Brasileiro cria anticoagulante feito a partir de algas vermelhas

A dificuldade de produção e o risco de contaminação tornaram a procura por um substituto da heparina animal obsessão de alguns grupos científicos e da indústria farmacêutica. Em laboratório, já é possível produzir o composto, mas em quantidades ínfimas, alguns miligramas. A humanidade, por outro lado, precisa de cem toneladas de heparina todos os anos para abastecer laboratórios e mesas de cirurgia. Sem alternativas para a produção em larga escala da substância, alguns grupos voltaram seus olhos para a natureza.
Algas cearenses – A alternativa mais promissora pode estar nas algas marinhas, organismos vegetais que existem em grande abundância nos oceanos. O engenheiro de pesca Wladimir Farias, da UFC, encontrou um composto em algas vermelhas (Botryocladia occidentalis) do Ceará que funciona como a heparina, mas sem os efeitos indesejáveis. Em altas doses, a substância animal causa hemorragia e pode provocar a morte do paciente. Em laboratório, Wladimir conseguiu produzir a substância (mas também em pequenas quantidades) e percebeu que ela consegue descoagular o sangue e diminuir a trombose em ratos, mesmo em doses altas.
Segundo Farias, o processo de extração da molécula que substituirá a heparina é fácil. “O difícil será reproduzir as condições de nascimento e desenvolvimento do vegetal em laboratório, e levar isso para o ambiente marinho”, diz o engenheiro. A dificuldade existe porque cada alga possui uma série de particularidades durante o desenvolvimento, como temperatura da água, profundidade, quantidade de luz e nutrientes e longevidade. “Todos esses parâmetros precisam estar documentados e muito bem compreendidos para a produção em larga escala.”
Outras aplicações – A molécula que Farias descobriu nas algas vermelhas do Ceará também podem servir como soro antiofídico, que combate os efeitos do veneno de cobras. Um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) descobriu em 2011 que a substância consegue neutralizar a enzima que causa a morte dos tecidos (necrose) das vítimas. O trabalho é coordenado pelo médico Marcos Toyama, da Unesp.

