Ponte Salvador-Itaparica: os capítulos intermináveis de uma novela sem fim

Mais um capítulo se inicia na longa novela da Ponte Salvador-Itaparica. Os protagonistas seguem os mesmos: o Governo do Estado da Bahia e os investidores chineses. Agora, novos coadjuvantes entram em cena — moradores e representantes da Ilha de Itaparica, especialmente do município de Vera Cruz, cansados da indefinição que se arrasta há anos.
A população de Vera Cruz e Itaparica já não suporta mais tantas promessas, reuniões e anúncios que nunca levam a um desfecho concreto. São inúmeras as informações desencontradas, os discursos vazios e as perspectivas ilusórias. Não há um cronograma definido, tampouco garantias de que a ponte será, de fato, construída. O povo, que deveria ser o primeiro a ser informado com clareza, permanece à margem, confuso e desinformado. Em vez de transparência, recebem apenas maquetes digitais e vídeos promocionais.
O que se vê é um emaranhado de versões, suposições e contradições. O projeto é citado com frequência, mas nunca há datas, obras iniciadas ou garantias firmadas. A sensação é de abandono — a população discute entre si, nas ruas, nas rodas de conversa, nas salas de aula, sem saber ao certo o que é verdade ou ficção. Itaparica segue, literalmente, a ver navios.
Não se trata de ser contra o projeto. A crítica não deve nascer da ignorância, mas da necessidade de transparência e responsabilidade. É preciso conhecer profundamente o que está por trás de uma proposta tão grandiosa. O Governo do Estado tem falhado em prestar esclarecimentos objetivos, deixando a população sem qualquer senso real de participação ou pertencimento nesse processo.
Há, ainda, um elemento importante nesse jogo: os interesses dos investidores chineses. Ao que tudo indica, a prioridade deles não é a ponte, mas sim a construção da ferrovia que visa facilitar o escoamento de mercadorias até o Pacífico, por meio de um porto no Chile. A ponte parece mais uma promessa política local do que uma prioridade dentro do planejamento logístico dos investidores.
Além disso, há questões maiores por trás dessa relação Brasil-China. Um exemplo claro está na questão da água: enquanto os chineses preservam seus recursos hídricos, o Brasil segue esgotando seus mananciais com a agricultura intensiva voltada à exportação, especialmente de soja e milho. Isso levanta uma reflexão: até onde nosso país está se comprometendo com seu próprio futuro ambiental em nome de um progresso que não se sustenta?
Voltando à ponte, é fundamental entender que a sua construção pode representar, sim, um marco para o desenvolvimento social e econômico dos municípios de Vera Cruz e Itaparica. Mas para isso, é necessário muito mais do que maquetes bonitas. É preciso diálogo, respeito e, sobretudo, responsabilidade.
O desenvolvimento social passa pela implementação real de educação de qualidade, saúde pública eficiente, saneamento básico e transporte digno. O desenvolvimento econômico, por sua vez, depende da segurança jurídica e da clareza nas decisões políticas para atrair investimentos sérios. Nenhum empresário investe no escuro.
Vera Cruz, em especial, teve um crescimento significativo nos últimos 10 anos, e a tendência é que esse avanço continue. Contudo, é preciso garantir que esse progresso não venha à custa da expulsão de comunidades tradicionais, povos originários, povos de matriz africana e nativos que são, até hoje, a base histórica e cultural do município.
A ponte Salvador-Itaparica precisa deixar de ser uma promessa e se tornar uma política de Estado com compromisso real, transparente e respeitosa com quem mais importa: o povo.
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