Evangelização

Argumentação Bíblica sobre a Ordenação de Pastoras: Parte 3

 À luz do Antigo e do Novo Testamento, com referências a 1Tm 3 e à teologia de John Piper e Wayne Grudem Índice 1. Introdução e escopo do estudo 2. Fundamentos no Antigo Testamento 3. Ensinos de Jesus e da igreja apostólica 4. Análise de 1 Timóteo 2–3 e Tito 1 5. Postura das mulheres em relação ao ensino e à liderança 6. Principais argumentos a favor da ordenação feminina e suas refutações 7. Síntese da contribuição de John Piper e Wayne Grudem 8. Considerações pastorais e aplicações práticas 9. Conclusão 10. Referências bíblicas e bibliográficas

  1. Postura das mulheres em relação ao ensino e à liderança 5.1. Textos-chave: 1 Coríntios 11 e 14; 1 Timóteo 2 Em 1 Coríntios 11:2–16, Paulo discute a questão do véu e menciona mulheres orando e profetizando na assembleia. Isso mostra que as mulheres participavam ativamente do culto. Contudo, Paulo preserva a distinção entre homem e mulher e fala da “cabeça” do homem e da mulher (11:3), apontando para uma ordem de autoridade. Em 1 Coríntios 14:33–35, Paulo ordena que as mulheres “permaneçam caladas nas igrejas”, pois “não lhes é permitido falar”; antes, “estejam submissas, como também a lei o determina”. O contexto imediato trata de regulação da profecia e do discernimento das mensagens. Muitos estudiosos entendem que o silêncio aqui se refere ao julgamento público e autoritativo das profecias, ligado ao exercício de autoridade sobre a assembleia. Em 1 Timóteo 2:11–15, como já visto, Paulo restringe o ensino doutrinário autoritativo e o exercício de autoridade sobre homens na congregação. 5.2. Espaço legítimo de ensino feminino Apesar dessas restrições específicas, o Novo Testamento afirma claramente o valor do ministério feminino: • • • Tito 2:3–5 chama as mulheres mais velhas a “ensinar o que é bom” e a instruir as mais jovens em diversos aspectos da vida cristã e familiar. Atos 18:24–26 mostra Priscila (junto com seu marido Áquila) instruindo Apolo com mais exatidão no caminho do Senhor. Aqui, uma mulher participa do ensino doutrinário, mas em contexto privado/doméstico e não como dirigente oficial da assembleia. Romanos 16 registra várias colaboradoras de Paulo (Febe, Priscila, Maria, Trifena, Trifosa, Pérside, Júlia etc.), destacando o envolvimento ativo de mulheres na missão e no serviço cristão. Assim, a posição complementarista não reduz as mulheres ao silêncio absoluto ou à passividade, mas delimita o tipo de ensino e autoridade que lhes é vedado, preservando ao mesmo tempo um amplo campo de ministério legítimo. 
  2. Principais argumentos a favor da ordenação feminina e suas refutações 6.1. Argumento de Gálatas 3:28: igualdade implica mesma função? Um dos textos mais citados por defensores da ordenação de pastoras é Gálatas 3:28: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”. Conclui-se, a partir daí, que qualquer distinção de papéis na igreja seria contrária à unidade em Cristo. A resposta complementarista, seguindo autores como John Piper e Wayne Grudem, observa que o contexto imediato de Gálatas 3 trata de justificação e acesso às promessas de Deus, não de funções e ofícios na igreja. Paulo afirma que todos, independentemente de etnia, status social ou sexo, são igualmente herdeiros da salvação em Cristo. Isso não significa que todas as distinções de papel desapareçam (por exemplo, ainda há pais e filhos, governantes e governados, mestres e alunos, apesar da igualdade em Cristo). 6.2. Argumento dos exemplos de Débora, profetisas e líderes do NT Outro argumento frequente é apontar para Débora, Hulda, Miriã, as filhas de Filipe que profetizavam (At 21:9), Priscila, Febe etc., como prova de que Deus aprova mulheres em quaisquer papéis de liderança espiritual. A refutação complementarista destaca que: • • • Profetas e profetisas não se confundem com presbíteros/pastores. O dom profético é distinto do ofício de governo contínuo da igreja. Casos como Débora ocorrem em contextos de crise e excepcionalidade, não como norma para a vida ordinária do povo de Deus. Priscila e outras colaboradoras exercem ministério valioso, mas não há evidência de que tenham sido ordenadas como presbíteras ou bispas sobre igrejas locais. 6.2.1. Exegese de 1Tm 2:12 em comparação com a figura de Débora O texto de 1Timóteo 2:12 em grego diz: “didáskein de gynaiki ouk epitrépō oude authentein andros, all’ einai en hēsychia”, isto é: “e não permito que a mulher ensine nem exerça autoridade sobre o homem; esteja, porém, em silêncio”. Duas expressões são centrais: didáskein (ensinar) e authentein andros (ter/exercer autoridade sobre o homem). Em primeiro lugar, o verbo didáskein nas epístolas pastorais, quando usado de forma absoluta, quase sempre se refere ao ensino oficial e normativo da doutrina cristã — o tipo de ensino ligado ao ministério dos presbíteros (cf. 1Tm 4:11; 5:17; Tt 2:1). Não se trata de qualquer conversa informal, mas do ensino que define e preserva o conteúdo da fé da igreja reunida. Em segundo lugar, o verbo authentein é raro no Novo Testamento, mas no contexto aqui, ligado por “nem” (oude) ao verbo “ensinar”, indica o exercício de autoridade real e legítima, e não apenas um abuso autoritário. A construção “não permito que a mulher

ensine, nem exerça autoridade” mostra que Paulo está restringindo dois aspectos de um mesmo ofício: o ensino doutrinário público e o governo da assembleia. Além disso, o verbo “não permito” (ouk epitrépō) está no presente do indicativo, indicando a prática habitual de Paulo como apóstolo, não apenas uma decisão pontual para Éfeso. Essa prática é imediatamente fundamentada, nos versículos 13 e 14, na ordem da criação (Adão primeiro, depois Eva) e no relato da queda. Ou seja, a proibição de 1Tm 2:12 não está baseada em um problema cultural local, mas em um padrão anterior à própria existência de Israel. Quando se compara esse texto com a figura de Débora (Jz 4–5), é importante notar que Débora é apresentada como profetisa e juíza em Israel, num contexto teocrático e em um período de profunda apostasia nacional. O livro de Juízes, em geral, descreve situações extraordinárias, muitas vezes marcadas pela fraqueza e infidelidade do povo, mais do que por um padrão normativo de governo. A função de Débora, portanto, difere do ofício de presbítero/bispo descrito em 1Timóteo 2–3 e Tito 1. Ela atua como porta-voz profética de Deus e como julgadora de causas do povo, mas não como “pastora” de uma igreja local à luz do modelo do Novo Testamento. Além disso, o fato de Deus usar uma mulher de forma extraordinária num contexto de crise (Juízes) não revoga a instrução clara e normativa dada por Paulo para a vida ordinária das igrejas sob a Nova Aliança. Em termos hermenêuticos, 1Tm 2:12–14 é um texto normativo e didático, explicitamente aplicável às igrejas, enquanto o relato sobre Débora é narrativo e descritivo. O princípio saudável é interpretar os relatos extraordinários à luz dos ensinos claros e normativos, e não o contrário. Assim, a existência de Débora como juíza e profetisa não constitui precedente suficiente para anular a proibição apostólica de que mulheres exerçam o ofício de ensino doutrinário autoritativo e de governo sobre homens na assembleia. 6.3. Argumento dos dons espirituais: se Deus concede dons, por que restringir? Alguns sustentam que, se uma mulher manifesta dons de ensino, liderança e pastoreio, a igreja estaria “resistindo ao Espírito” se não a ordenasse ao pastorado. A resposta é que dons e ofícios não são idênticos. Deus pode conceder dons que devem ser exercidos dentro dos limites estabelecidos por Sua Palavra. Mesmo entre homens, nem todo aquele que possui dom de ensino é, por isso, automaticamente ordenado presbítero. Os dons são regulados pela estrutura de autoridade descrita nas epístolas pastorais, e não o contrário. 6.4. Argumento cultural: os textos de Paulo seriam condicionados ao patriarcado do século I Um dos principais pilares do igualitarismo evangélico é afirmar que as proibições de Paulo (1Tm 2; 1Co 14) seriam respostas a problemas locais e culturais, sem validade normativa para hoje. 

A refutação complementarista observa que: • • • Em 1Tm 2:13–14, Paulo fundamenta a instrução na ordem da criação e na queda, e não em fatores culturais locais. Em 1Co 14:33–35, ele apela ao padrão seguido “em todas as igrejas dos santos”, sugerindo uma prática ampla, e não meramente local. Se os textos forem relativizados como meramente culturais, abre-se espaço para relativizar também outras instruções éticas e doutrinárias fundamentais. 6.5. Argumento pragmático: reconhecimento do que já acontece na prática Algumas igrejas argumentam que mulheres já exercem liderança e ensino na prática e que a ordenação seria apenas um reconhecimento formal dessa realidade. A resposta bíblica é que a prática da igreja deve ser constantemente reformada pela Escritura, e não o contrário. Se determinados padrões de liderança não se harmonizam com o modelo apostólico, o chamado é à correção humilde, não à institucionalização da prática existente. Além disso, é plenamente possível reconhecer, honrar e usar o dom de liderança de mulheres em múltiplas esferas (discipulado, ministérios femininos, ensino de crianças e jovens, missões, aconselhamento, diaconia) sem conferir o ofício pastoral.

Por: Jorge Andrade

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