Educação não é peça de propaganda: é alfabetização, dados e verdade
O Brasil tem um problema antigo com educação, mas o que vivemos agora é mais grave: uma crise de aprendizagem que se mistura a uma crise de confiança. E quando a régua vira disputa — quando o dado vira marketing — as crianças, especialmente as mais pobres, perdem duas vezes: perdem o direito de aprender e perdem o direito de a sociedade enxergar o tamanho do fracasso.
É nesse cenário que chega ao comando do Ministério da Educação (MEC) um perfil com trajetória robusta na administração pública, na gestão e na articulação institucional: Leonardo Osvaldo Barchini Rosa. Ninguém discute que tocar um ministério exige capacidade de coordenação federativa, leitura orçamentária, negociação política e domínio de máquina pública. O ponto é outro: educação não é só máquina. Educação é sala de aula. É método. É formação de professor. É alfabetização na idade certa. É matemática básica. E é um sistema de avaliação confiável que permita diagnosticar, cobrar e corrigir.
Quando um país tem uma fração enorme de crianças que chega ao fim do 2º ano sem ler com autonomia, não dá para tratar o MEC como um cargo de “gestão geral”, onde bastaria alguém competente para organizar planilhas, agendas e pactos. É preciso liderança com conhecimento técnico e experiência inequívoca no núcleo do problema: como crianças aprendem a ler e escrever; como redes ensinam matemática; como se treina professor para prática eficaz; como se monitora aprendizagem com evidência, seriedade e transparência.
O currículo público de Barchini, especialmente no recorte disponível no Lattes em PDF (atualizado em 2021) e no que foi noticiado sobre suas funções, aponta forte atuação em estruturas de Estado (Capes e MEC), com passagens por chefias e diretorias, relações institucionais e cooperação. É um perfil típico de operador institucional. O que não aparece com a mesma nitidez — e isso importa muito — é a assinatura técnica de alguém que “vira o jogo” na alfabetização e na matemática: implementação de política pedagógica com meta, método, acompanhamento, avaliação e correção de rota com base em dados.
A crise brasileira não é abstrata. Ela tem rosto, endereço e classe social. Análises atribuídas ao Unicef, a partir de levantamentos como a PNAD Contínua, popularizaram um retrato brutal do pós-pandemia: na transcrição que circula amplamente (e que recebemos em PDF), consta que a parcela de crianças de 7 anos que não sabiam ler e escrever teria ido de 20% para 40% entre 2019 e 2022; e entre as de 8 anos, de 8,5% para 20,8%. Se esses números chocam, é porque descrevem o que as famílias já enxergam: crianças que avançam de série sem dominar o básico, carregando a deficiência para os anos seguintes até virar destino.
E é aqui que a crise de confiança entra em cena. A mesma transcrição aponta uma polêmica envolvendo o INEP e o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), com acusações de atraso na divulgação e de troca de “termômetro” — com a promoção de um indicador alternativo, o Indicador Criança Alfabetizada, baseado em avaliações estaduais e com comparabilidade limitada entre redes. Segundo esse relato, comemorou-se publicamente um número (56%) enquanto, sob pressão, teria vindo à luz um resultado diferente do Saeb para alfabetização no 2º ano: 49,3% em 2023. Aqui, o mais importante não é torcer por um número “melhor” ou “pior”. É compreender a corrosão institucional: sem método de medição consistente e transparência ativa, não existe diagnóstico confiável — e sem diagnóstico não existe política pública séria.
A consequência é óbvia e cruel: quando se maquiam indicadores (ou quando se cria confusão deliberada entre métricas), o governo de turno ganha narrativa; quem perde é a criança que precisava de reforço, de professor bem treinado, de material adequado e de intervenção rápida. E perde também o contribuinte, que financia programas sem saber se estão funcionando.
Não surpreende, portanto, que o Brasil patine em comparações internacionais. No PISA 2022, o país aparece em posições muito baixas: 65º em matemática e 52º em leitura, segundo a cobertura do g1. (g1 — Pisa 2022). Não é “complexidade do Brasil” que explica tudo; é política pública que não entrega o básico com escala e consistência.
Diante disso, a pergunta que interessa não é se o novo ministro é “boa pessoa” ou “bom gestor”. É se o MEC, sob sua liderança, terá coragem de fazer o que é impopular para a máquina e indispensável para a criança: colocar alfabetização e matemática como prioridade absoluta, adotar práticas pedagógicas com evidência, exigir formação docente efetiva, publicar dados com clareza e manter a régua estável — para que o Brasil pare de celebrar metas em palco e comece a celebrar crianças lendo de verdade.
Educação não é peça publicitária. É futuro. E futuro não combina com maquiagem.
Por: Jorge Andrade



