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O matuto: Reflexões sobre as dificuldades de um povo

Estava aqui, matutando com meus botões e proseando com os amigos na roça, sobre o que a gente anda vendo nas redes sociais: o sofrimento, a angústia e a luta diária do povo pobre. Falam muito de salário, de quanto o trabalhador ganha, mas já começa aí uma grande distorção. Para o pobre, o chamado salário base quase sempre é o salário mínimo — e olhe lá.

Aqui na roça a situação é ainda mais dura. Inventaram uma palavra bonita para pendurar no crachá do trabalhador: “estagiário”. Ele não tem profissão reconhecida, não tem garantia, e adivinha quanto ganha? O mínimo. Já começa tudo errado por aí.

Antigamente, o povo andava de cavalo, de jegue, de carroça, subindo e descendo estrada. Aí resolveram mudar o nome: carroça virou charrete, cavalo virou item de coleção. Pronto, os preços dispararam. Hoje ninguém compra mais um cavalo, quanto mais um jeguinho, porque o valor subiu de um jeito que o pobre não alcança.

Então o povo foi para a bicicleta. Que coisa boa era aquilo! Bicicleta simples, com bagageiro, farolzinho para alumiar a estrada à noite. Com cem reais se comprava uma Monark azul, vermelha ou verde, bonita e resistente. Hoje inventaram o tal do “pedal”. Os preços só Jesus entende: cinco, dez, doze mil reais. Quem aguenta?

A saída foi comprar carro velho para reformar: Fusca, Chevette, Gol quadrado, Corcel, Rural, Kombi antiga. Aí inventaram outra moda: agora tudo é “colecionador”. Resultado? Os preços foram lá para cima. Hoje tem carrinho velho custando duzentos mil reais.

Na casa do pobre, o chão era cimento grosso misturado com ocre de ferro: vermelho, verde, azul, branco. Passava o escovão, dava um polimento, botava uma cera e aquilo brilhava que era uma beleza. Agora inventaram o tal do cimento queimado. O preço subiu. Sumiu o colorau, você é obrigado a comprar o produto pronto. E não para por aí: empurram o porcelanato. Aí o pobre bota na sala e não pode nem pisar known tranquilidade, porque qualquer arranhão vira prejuízo. Aqui na roça é pior ainda: pisa com o pé sujo de fora e já risca tudo.

Quando a gente analisa, vê que tem algo muito errado nisso tudo. Precisa achar onde está o erro, encontrar a chave para desligar essa engrenagem que só aperta quem já vive apertado.

Na conversa com o povo, chegamos a uma conclusão simples: tudo que o pobre pensa e faz, o rico chega na frente, muda o nome e transforma em luxo. Antigamente a gente fazia casas grandes, rodeadas de árvores, com tanque, uma distante da outra, tudo cercadinho, arrumado, rua certinha. Hoje o rico chama isso de “condomínio fechado”. Você não entra, não sai sem autorização.

Aqui na roça tem loteamento que eles dizem ser condomínio, mas fecham a entrada e fecham o fundo. O pobre não pode passar nem para encurtar caminho, nem para chegar mais rápido à praia. A gente entende que tenha portão, segurança, organização. Mas custava deixar o pobre passar para tomar um banho de mar?

Em alguns lugares, é placa para todo lado: proibido isso, proibido aquilo. Até o cooler com suco e farofa virou problema. Em certas barracas de praia, o pobre não pode sentar se levar o que é seu. Tem que ficar longe, separado. E uma mesinha simples, para quatro pessoas, custa valores que assustam qualquer trabalhador.

Mesmo assim, o pobre sobrevive. Vive com dificuldade, mas de cabeça erguida. Se mantém com sua bicicletinha, seu carrinho velho, sua casinha simples, morando com dignidade. E, acima de tudo, com orgulho de quem trabalha e vive com um salário mínimo.

Muda, Brasil. Muda, povo brasileiro. Busca tua verdadeira identidade. Você é soberano, você conquista, você luta. O brasileiro é sinônimo de resistência, de coragem, de lealdade. O mínimo de erro vindo de cima para baixo não pode prevalecer. Porque, acima de tudo, você é brasileiro.

Visão Cidade

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