O real e um tempo irreal

Entre no túnel do tempo, volte a 1994 e pense nesta história. Era uma vez um país que teve cinco planos de estabilização fracassados. Um deles chegou a prender o dinheiro das famílias e empresas. O país era governado por um presidente que cumpria mandato tampão de dois anos. Que chance havia de dar certo a sexta tentativa e a moeda estar comemorando 20 anos?
Não havia pré-condições. Isso era o que garantia a maioria dos economistas. Aliás, os que dominavam a arte de estabilizar estavam querendo distância do governo e dos políticos. Para piorar, o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, que iria convencer os economistas e arquitetar o plano naquele curto governo, era o quarto a assumir o cargo. Sete meses haviam sido perdidos em trocas de ministros.
A história do real parece irreal. É de deixar os ficcionistas com a impressão de não ter muita imaginação. É cheia de improváveis.
Os brasileiros estavam exaustos da inflação que havia tido picos de 83% num mês e estava, naquele ano, chegando aos 5.000% no acumulado de 12 meses. Estavam igualmente cansados dos sustos e das mudanças arbitrárias de regras na economia que cada plano significava.
O país fez, então, a um governo fraco e curto, duas exigências: derrube a inflação e me conte antes tudo o que pretende fazer. Até então os planos haviam usado o fator surpresa. Num dia determinado, anunciava-se o congelamento, mudavam-se todas as normas monetárias e um nova moeda passava a circular sem a inflação passada.
Os arquitetos do Plano Real tinham uma fórmula que atendia ao pedido de mudar avisando com antecedência. Era introduzir uma nova moeda na economia e ir convencendo as pessoas e empresas a passarem a usá-la. A adesão seria espontânea. Um dia, a antiga seria extinta, porque ninguém gostaria de ter seus preços e contratos numa unidade de conta que se desvalorizava com a velocidade da inflação.
Mas como tudo nessa história tem uma complicação, a legislação brasileira impedia a existência de duas moedas. Foi preciso então criar algo que não fosse exatamente moeda. Não poderia circular, não existiria no mundo das coisas. Tinha que ser uma abstração. Uma unidade de conta. E assim foi criada a URV, Unidade Real de Valor.
Ao escrever o livro “Saga Brasileira”, contando a história da estabilização, eu quis conversar com pessoas de regiões diferentes do país e de vários níveis sociais porque tinha visto, ao longo dos anos, que não era uma história descarnada. Estava convencida de que o sucesso não era apenas obra de alguns economistas, fechados numa sala, tendo ideias geniais. As mudanças afetavam a vida das famílias e desorganizavam as empresas. Qualquer projeto só daria certo se fosse feito pelo convencimento e não por decreto.
A inflação tinha chegado a dois dígitos nos anos 1940. Em 1964, quando estava em 80%, foi um dos pretextos para a derrubada do governo civil pelos militares. A taxa caiu, mas não chegou a um dígito. Depois, voltou a subir. Ao fim das duas décadas da ditadura, ela estava mais forte, pela introdução da correção monetária, e havia chegado a 300%. Ela disparou nos primeiros anos de governo civil, por causa da indexação.
A história da alta inflação que virou hiperinflação tinha meio século quando o real entrou na conflagrada cena monetária brasileira. Os economistas foram geniais, sim, e determinados a tentar o impossível. Criaram a URV e com ela conduziram o país, de forma elegante, na travessia para uma nova ordem. Mas o grande trunfo que aquele governo, sem tempo, conseguiu foi unir os brasileiros em torno do projeto.
Depois, esse pacto enfrentou testes nas várias crises que se seguiram. A mudança de governo foi um teste decisivo. Em 2002, a então oposição, que se opusera ao plano, crescia nas pesquisas e seu programa inicial de governo tinha ideias capazes de demolir o edifício lentamente construído. O recado da população foi de novo firme. Queria trocar de governo, mas sem perder a moeda.
O real exigiu do país muitas reformas. E continua exigindo. A inflação é de um dígito, mas ainda é alta. Há riscos, ainda há. Mas quem viu a caminhada sabe que houve momentos em que parecia impossível o evento que agora completa 20 anos.
Míriam Leitão e Alvaro Gribel (Globo)


