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Em busca dos fios perdidos

Embora um ditado garanta que as mulheres reconhecem seu charme, os carecas, membros de um grupo abrangente — metade dos homens com mais de 50 anos sofre de calvície —, muitas vezes não se sentem atraentes. Isso porque eles não são só atingidos no couro cabeludo. A cabeça também padece com frustração e insegurança. Mas, ainda que a cabeleira da adolescência seja irrecuperável, é possível, ao menos, conter a perda dessa cobertura natural. Entretanto, a finasterida, medicamento conhecido por debelar a queda, vive envolta em uma discussão que propõe uma escolha perturbadora: manter os fios ou arriscar sofrer disfunções sexuais? 

Recentemente, um estudo com 71 voluntários da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, concluiu que a diminuição de libido provocada pelo remédio permanece em alguns pacientes até 40 meses depois da interrupção do tratamento. “Em outro trabalho, no entanto, muitos manifestaram diminuição da libido apenas por acreditarem ter tomado finasterida”, contrapõe o tricologista Adriano Almeida, diretor da Sociedade Brasileira do Cabelo, em São Paulo. “Isso está incrustado no subconsciente de algumas pessoas”, completa. Em outras palavras, pode ser exagerado acusar o fármaco de principal causador do transtorno. 

De fato, a finasterida age sobre a testosterona, substância muito associada ao desejo. A droga inibe uma enzima que promove a transformação desse hormônio masculino em di-hidrotestosterona (DHT), molécula que, além de aumentar o apetite sexual, causa nos homens com pré-disposição genética o enfraquecimento dos cabelos. Logo, esse bloqueio pode reduzir sensivelmente a vontade de fazer sexo. Ou até diminuir o volume ejaculatório, uma ameaça para quem pretende aumentar a família. Mas isso não é motivo para se descabelar. “A suspensão da finasterida quando o paciente quer ter filhos é uma prática comum e aparentemente eficaz”, ressalta Almeida. 

Outra coisa: os efeitos colaterais podem ser percebidos de maneira diferente no organismo, dependendo da idade do paciente. “Aos 20 anos, a diminuição da vontade de fazer sexo é mais percebida. Com 40 anos ou mais, muitos nem notam”, salienta o endocrinologista Alexandre Hohl, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, em Florianópolis, Santa Catarina. 

Tanta desconfiança com o estudo da Universidade George Washington tem razão de ser. “O número de indivíduos consultados é pequeno, e a abordagem foi realizada pelo telefone”, critica Alexandre Hohl. Isso quer dizer que nenhum dos pesquisados se submeteu a uma avaliação clínica. “Não se sabe se os efeitos foram mesmo causados pelo medicamento. O efeito psicológico aí é muito importante”, argumenta Lilian Harder, médica e representante da Merck Sharp & Dome (MSD), laboratório que fabrica o remédio desde 1998. Já o estudo da farmacêutica usou 3 200 pacientes, e, neles, as consequências persistiram por no máximo três meses após a interrupção do tratamento.

(Saúde)

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