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A falência individual da pessoa física: Quando o CPF entra no vermelho

Segundo informações divulgadas por alguns meios de comunicação, com base em avaliações realizadas pela equipe econômica do Governo Federal, o poder de compra do brasileiro teria aumentado. Os dados apresentados apontam para uma melhora na renda, no consumo e na capacidade de compra das famílias, inclusive em relação à cesta básica. A mensagem transmitida é de que o brasileiro estaria com mais dinheiro no bolso, consumindo mais, alimentando-se melhor e até conseguindo poupar.

Mas será que essa é, de fato, a realidade vivida pela população brasileira?

No cotidiano, a percepção de muitos consumidores parece caminhar em outra direção. Basta entrar em um supermercado para perceber o peso dos preços no orçamento. Nas feiras livres, a situação não é diferente. No açougue, os valores também pressionam cada vez mais as famílias. Nos postos de combustíveis, o consumidor convive com aumentos e mudanças na composição dos produtos, como ocorre com a gasolina e o percentual de etanol misturado ao combustível.

Para quem ganha pouco, a matemática é simples: se a renda não acompanha o aumento das despesas, o poder de compra diminui e a capacidade de poupar praticamente desaparece.

É nesse cenário que o endividamento pode se transformar em uma verdadeira armadilha.

Com a aproximação do fim do ano, surgem os tradicionais feirões de renegociação de dívidas e de recuperação do crédito. Muitas pessoas conseguem negociar seus débitos, pagar uma entrada ou parcela e recuperar o acesso ao crédito. O problema é que, se a renda continuar insuficiente para cobrir as despesas básicas, o consumidor volta a utilizar o cartão, assume novos compromissos e, pouco tempo depois, encontra-se novamente endividado.

É preciso olhar com atenção para os juros envolvidos no financiamento da casa própria, na compra de um automóvel, nos empréstimos e, principalmente, no uso excessivo do cartão de crédito.

Imagine uma família que faz uma compra de R$ 1.200 e divide o valor em três parcelas de R$ 400. No mês seguinte, realiza outra compra de R$ 1.200 e novamente parcela em três vezes. No terceiro mês, já terá duas parcelas de R$ 400 para pagar, totalizando R$ 800. Se fizer uma nova compra de R$ 1.200 parcelada em três vezes, o comprometimento da renda aumenta ainda mais.

O problema é que as parcelas antigas continuam vencendo enquanto novas compras são incorporadas ao orçamento.

Existe ainda outro agravante: enquanto o consumidor continua pagando as parcelas, os preços dos produtos podem subir. Aquela compra de R$ 1.200 que antes era suficiente para abastecer a casa pode passar a custar R$ 1.500 ou R$ 1.600. A renda, entretanto, nem sempre acompanha esse aumento.

É nesse momento que o consumidor percebe que o problema não está apenas no valor de cada parcela, mas principalmente no acúmulo delas ao longo dos meses.

Grandes promoções, ofertas e facilidades de pagamento estão presentes nos supermercados, postos de combustíveis, restaurantes e praticamente em todo o comércio. Comprar não é necessariamente o problema. O perigo está em comprar constantemente sem avaliar se haverá renda suficiente para honrar todos os compromissos no futuro.

Por isso, planejamento financeiro é fundamental. O consumidor precisa conhecer seus limites e entender que o crédito não pode ser tratado como uma extensão permanente do salário.

Sempre que possível, é importante evitar comprometer uma parcela significativa da renda futura. Antes de parcelar uma compra, vale fazer uma pergunta simples: eu realmente preciso disso e terei condições de pagar todas as parcelas até o final?

O endividamento constante pode criar um ciclo difícil de interromper: uma dívida gera outra, o cartão cobre uma despesa, um empréstimo paga outro compromisso e, quando o consumidor percebe, grande parte da renda já está comprometida.

O alerta é simples: não olhe apenas para o valor da parcela. Observe o valor total da dívida e o impacto que ela terá no seu orçamento.

A chamada “falência individual” não acontece necessariamente de uma hora para outra. Ela pode começar com pequenas dívidas, parcelas aparentemente inofensivas e compras realizadas sem planejamento. Quando esses compromissos se acumulam, o consumidor pode perder a capacidade de administrar o próprio orçamento e passar a trabalhar apenas para pagar dívidas.

Crédito não é renda. Parcela não significa preço menor. E promoção não significa economia quando a compra não cabe no bolso.

O consumidor precisa estar atento, fazer as contas e preservar o próprio orçamento. Afinal, o CPF é a identidade financeira de cada cidadão — e mantê-lo equilibrado é uma responsabilidade que começa dentro de casa.

Antes de comprar, faça as contas. Antes de parcelar, pense no futuro. E antes de assumir uma dívida, tenha certeza de que ela realmente cabe no seu bolso.


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