Ex-chefe de gabinete de Agnelo chora ao depor em CPI

Cláudio Monteiro, ex-chefe de gabinete do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), chorou nesta quinta-feira durante depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista do Cachoeira. Mesmo com um habeas-corpus que garantia seu silêncio, Monteiro decidir falar à comissão e disse que era uma oportunidade de se defender diante de seus amigos e de sua família. As informações são da Agência Câmara.
Emocionado, o ex-auxiliar de Agnelo disse que pretende agora voltar a dormir, pois sua vida está em suspenso, segundo ele, desde que foi acusado de receber propina do contraventor Carlinhos Cachoeira para intermediar interesses do grupo dentro do governo do DF. “Não tenho a pretensão de recuperar cargo nenhum, mas de recuperar a minha vida”, disse.
Monteiro disse que foi criado em Brasília e quer ter a oportunidade de poder circular pela cidade, ir à padaria e sair com seus filhos. “Não se pega vida de uma pessoa com 22 anos de serviço público e se rasga com expressões como ‘suposta fraude’ e ‘provável favorecimento’. Isso não se faz com ninguém”, afirmou.
No depoimento, o ex-chefe de gabinete disse que se encontrou com Cláudio Abreu, o ex-diretor da empresa Delta – construtora também envolvida nas suspeitas, e com Idalberto Mathias de Araújo, o Dadá, apontando pela Polícia Federal como um dos principais informantes de Carlinhos Cachoeira. Monteiro, no entanto, negou que o grupo tenha mantido relações com Agnelo Queiroz. Ele afirmou ter deixado o governo para não atrapalhar as investigações e garantiu aos parlamentares da CPI que abre mão dos sigilos fiscal, bancário e telefônico próprios e também de seus filhos.
Monteiro encerrou seu depoimento pouco depois das 15h. Em seguida, o presidente da comissão, senador Vital do Rego Filho (PMDB-PB), chamou o ex-assessor da Casa Militar do DF Marcelo de Oliveira para prestar esclarecimentos. Marcelo de Oliveira possui habeas-corpus concedido pela ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu ficar em silêncio e foi dispensado.
O outro depoente convocado, João Carlos Feitosa, ex-subsecretário de Esportes do DF, que também tinha habeas-corpus concedido pelo ministro do STF Marco Aurélio de Mello. Ele decidiu não prestar depoimento e também foi dispensado. Assim, o presidente encerrou a reunião da CPI.
Carlinhos Cachoeira
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.
Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram contatos entre Cachoeira e o senador democrata Demóstenes Torres (GO). Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais.
Nos dias seguintes, reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmaram, respectivamente, que o grupo de Cachoeira forneceu telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, e que o senador pediu ao empresário que lhe emprestasse R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo. Na conversa, o democrata ainda vazou informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes.
Pressionado, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado em 27 de março. No dia seguinte, o Psol representou contra o parlamentar no Conselho de Ética e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski autorizou a quebra de seu sigilo bancário.
O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido havia decidido abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda, encerrando a investigação interna. Mas as denúncias só aumentaram e começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas.
Após a publicação de suspeitas de que a construtora Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, faça parte do esquema de Cachoeira, a empresa anunciou a demissão de um funcionário e uma auditoria. O vazamento das conversas apontam encontros de Cachoeira também com os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 19 de abril, o Congresso criou a CPI mista do Cachoeira.
No dia 25 de junho, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado aprovou a cassação de Demóstenes. Em decisão unânime, por 15 votos a zero, o colegiado aprovou o relatório do senador Humberto Costa (PT-PE), que recomendou a perda do mandato do senador. O parecer do Conselho de Ética deverá ser examinado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e, se aprovado, passará por nova votação no Senado, que poderá definir a cassação definitiva de Demóstenes.(Terra)

