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Carta do PT aos Evangélicos: Um recado de Satanas ao Povo de Deus

Por Jorge Andrade

Em mais uma tentativa de reduzir a histórica rejeição que enfrenta entre os evangélicos brasileiros, o Partido dos Trabalhadores lançou uma nova carta direcionada a esse segmento religioso. O documento, divulgado após o IV Encontro Nacional de Evangélicos do PT, mistura passagens bíblicas, defesa de programas sociais e apoio explícito à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026.

À primeira vista, o texto parece um gesto de aproximação e diálogo. Contudo, uma leitura mais atenta revela algo diferente: um esforço político-eleitoral cuidadosamente planejado para conquistar um eleitorado que, historicamente, tem demonstrado profunda desconfiança em relação ao projeto ideológico defendido pelo partido.

O documento afirma rejeitar o uso político da religião e condena a manipulação da fé para fins eleitorais. No entanto, a própria existência da carta levanta uma questão inevitável: se a fé não deve ser instrumentalizada politicamente, por que recorrer a versículos bíblicos para justificar um projeto partidário e uma candidatura presidencial?

A contradição é evidente.

Ao longo dos últimos anos, lideranças e militantes ligados à esquerda brasileira frequentemente classificaram pautas defendidas por igrejas evangélicas como conservadoras, retrógradas ou incompatíveis com determinados avanços sociais defendidos pelo campo progressista. Agora, às vésperas de uma eleição decisiva, o discurso muda de tom e a Bíblia passa a ocupar lugar central na comunicação política do partido.

Outro aspecto que chama atenção é aquilo que a carta não diz.

O texto evita abordar temas que historicamente geram atritos entre grande parte do eleitorado evangélico e a esquerda brasileira, como aborto, ideologia de gênero, liberdade de consciência religiosa, direitos da população LGBTQIA+ e limites da atuação do Estado sobre valores familiares. Diversos veículos de comunicação observaram que esses assuntos simplesmente desapareceram do documento.

Não se trata de um detalhe.

Trata-se justamente dos temas que motivaram o afastamento de milhões de evangélicos do PT ao longo das últimas décadas.

Ao silenciar sobre essas pautas, a carta parece mais preocupada em evitar desgaste eleitoral do que em promover um diálogo franco e transparente com os fiéis. É uma estratégia de marketing político que procura destacar convergências sociais enquanto oculta divergências morais e culturais profundas.

A utilização de textos bíblicos para sustentar propostas governamentais também merece reflexão.

O Evangelho não foi escrito para servir de programa partidário. A mensagem cristã transcende governos, ideologias e disputas eleitorais. Quando partidos políticos tentam se apropriar da linguagem religiosa para legitimar projetos de poder, correm o risco de transformar a fé em ferramenta de convencimento político.

Justamente aquilo que a própria carta afirma condenar.

A tentativa não é inédita. Desde pelo menos 2002, o PT produz documentos, encontros e manifestações direcionadas ao eleitorado evangélico. O problema é que, passadas mais de duas décadas, a desconfiança permanece elevada. Pesquisas recentes continuam mostrando significativa vantagem dos candidatos de perfil conservador entre os protestantes brasileiros.

Isso ocorre porque boa parte dos evangélicos não avalia apenas programas sociais ou indicadores econômicos. Avalia também coerência, valores, posicionamentos históricos e alinhamento entre discurso e prática.

Nesse contexto, a nova carta parece menos um manifesto de fé e mais uma peça de campanha.

Uma tentativa de convencer um público que o partido nunca conseguiu conquistar plenamente.

A Bíblia ensina que a verdade liberta e que pelos frutos se conhece a árvore. Talvez seja exatamente por isso que milhões de evangélicos continuem observando não apenas o que está escrito nas cartas eleitorais, mas principalmente aquilo que foi dito, defendido e praticado ao longo dos anos.

Porque palavras podem mudar de uma eleição para outra.

Convicções, não.

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