Tucanos no muro

Apesar de entronizado na presidência nacional do PSDB e lançado candidato por algumas das cabeças coroadas do partido, tendo como patrono ninguém menos que o ex-presidente FHC, o senador Aécio Neves ainda enfrenta tensões no tucanato paulista.
Na quinta-feira, o governador Geraldo Alckmin, que na semana anterior já havia dito que Aécio não é o único presidenciável do partido, voltou a fustigá-lo. Não diretamente, claro: não é da índole do partido o confronto.
Mas há modos enviesados de dar recados que muitas vezes são mais contundentes que o ataque direto. Alckmin voltou a dizer que “é muito cedo para o PSDB lançar o seu candidato a presidente”. E, a seguir, sapecou, sem que ninguém o perguntasse: “Serra deve ser candidato em 2014”.
Ato contínuo, a inevitável pergunta: candidato a quê? E a resposta enigmática: “Só ele pode responder”. Juntando-se as pontas das sentenças – “é cedo para lançar candidato”; “Aécio não é o único nome”; “Serra é candidato em 2014” e “só ele pode responder a quê” -, tem-se uma conclusão óbvia: a candidatura de Aécio ainda não está consolidada.
Alckmin sabe do peso de suas palavras dentro do partido: é governador pela segunda vez, com direito à reeleição, e foi candidato do partido à Presidência da República. Não é baixo clero e sabe que suas palavras contrariam figuras de proa do partido – a começar por FHC.
Seu perfil é de um político moderado, avesso a confrontos. Por que então comprou essa briga? Quem o respalda? Serra é beneficiário de suas palavras, mas não as comenta.
Por mais que evite falar de divergências com Aécio e até exiba apoio formal às decisões do partido – que incluem o pré-lançamento da candidatura de Aécio -, sabe-se que não está exatamente feliz. Em política, as aparências sempre enganam.
Basta lembrar que, na campanha presidencial passada, Aécio também declarava apoio a Serra, apareceu em alguns de seus programas eleitorais, mas, por trás daquela coreografia, liberava os prefeitos aliados de Minas para votar em Dilma Rousseff.
Popularizou-se na ocasião o neologismo “Dilmasia” – composição híbrida da candidatura a governador do tucano Antonio Anastasia com a da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Serra, como se sabe, perdeu em Minas, onde seria previsível que vencesse, dada a liderança incontestável que Aécio lá exercia.
Se Aécio se engajasse de fato – era o que na época comentava-se no tucanato paulista -, Serra venceria as eleições.
A deslealdade foi absorvida em silêncio, para ser cobrada no momento adequado. E esse momento não pode ser outro, senão este, em que nova campanha sucessória já está em curso.
A rivalidade entre as seções paulista e mineira do PSDB é antiga. Isso explica o paradoxo de o partido governar os dois maiores colégios eleitorais do país e, ainda assim, perder sucessivas eleições presidenciais. Ocorre que agora a divisão se estabeleceu dentro da própria seção paulista.
FHC ressentiu-se, na eleição passada, de ter sido ocultado pelos marqueteiros de Serra como uma espécie de nome maldito, a ser escondido. Serra falava do Plano Real, de sua performance nos ministérios que ocupou na gestão de FHC, mas nenhuma palavra a respeito do próprio. Imagens, nem pensar.
Consumada a derrota, Fernando Henrique passou a falar em renovação de quadros e a se aproximar ostensivamente de Aécio. Lançou-o candidato e é, internamente, seu principal sustentáculo.
Alckmin vocaliza a facção contrariada. Aécio, orientado por Fernando Henrique, decidiu viajar e se expor nacionalmente, visitando os estados, dando palestras e entrevistas. Quer provar que é um político nacional, não restrito a Minas Gerais, como sustenta o fogo amigo paulista.
Se conseguir visibilidade e angariar prestígio – e a presidência nacional do partido garante-lhe essa mobilidade -, confirmará sua candidatura, mas não necessariamente a capitulação do grupo que Alckmin presentemente vocaliza.
O PT agradece: nada como um adversário em guerra civil. Pra variar.
Por Ruy Fabiano

