Hamilton Assis denuncia “racismo institucional” no combate ao tráfico
O vereador Hamilton Assis (PSOL) questionou o que considera um tratamento desigual do Estado no combate ao tráfico de drogas em Salvador. A manifestação ocorre após a Operação Iceberg, que prendeu 12 investigados suspeitos de integrar uma rede de tráfico voltada a consumidores de alto poder aquisitivo, incluindo médicos, advogados, empresários e outros profissionais, segundo a Polícia Civil.
A operação identificou fornecedores, distribuidores, movimentações financeiras e suspeitas de lavagem de dinheiro. Um dos principais investigados teria movimentado mais de R$ 9,6 milhões em cinco anos, segundo a investigação. A Justiça autorizou ainda o bloqueio de até R$ 200 milhões em bens e recursos relacionados aos investigados. A ação não registrou mortes.
Para Hamilton, o contraste precisa ser colocado no centro do debate sobre segurança pública. Segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado divulgado na segunda-feira (21), Salvador e Região Metropolitana registraram 24 chacinas entre 1º de janeiro e 18 de setembro. Dessas, 23 ocorreram durante operações policiais, concentrando 85 vítimas.
O caso mais recente ocorreu em 15 de setembro, em Cajazeiras II, na periferia de Salvador, onde nove homens foram mortos após uma ação policial seguida de perseguição, segundo o levantamento citado.
“Estamos diante de uma pergunta que o Estado precisa responder: por que existe tanta inteligência para investigar o dinheiro, rastrear as transações e chegar aos responsáveis quando o tráfico atende consumidores de áreas nobres, mas nas comunidades negras e periféricas a resposta tantas vezes é o confronto e a morte? Com esse protocolo de atuação distinta a depender do endereço e cor da pele fica cada dia mais difícil para o governo esconder que a sua política de guerra às drogas é na verdade o plano de execução para o genocídio da juventude negra”, questiona Hamilton.
O vereador também critica o tratamento social dado aos suspeitos da Operação Iceberg durante a cobertura jornalística. Segundo Hamilton, comentários que associam os investigados a imóveis de alto padrão, carros de luxo e profissões valorizadas socialmente revelam como raça e classe podem influenciar a percepção sobre quem é considerado suspeito.
“Quando olham para uma pessoa branca, bem vestida, moradora de condomínio de luxo e dentro de um carro caro, a reação é de surpresa: ‘ninguém imaginaria que pudesse ser bandido’. Mas quando olham para um jovem negro da periferia, muitas vezes a suspeita vem antes da investigação. Esse é o problema que precisamos enfrentar: o racismo institucional produzido também pelos operadores do Estado”, afirma.
Para Hamilton, é necessário que o Estado utilize mecanismos de inteligência, investigação financeira e responsabilização contra organizações criminosas independentemente do território ou da condição social dos suspeitos.
“Nós não somos contra o combate ao crime organizado ou tráfico de drogas. Somos contra uma política de segurança que tenha dois protocolos baseados em eugenia, na política de execução da população negra. A atuação com investigação e inteligência para uns e tiro, operação e morte para outros é a prova do que denunciamos há décadas. Queremos que nossas comunidades negras sejam tratadas com o mesmo respeito e a mesma inteligência investigativa. A juventude negra não pode ser considerada criminosa antes mesmo de qualquer prova”, declara.
Hamilton afirma ainda que o combate ao crime organizado deve alcançar toda a cadeia do tráfico, incluindo fornecedores, distribuidores, operadores financeiros e responsáveis pela lavagem de dinheiro.
“Segurança pública não pode significar escolher quem merece viver. É preciso investigar, prender, bloquear patrimônio e desmontar organizações criminosas. Mas é preciso fazer isso preservando vidas. Quando a cor da pele e o CEP determinam a forma como o Estado trata uma pessoa, estamos diante de racismo institucional”.
CÂMARA MUNICIPAL DE SALVADOR
(Foto: Visão Cidade)



