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Confronto insano

obamaUma década atrás, na introdução à minha coletânea de ensaios The Great Unraveling, afirmei que o Partido Republicano moderno era um “poder revolucionário” no sentido anteriormente definido por Henry Kissinger – um poder que não aceitava mais qualquer das normas da política habitual, que estava disposto não apenas a assumir posições radicais, como a agir de maneira que minava todo o sistema de governança que as pessoas pensavam compreender.
Na época, recebi muitas críticas por ser tão “estridente”. O aceito era criticar os dois lados igualmente, equilibrar cada coluna que dizia coisas más sobre os republicanos com outra atacando os democratas, insistir que qualquer sinal de um sistema político disfuncional repousava em graus equivalentes de intransigência em ambos os lados.
Agora enfrentamos a ameaça iminente de um bloqueio e/ou uma moratória do governo nos Estados Unidos, porque os republicanos se recusam a aceitar a ideia de que a lei devidamente aprovada deve entrar em vigor, e ser refutada apenas por meios constitucionais. E a causa pela qual a maioria do Grande Velho Partido se dispõe a ameaçar com o caos é a nobre missão de garantir que dezenas de milhões de americanos continuem sem atendimento básico de saúde.
Hum… Talvez eu estivesse certo? Não. A loucura republicana pode ser óbvia hoje, mas reconhecê-la cedo demais ainda rotula uma pessoa como inconfiável e partidária.
É verdade que a situação mudou um pouco desde 2003. Na época, os republicanos eram radicais, mas racionais: os Bush exploravam a recusa dos que defendiam a sabedoria convencional a reconhecer a nova assimetria na política americana para empurrar as coisas que eles queriam, como cortes de impostos e uma guerra baseada em falsas alegações. Hoje em dia, os líderes republicanos são fracos, aparentemente impotentes diante dos tolos jacobinos que imaginam que sabotar o governo poderá fazer o presidente Obama minar sua única grande realização, a nova lei de acesso à saúde (Affordable Care Act).
Mas o ponto-chave é que hoje estamos em um terreno político maluco. Os analistas mergulharam na questão da Síria com um evidente suspiro de alívio – esse tipo de coisa, com todo o discurso sobre liderança presidencial etc., era território confortável. Mas pelo menos para os EUA era uma questão secundária. O confronto político, que hoje parece quase garantido que produzirá pelo menos algumas semanas de caos, é a principal. 

Tentando salvar a cara

Era previsível que os “austerianos” da Europa se declarassem vingados ao primeiro sinal de recuperação econômica. Mas um editorial do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, no Financial Times, em que ele reivindica a vingança completa porque a Europa teve um – sim,  um – trimestre de crescimento é bastante incrível, mesmo em relação às expectativas.
É preciso muita ousadia para alegar que isso é um registro de uma preparação bem-sucedida para a transformação estrutural. E todos os meios de vida – e em alguns casos vidas – destruídos? Que dizer dos milhões de jovens europeus que ainda não têm esperança de conseguir um emprego decente?

Faço uma exceção profissional particular à alegação de Schäuble de que a Europa está seguindo a receita da Suécia no início dos anos 1990 e a da Ásia no fim dessa década. Essas receitas envolviam grandes desvalorizações da moeda, e não a lenta e penosa “desvalorização interna” que supostamente acontece nos países da periferia europeia. E, como salientei diversas vezes, as economias asiáticas se recuperaram rapidamente, em nada parecido com a quase interminável depressão na maior parte da Europa.
O que precisamos perceber aqui, porém, é que nesta altura não é apenas uma questão de ideologia: egos e carreiras estão em jogo. A evidência sugere que os austerianos da Europa fizeram uma coisa terrível, arruinando a vida de milhões de pessoas. Eles nunca vão admitir isso. Vão se agarrar a qualquer coisa que lhes dê uma saída.
O economista Antonio Fatas está, como eu, atônito diante da aparente incapacidade da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) de nem sequer admitir a possibilidade de que o mau desempenho econômico da Europa é consequência da austeridade fiscal. Em um nível, é claro, isso é perfeitamente compreensível. A OCDE, em geral, esteve entre os maiores e primeiros promotores da austeridade. Pode-se ver por que eles não querem admitir que estavam, na verdade, promovendo o desastre na Europa.
CC

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