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Restauração de monumentos em Salvador envolve técnicas especiais de limpeza e proteção das peças

Aos poucos, o mármore escurecido pela sujeira retoma a sua tonalidade branca e faz surgir o brilho de quando o monumento foi instalado, ao centro do Campo Grande, como um altar cívico da identidade baiana. Considerado o monumento mais alto da América do Sul quando inaugurado, e um dos mais belos construídos no continente, o monumento ao Dois de Julho passa por um processo de limpeza e restauração, que deve durar aproximadamente dois meses.


A escultura, esculpida na Itália, foi inaugurada em 1895, nas comemorações pela Independência do Brasil na Bahia e, desde então, é o ponto de culminância das celebrações anuais pela data magna em Salvador. É neste local que ocorre o encontro de autoridades para acompanhar a cerimônia cívica, com a chegada dos carros alegóricos do Caboclo e da Cabocla, o hasteamento das bandeiras, a colocação de coroa de flores, acendimento da pira do fogo simbólico e a execução do Hino ao Dois de Julho.


O monumento ao Dois de Julho tem 25,86 metros de altura. No topo, a escultura de um indígena com mais de 4 metros, armado de lança e arco e flecha, representa a identidade do povo brasileiro que lutou pela Independência.


A limpeza e restauração está sob a responsabilidade do restaurador de obras de arte José Dirson Argolo, professor aposentado da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba). É ele quem faz a maioria das restaurações e limpezas dos monumentos públicos de Salvador há aproximadamente 30 anos, em prestação de serviço à Fundação Gregório de Mattos (FGM).


Dirson explica o que está sendo feito no Campo Grande: “Primeiro, estamos atuando na limpeza das esculturas de bronze, que ficam na parte mais baixa do monumento, nas escadarias, a exemplo dos quatro leões e dos dois homens mais velhos, que representam os dois rios mais importantes da Bahia, que são o São Francisco e o Paraguaçu. Estamos dando prosseguimento com a limpeza dos mármores; tudo isso com produto químico, escovas próprias, água destilada e sabão neutro”.


Alguns conjuntos das extremidades também já passam pelo processo de pintura. Em seguida, serão utilizadas plataformas elevatórias para a limpeza da coluna e do próprio Caboclo, que fica na parte mais alta.


No segundo momento de limpeza da escultura e peças mais altas, será feita também a eliminação das plantas aéreas e utilização de herbicida para evitar o renascimento de vegetação. Segundo o restaurador, há uma vegetação de aproximadamente 1 metro no local, provavelmente resultante das sementes presentes nas fezes de pombos e outras aves.


“Depois de todo o processo de limpeza, faremos finalmente a restauração dos oito candelabros de ferro fundido com as luminárias e do gradil que circunda todo o monumento. Também removeremos o rejunte das juntas, já deteriorado pela umidade e pelo tempo, e aplicaremos um novo. Além disso, faremos as correções de algumas peças de bronze danificadas pelo tempo. É um trabalho muito delicado, mas tudo deve ficar pronto às vésperas do 2 de Julho”, afirma Dirson.


O monumento foi esculpido pelo artista italiano Carlo Nicoli y Manfredi, antigo vice-cônsul do Brasil, com a colaboração de outros artistas italianos. A montagem coube ao engenheiro Antonio Augusto Machado. O monumento foi restaurado em 2017 e passou por uma limpeza no ano passado, mas este ano o processo de limpeza é executado de forma mais completa.


Manutenção – A preservação das obras de arte de Salvador é um trabalho difícil e demanda investimentos constantes da Prefeitura. O trabalho é realizado a partir do monitoramento contínuo promovido pela Gerência de Patrimônio Cultural da FGM, que realiza vistorias técnicas e ações de fiscalização periódicas nos monumentos, além dos serviços de reparação e manutenção com apoio da Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal) e da Secretaria Municipal de Manutenção (Seman).


Dirson destaca as dificuldades mais frequentes: “Chove muito em Salvador e a cidade tem alto índice de salinidade, o que colabora com a corrosão dos objetos de metal. Além disso, temos o vandalismo, a cada dia mais constante”.


Segundo Dirson, os problemas mais frequentes são a oxidação do ferro e do bronze. No bronze, as peças apresentam crostas esverdeadas, devido à reação com a atmosfera. Outros problemas recorrentes são a sujeira, principalmente proveniente das fezes de pombo e de outras aves, a presença de vegetações e os danos devido ao furto e ao vandalismo.


“Quando as peças de bronze estão muito escurecidas e esverdeadas, fazemos primeiro uma limpeza química, depois uma limpeza com microesfera de vidro, que é uma técnica italiana. Eu me formei em restauro pela Universidade de Florença e trabalhei alguns anos em órgãos do patrimônio florentino, então trouxe para cá essa tecnologia”, explica. 


Após a limpeza, é aplicada imediatamente uma camada de verniz, à base de Paraloid B72, uma resina acrílica criada na Inglaterra e importada dos Estados Unidos. O produto protege e mantém por mais tempo a tonalidade natural do bronze, de um dourado meio antigo.


No caso dos mármores e granitos, os problemas mais comuns, além do vandalismo, são pichação, colagem de cartazes, panfletos e adesivos, além de sujidades.


Reposição – Quando há perdas nas esculturas, a equipe de trabalho do restaurador precisa de um escultor para modelar as peças que faltam em barro e, em seguida, retira-se o molde delas em resina e fibra de vidro. Para isso, são observadas fotografias e a documentação existente no ateliê e também nos arquivos da Prefeitura, principalmente da Fundação Gregório de Mattos.


Foi o que ocorreu, por exemplo, com a escultura do Gandhi Andante, situada na Praça da Inglaterra, no Comércio, que teve várias peças furtadas.


“O ideal seria repor todas essas peças em bronze, mas sabemos que, se repusermos em bronze, essas peças provavelmente serão roubadas novamente. Então, infelizmente, temos que repor com um material menos nobre, o que eu lastimo muito, mas é o que nós temos feito”, afirma Dirson.

Foto: Jefferson Peixoto / Secom PMS
Reportagem: Priscila Machado / Secom PMS

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