A saúde a caminho da UTI ou já na UTI?

A saúde pública brasileira parece caminhar para a UTI — ou talvez já esteja dentro dela. Quando falamos de saúde, falamos de um conjunto que envolve a saúde científica, a saúde curativa e a saúde preventiva. Esse sistema deveria funcionar como uma engrenagem bem alinhada para garantir atendimento digno à população. Porém, o que se vê na prática é um grande desalinhamento entre municípios, estados e União.
O Brasil possui o Sistema Único de Saúde (SUS), considerado um dos maiores e mais abrangentes programas de assistência em saúde do mundo. Embora muitos o chamem de “gratuito”, é importante lembrar que ele é financiado pelos impostos pagos pelo próprio povo. Ainda assim, poucos países possuem um sistema com a dimensão e a proposta do SUS.
O problema é que, apesar de sua importância e potencial, o sistema não funciona plenamente. Em qualquer lugar do país, seja em grandes centros ou em cidades do interior, as reclamações são constantes. Falta organização, planejamento e, muitas vezes, compromisso com o funcionamento adequado da saúde pública.
A atenção básica, que deveria ser responsabilidade direta dos municípios, em alguns lugares é extremamente precária e, em certos casos, quase inexistente. Há unidades de saúde funcionando, é verdade, mas as queixas são frequentes: falta de medicamentos, ausência de profissionais e carência de especialidades médicas básicas do dia a dia, como clínico geral, pediatra e dentista.
Quando a situação exige atendimento de média ou alta complexidade, o problema se agrava. Muitas vezes não há vagas em hospitais ou leitos disponíveis para procedimentos cirúrgicos, sejam eles de pequeno, médio ou grande porte. Já na esfera federal, as campanhas e propagandas costumam apresentar um cenário positivo, que muitas vezes não corresponde à realidade vivida pela população.
No estado da Bahia, por exemplo, diversos municípios enfrentam enormes dificuldades. A atenção básica é frágil, as estruturas físicas são precárias e, em muitos casos, faltam medicamentos, médicos e até materiais básicos para curativos. Em várias cidades do interior não existem hospitais e, em algumas, nem mesmo maternidades. Assim, muitas crianças acabam nascendo em outros municípios, dependendo de acordos entre maternidades e cartórios para registrar o local de origem dos pais.
Outro modelo adotado no estado são as policlínicas regionais, criadas para atender consórcios de municípios. Apesar de serem apresentadas como solução, muitas vezes os atendimentos dependem do complexo sistema de regulação, que se tornou um dos maiores gargalos da saúde baiana.
Além disso, há localidades onde sequer exames laboratoriais simples são realizados. Pacientes precisam se deslocar para outras cidades em busca de diagnóstico ou tratamento. Situações ainda mais delicadas envolvem crianças com transtorno do espectro autista, que frequentemente não encontram serviços especializados próximos e precisam viajar longas distâncias para realizar exames ou acompanhamento médico.
Diante dessa realidade, muitos municípios recorrem ao chamado TFD (Tratamento Fora do Domicílio), transportando pacientes em ambulâncias para outras cidades. Essa prática, conhecida popularmente como “ambulância-terapia”, acaba se tornando rotina em diversos lugares, revelando limitações estruturais e administrativas na gestão da saúde.
A pergunta que fica é: como evitar que o município onde você mora enfrente esses mesmos problemas? A saúde é um direito fundamental e o SUS financia desde atendimentos básicos até cirurgias complexas e exames de alta tecnologia. Porém, é necessário cobrar planejamento, gestão eficiente e compromisso dos gestores públicos.
Municípios, estados e o Ministério da Saúde precisam urgentemente encontrar um rumo que priorize verdadeiramente o atendimento à população. Essa é a voz de muitos brasileiros — como o senhor Antônio Filho, dona Maria do Rosário, seu João Bacelar e o senhor Paulo José — entre milhares de outros que dependem diretamente de um sistema de saúde mais eficiente e humano.
Observação:
Muitas pessoas afirmam que, para conseguir determinados exames ou cirurgias, acabam recorrendo a vereadores ou deputados em busca de ajuda. O que deveria ser um direito garantido pelo sistema público acaba sendo tratado como um favor político, criando uma relação de dependência e, muitas vezes, uma dívida de gratidão que não deveria existir. A saúde precisa ser direito do cidadão, não moeda de troca.
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