Em Saramago, quando o confinamento degrada, os mais fracos pagam primeiro. No Brasil real, quando a máquina se descontrola, a conta também desce para o bolso de quem vive de benefício, de quem calcula remédio e comida no fim do mês. A diferença é que, aqui, não se trata de uma calamidade inevitável: trata-se de um modelo de acesso ao Estado que permite que uns operem com proteção e outros sofram com desamparo.

No romance, o governo “reage” isolando os contaminados, como quem administra um problema para que ele não incomode o restante da cidade. Na política, muitas vezes, a reação institucional e partidária segue lógica semelhante: isola-se o escândalo, compartimenta-se a crise, cria-se o cordão sanitário do discurso — “caso pontual”, “desvio individual”, “vamos apurar” — para impedir que a sociedade enxergue o sistema. O confinamento, aqui, não é um prédio cercado: é a narrativa que tenta conter a indignação antes que ela se transforme em custo político.

E há o que talvez seja o paralelo mais desconfortável: a degradação moral. Em Ensaio sobre a Cegueira, a falta de regras não cria liberdade — cria predadores. No caso Banco Master, o que se sugere nos bastidores é a velha tentação brasileira de converter proximidade com o poder em salvo-conduto, de testar as bordas do aceitável porque se acredita na existência de redes de proteção. No caso INSS, a degradação é ainda mais explícita: associações que, por mecanismos opacos, corroem a renda de idosos. É a política — ou seus arredores — operando como o grupo que, no confinamento, controla a comida e vende o básico como se fosse privilégio.

A “cegueira branca” ajuda a entender por que a população parece, tantas vezes, dormir diante de escândalos sucessivos. Não é indiferença pura; é exaustão, é sobrevivência, é descrença de que algo mude. Só que o país começa a acordar — lentamente — como no livro, quando a mulher do médico, por ainda enxergar, não permite que a barbárie vire normalidade sem registro. No Brasil, quem faz esse papel não é uma personagem única: são vítimas que percebem descontos indevidos, jornalistas que conectam pontas, investigadores que seguem rastros, e cidadãos que começam a notar que a corrupção não é um evento ocasional, mas um método quando encontra brecha, apadrinhamento e impunidade.

O alerta de Saramago não é sobre a cegueira em si, mas sobre o que ela revela: a fragilidade civilizatória, a facilidade com que a dignidade é abandonada, a rapidez com que o abuso de poder se torna hábito. O comparativo com Banco Master e INSS aponta para a mesma conclusão: quando o país aceita que os “graúdos” transitem por zonas de influência sem consequências e que os vulneráveis sejam sangrados por engrenagens associativas com conexões políticas, o que se perde não é apenas dinheiro público — é o pacto de confiança.

Talvez o Brasil esteja, enfim, fazendo o movimento mais difícil: recuperar a visão. Mas enxergar não basta. Em Ensaio sobre a Cegueira, ver implica responsabilidade: não dá para fingir que não se sabe. Aqui também. O despertar só terá sentido se produzir cobrança contínua, punição sem seletividade, transparência que não seja peça publicitária e reformas que fechem as brechas por onde o abuso se repete. Porque, se a cegueira cívica continuar sendo apenas um clarão de escândalos sem consequência, o país seguirá tateando — e sempre haverá alguém, no escuro conveniente, disposto a transformar o Estado em saque e o cidadão em presa.

Por:Jorge Andrade

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