Mulheres vivem em situação de violência e não percebem

A falta de acesso à informação talvez seja uma determinante para que pessoas vivam em situação de violência e não tenham consciência do fato. Foi o que esclareceu a coordenadora do Coletivo de Mulheres do Calafate, Marta Leiro, ao apresentar relatos de moradoras da comunidade que, vítimas constantes de vários tipos de violência em casa, aos poucos estão se engajando ao grupo criado com o objetivo de defender a mulher contra a violência. Marta Leiro foi a convidada de hoje, dia 26, do projeto ‘Diálogo de Saberes’ que, sob a coordenação da promotora de Justiça Márcia Teixeira, vem promovendo a articulação entre a academia e a sociedade civil, trocando saberes acadêmicos e populares que favorecem a atuação ministerial.
A comunidade do Calafate se situa no bairro de Fazenda Grande do Retiro. Marta lamenta que a mídia frequentemente estampe notícias sobre a localidade principalmente por conta da violência urbana, agravada com a questão das drogas e que o Estado não se faça presente com medidas de enfrentamento ao problema, como o caso exige, intensificando principalmente as atividades ligadas à educação. Para ela, a questão da violência contra as mulheres ainda não é vista como deveria, a Justiça é lenta, as audiências são marcadas para datas muito distanciadas das ocorrências, faltam defensores e, nas delegacias criadas para as mulheres, falta estrutura a ponto de estarem sendo atendidos só os casos previstos na Lei Maria da Penha. Os demais, como estupros nas ruas, são encaminhados para delegacias comuns.
A criação da Lei Maria da Penha é considerada um avanço para Marta, mas as dificuldades para quem aciona esta lei ainda são muitas. Mas ela diz acreditar em mudanças e que de qualquer forma esta lei ajudou muito a aproximar o Ministério Público dos movimentos sociais e das mulheres, enaltecendo a atuação do Grupo de Atuação Especial em Defesa da Mulher (Gedem), coordenado por Márcia Teixeira, que significou uma mudança do perfil institucional e veio fortalecer a vontade de lutar cada dia mais contra a violência sofrida pelas mulheres. “A gente via o Ministério Público como algo distante” diz, acrescentando que, antes, as questões de violência doméstica ficavam na esfera da Secretaria de Segurança Pública e havia dificuldades tendo em vista, inclusive, que as leis são muito influenciadas pela cultura patriarcal.
O Coletivo foi criado por mulheres que antes se encontravam com alguma frequência e um dia, durante uma reunião para tratar da organização de uma festinha junina, uma delas foi arrastada pelos cabelos pelo companheiro que a espancou em público. A partir daí elas começaram a discutir seu dia a dia e foram descobrindo o contexto de violência física, psicológica e sexual que sofriam e nem percebiam a ponto de, até hoje, não conseguirem chamar o parceiro de agressor, considerando muitas vezes que eles tinham determinadas atitudes violentas movidos por uma atitude de extremo amor e cuidado, pontuou. Sem qualquer auxílio profissional, elas foram se ajudando, se analisando em divãs sem psicanalistas e hoje fazem um trabalho tentando encantar as mulheres que andam desencantadas até por conta das perdas de entes queridos por causa da violência e já contam com algumas parcerias de órgãos e outros movimentos que atuam com o mesmo objetivo.
Com dificuldades, diz Marta, o Coletivo atua no sentido de elevar a autoestima das mulheres, realiza atividades durante as reuniões, acolhe as que precisam de acolhimento, faz-se presente durante uma denúncia de maus-tratos, acompanha processos e busca detalhamentos, vez que muitas não sabem buscar informações na internet como orientam prepostos da Justiça e não entendem a linguagem jurídica. Ao lado disso, Marta diz que foi criado um projeto de turismo comunitário e visitantes já podem fazer um “tour” conhecendo a culinária e artesanato local, além de participar de atividades culturais como rodas de capoeira. “Queremos encantar a comunidade e também queremos encantar os visitantes. Não temos só violência pra mostrar,” conclui esta líder comunitária, que agora começou a fazer o curso de Serviço Social buscando dar um peso acadêmico ao serviço que fazia pelo social com base na produção de conhecimento prático.(MP)

