GeralNotíciasOpinião

Trens e VLT no Subúrbio Ferroviário de Salvador: entre a memória e o futuro da mobilidade

O Sistema de Trens do Subúrbio Ferroviário de Salvador foi desativado definitivamente em 15 de fevereiro de 2021. Desde então, já se passaram mais de cinco anos sem aquele velho trem que, durante décadas, subiu e desceu pelos trilhos levando trabalhadores, estudantes, famílias e milhares de moradores do Subúrbio.

Agora, em setembro de 2026, uma nova realidade começa a surgir com a implantação do VLT. Algumas estações já foram reconstruídas e o novo sistema avança pelo Subúrbio, representando uma mudança significativa na mobilidade urbana de Salvador.

É preciso reconhecer a importância desse novo modal e o que ele poderá representar para o futuro da cidade. Mas também é necessário preservar a memória dos antigos trens, porque eles fizeram parte da história de milhares de pessoas.

O trem do Subúrbio, apesar de todas as suas limitações, cumpriu durante muitos anos uma função social fundamental. Era um transporte acessível, utilizado principalmente por uma população que muitas vezes não tinha outra alternativa para se deslocar entre as comunidades do Subúrbio e outras regiões de Salvador.

Era um transporte simples, mas que fazia parte da vida cotidiana de muita gente.

Hoje, chega o VLT com a promessa de oferecer mais conforto, segurança, modernidade e integração. Porém, existe uma questão que não pode ser ignorada: o preço da passagem.

Durante muito tempo, o trem era conhecido pela tarifa simbólica, que chegou a custar apenas R$ 0,50. Com o novo sistema, fala-se em uma tarifa que poderá chegar a valores próximos de R$ 5, mas o valor definitivo e o modelo de custeio ainda precisam ser conhecidos e esclarecidos à população.

E aqui está uma pergunta que merece ser feita: um sistema moderno de transporte público precisa necessariamente significar um transporte mais caro para quem mais precisa dele?

Talvez seja necessário pensar além da obra física. É preciso pensar também na política tarifária, na integração e no caráter social do transporte público.

Se o VLT avançar até Simões Filho, se as demais etapas forem concluídas, se houver a expansão em direção à Orla Atlântica e se o sistema também alcançar regiões importantes da cidade, estaremos diante de uma transformação significativa na mobilidade de Salvador.

Mas a população precisa saber quanto vai pagar e, principalmente, quais serão as condições de integração entre os diferentes modais.

Porque Salvador já vive uma transformação importante na mobilidade urbana.

A chegada do metrô modificou a maneira como milhares de pessoas se deslocam pela cidade. Depois veio o BRT, ampliando as alternativas de transporte e conectando diferentes regiões. Agora, o VLT surge como mais uma peça desse grande sistema de mobilidade.

Metrô, BRT, VLT, ônibus e transporte hidroviário precisam funcionar de maneira integrada. Não adianta construir diferentes modais se o cidadão continuar enfrentando dificuldades para fazer uma simples conexão entre um transporte e outro.

Salvador cresceu. A população cresceu. O número de veículos aumentou. E os congestionamentos passaram a fazer parte da rotina de quem circula pelas principais avenidas da cidade, como Bonocô, Paralela e Antônio Carlos Magalhães.

Por isso, mobilidade urbana não pode ser tratada apenas como obra. É uma questão de qualidade de vida.

Cada minuto perdido diariamente em congestionamentos representa tempo que poderia estar sendo utilizado para trabalhar, estudar, descansar ou estar com a família.

O Subúrbio Ferroviário conhece muito bem essa realidade. Durante anos, seus moradores utilizaram um sistema que, mesmo com suas dificuldades, fazia parte da vida da comunidade. Hoje, cinco anos depois da desativação dos trens, o VLT chega carregando uma expectativa muito grande.

A expectativa é de um transporte mais digno, moderno, seguro e eficiente.

Mas também existe uma cobrança legítima: quando esse sistema estará efetivamente funcionando em sua plenitude?

A população não quer apenas obras, estações bonitas ou testes. Quer transporte funcionando de verdade, com horários confiáveis, integração eficiente, tarifa acessível e respeito ao usuário.

O VLT pode representar um novo capítulo para o Subúrbio Ferroviário de Salvador. Mas esse capítulo precisa ser escrito com a participação e o benefício daqueles que sempre dependeram do transporte público.

O velho trem ficou na memória.

O VLT representa o futuro.

Que esse futuro não seja apenas moderno nos trilhos, mas também mais humano para quem precisa utilizá-lo todos os dias.

Visão Cidade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *