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Parada obrigatória

Não será fácil governar o Brasil em 2015. Há necessidade de várias medidas amargas para corrigir erros cometidos pela política econômica dos últimos anos. O próximo presidente — mesmo que seja a atual governante em segundo mandato — terá de enfrentar preços crescentes de energia e de gasolina numa conjuntura de inflação já elevada com o crescimento do PIB muito baixo.
Até na área em que as notícias são boas, há problemas a serem resolvidos. Por exemplo: o desemprego está baixo, mas o custo do seguro-desemprego teve uma escalada e o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) está quebrando. Como é possível que haja uma avalanche de pedidos de seguro-desemprego no país que vê a queda das taxas de pessoas sem trabalho?
O FAT talvez tenha que sacar de volta recursos que sempre repassou ao BNDES. O banco dificilmente terá caixa disponível, apesar de estar sendo financiado nos últimos anos por empréstimos do Tesouro que chegaram a R$ 400 bilhões.
A crise das empresas de distribuição de energia em 2014 foi empurrada para a frente com o empréstimo de R$ 11,2 bilhões que será pago na conta de energia das famílias e empresas a partir do ano que vem. Isso já está acertado e assinado. O novo empréstimo de R$ 8 bilhões será dado até o fim do ano porque aquela dinheirama toda não foi suficiente. E ainda falta dizer como será resolvido o desequilíbrio das empresas geradoras e das térmicas. Consertar as fraturas múltiplas provocadas pela MP 579 será uma trabalheira e não há como fazer isso sem aumentar a inflação.
A gasolina também tem tido seus preços represados há muito tempo, o que provoca desequilíbrios na Petrobras. Esse subsídio ao combustível fóssil quando for retirado também produzirá uma inflação corretiva.
O país vai para a eleição com todos os candidatos sabendo que o primeiro ano do próximo mandato presidencial será difícil. Na inflação, os cinco que mais acertam acreditam numa taxa próxima de 7%, na previsão de médio prazo para 2015. Será uma inflação difícil de corrigir porque o país está crescendo cada vez menos.
A cada momento há novos sinais antecedentes de que os dados do nível de atividade do segundo trimestre de 2014 caminha para ser negativo. Um espantoso resultado porque o “efeito Copa” que funcionou em outros momentos — ou em outros países-sede — não está funcionando nem mesmo no trimestre em que o torneio começa.
O novo governo terá o desafio de inverter a tendência dos dois mais importantes indicadores da economia: a inflação terá que cair; o crescimento, subir.
Uma das vantagens que terá que ser aproveitada pelo governante será o período de lua de mel. Isso acontece ao final de qualquer eleição. Mesmo que seja reeleição. O governante recebe um período de graça que ele pode usar para aprovar as medidas mais difíceis. Mas para quem já governa, é uma operação mais delicada. Se passar o período eleitoral dizendo que está tudo sob controle, e no início do mandato aprovar medidas impopulares, a reação pode ser forte. O ex-presidente Fernando Henrique enfrentou isso no segundo mandato, quando desvalorizou o câmbio logo depois da posse. Enfrentou forte queda de popularidade.
Além desse ajuste de preços e de modelo de crescimento, o novo governante terá que fazer uma boa faxina nos indicadores fiscais do país. As excessivas alquimias fizeram com que cada número tenha que ser auditado para se saber exatamente qual é o desempenho e o risco fiscal do país.
Pode acontecer o bom cenário de, após um ano de ajuste, o país crescer forte, como houve em 2003, depois que o então presidente Lula corrigiu desequilíbrios provocados pela disparada do câmbio pelo temor de que ele não fosse manter os princípios econômicos que levaram à estabilidade.
Por Míriam Leitão e Alvaro Gribel

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