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Como os cinemas de rua morreram

A segunda metade do século XX foi marcada pela decadência dos cinemas de rua. A cidade de Salvador começou a passar por importantes transformações espaciais. O Centro começou a perder sua importância com a expansão urbana em direção ao vetor norte. Começa o crescimento de um novo centro  chamado de Iguatemi/Tancredo Neves e começa a decadência do antigo centro de Salvador, a Cidade/Comércio. De acordo com a revista Infocultura (que em seus segundo número enfocou o Centro Antigo de Salvador), a decadência começa quando o governo decide expandir a cidade e redefinir a dinâmica pública. As consequências desse processo foram bastante sérias para o Centro Antigo, já que o subcentro Iguatemi roubou a cena e atraiu uma série de atividades e serviços que outrora funcionavam no Centro Antigo.
Enfraquecimento
As políticas adotadas de consolidação do novo subcentro, em detrimento do antigo, acabaram por provocar um esvaziamento paulatino na segunda metade do século XX e o enfraquecimento dos cinemas de rua, os quais foram fechando suas  portas aos poucos ou se transformando em cinemas pornôs.
Muitas das edificações que abrigavam exibições da sétima arte tiveram suas funções alteradas, dando lugar a outras atividades, dentre as quais a religiosa, devido à facilidade de adaptação e os espaços, antes funcionavam os cinemas terminaram sendo comprados. Alguns cinemas de rua tornaram-se especializados no gênero pornográfico, o que foi introduzido no país por volta dos fins dos anos 1970, sendo exibidos em algumas salas de cinema existentes. Hoje, só o Cine Tupy, única funcionar na Baixa dos Sapateiros continua a exibir filmes pornôs.
O cinema foi e é de fundamental importância para a sociedade, influenciando no imaginário, nos hábitos e costumes das pessoas. Atualmente, apenas 2 daqueles cinemas de rua estão em funcionamento na cidade: Tupy e o antigo Guarany que hoje é chamado Espaço Unibanco de Cinema – Glauber Rocha. 
Vale ressaltar que este cine esteve fechado por 10 anos, sendo depois reformado, tendo suas características arquitetônicas modificadas. Entretanto, o Espaço Unibanco distingue-se do outro cinema de rua em funcionamento basicamente por dois motivos: configura-se como um cinema “híbrido”, pois apesar de estar “na rua” possui ambiência semelhante aos cinemas de shopping center, inclusive com a existência de várias salas de projeção, e não é destinado
A socialização e as telonas
O cinema era tido como uma forma de socialização que não se vê hoje. “O cinema de rua era o programa em si, era sair de casa para ir ao cinema, frequentar o templo da imagem, o templo do cinema. As pessoas se preparavam, se organizavam, iam acompanhadas, tinha uma socialização que o shopping não promove. Acho que é uma perda enorme em termos culturais”, diz o exibidor de Cinema de Arte, Pedro Olivotto.
Para ele, a decadência começou na década de 70, por diversos motivos: a chegada da televisão, do VHS e, principalmente, o crescimento da metrópole, que trouxe os problemas sociais e um inchaço populacional que as grandes salas não puderam suportar. ”É uma fatalidade que aconteceu, não só na Bahia mas, em todo o Brasil e em boa parte do planeta.
A especulação imobiliária, os problemas sociais que os centros das grandes cidades carregam, o problema de frequência, o problema da violência, tudo isso também contribuiu. Outra questão é a dimensão das antigas salas de cinema. Hoje, no mundo inteiro, a quantidade de filmes lançados está em torno de mil por ano. Uma grande sala de cinema não dá giro aos títulos que são lançados anualmente, de modo que elas deveriam ter sido transformadas em múltiplas pequenas salas”, afirma Olivotto.
Na mesma época houve o crescimento das igrejas evangélicas, que começaram a ver nas grandes salas de exibições, espaços ideais. A maioria dos cinemas de rua se transformou em igrejas.E quem são os responsáveis pelo fim dos cinemas de rua? Para Olivotto foi a falta de intervenção do poder público. Acho que faltou completa visão da importância do cinema na estruturação da cultura de um povo, de um país, de uma nação.
Outro fator importante foi que no Brasil também houve fechamento de salas no  interior do país porque o cinema foi invadido pela televisão, filme na TV e depois na TV a cabo, e não teve poder público que incentivasse, diz ele. “O Brasil hoje sofre as consequências de um investimento exagerado e maciço na produção e de uma falta de atenção às salas de exibição”. O governo incentiva a produção. Mas, e a exibição? Perguntou. Para o critico de cinema André Setaro, o cinema brasileiro não consegue ser exibido nos circuitos comerciais de cinema. Apenas conseguem isso, os filmes em co-produção com as multinacionais. “O bom cinema brasileiro só é visto em festivais”, afirmou.
Impacto cultural da era shopping Center
Com a mudança dos espaços, mudou o modo de fazer filmes e de assisti-los. Por consequência, mudou também toda a configuração cultural da sociedade em relação ao cinema. Uma pesquisa recente do DataFolha demonstra que quase metade dos entrevistados em todo país não são frequentadores de cinema: a maioria prefere assistir a filmes em DVD e na TV Aberta, e mais da metade prefere assistir a filmes dublados. 
Para o estudante de Cinema Jaime Ferreira, isso é um sinal da banalização da cultura que o shopping center promove: “Veja, se os cinemas ficam cada vez mais confinados nos shoppings e o shopping, sem dúvida nenhuma, é a representação de um puro entretenimento e consumo, evidentemente que houve também uma banalização cultural, e a banalização cultural propicia a dublagem.
Para ele, filmes legendados são muito mais exigente: para você ouvir o som original ela exige mais, e ela tangencia muito mais uma postura cultural e cívica, porque você vê a obra no original. “Mas o shopping é a banalização de toda forma de consumo, inclusive o cinema, e banalizar mais o cinema do que dublar, não é possível”. Outro detalhe: a mesma pesquisa do DataFolha demonstra que o público assiste a mais filmes estrangeiros do que nacionais e que o grau de interesse pelo cinema nacional está de “mediano” para “pouco”.

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