Professor Hamilton Assis e a Consciência Negra

Em um diálogo com o professor e vereador Hamilton Assis (PSOL), a redação do site Visão Cidade conversou sobre a importância do 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Com respostas contundentes e reflexivas, o professor destacou a necessidade de pensar a consciência não apenas como uma data simbólica, mas como uma postura diária — uma consciência estrutural, que valorize as etnias, respeite as diferenças e reconheça que todos devem ser vistos como semelhantes, independentemente de crença, cor ou origem.
Para o professor Hamilton, o dia 20 de novembro é um marco importante, mas a consciência negra deve ser celebrada e reafirmada todos os dias, como compromisso contínuo com a igualdade e o respeito.
Acompanhe a entrevista completa:
Visão Cidade
Professor Hamilton, PSOL. O Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro: como o senhor interpreta essa data?
Resposta – Prof. Hamilton Assis
Essa data é, antes de tudo, um marco político. Ela busca construir um movimento que fortaleça a presença do povo negro na sociedade, ressaltando seu protagonismo e incentivando cada pessoa negra a se autorreconhecer nesse lugar. O Dia da Consciência Negra é uma celebração da nossa ancestralidade afrodescendente.
Tenho amigos que trabalham com a ideia de que a consciência negra deve ser vivida todos os dias. Inclusive, participarei neste fim de semana de uma atividade com comunidades quilombolas na região de Poções e Vitória da Conquista, que também defendem esse conceito.
Isso é fundamental porque o racismo não acontece apenas em um dia: ele acontece todos os dias, a todo instante. Ele se transformou em uma ferramenta de exclusão social. Historicamente, o racismo foi construído para hierarquizar as pessoas, definindo quem é considerado superior e quem é inferior.
No caso do povo negro, fomos colocados no estereótipo de violentos, ignorantes, incapazes e perigosos. Precisamos ter clareza de que esse não é o nosso lugar, mas sim um lugar onde nos colocaram. Por isso, sempre procuro defender minhas ideias com firmeza, porém com cordialidade e respeito. Qualquer desvio, por menor que seja, pode ser usado para reforçar esses estereótipos e justificar repressões violentas.
Se a polícia vê um branco e um negro em um espaço considerado suspeito, o negro é imediatamente visto como ameaça. Isso é resultado de uma construção histórica. Nas periferias, onde a maioria da população é negra e onde há menor prestígio social — fruto de um processo histórico de exclusão —, todos acabam sendo vistos como marginais. Isso leva à desumanização dessas pessoas.
Essa violência cotidiana me angustia profundamente. Eu vim da periferia e tenho muito orgulho desse lugar. Mas é cruel ser desrespeitado simplesmente por morar ali — um lugar onde muitos não estão por escolha, mas por falta de oportunidades.
Visão Cidade
A Câmara Municipal de Salvador, da qual o senhor faz parte, tem cumprido seu papel nesse debate?
Resposta – Prof. Hamilton Assis
De certa forma, sim. Estamos aqui para cobrar e propor projetos que promovam reparação. No entanto, isso ainda é insuficiente. Se o racismo é estrutural, precisamos de políticas estruturais. São necessários projetos que invertam essa lógica e permitam que as pessoas saiam rapidamente da desigualdade, da pobreza, da miséria, e possam usufruir plenamente da cidade.
Hoje, muitas iniciativas ainda ficam no plano simbólico. É crucial pensar a reparação como algo concreto, que assegure dignidade e qualidade de vida para todo o povo negro e para toda a população de Salvador, independentemente de cor, raça ou religião.
Visão Cidade
Podemos afirmar, então, que o Dia da Consciência Negra deve ser todos os dias?
Resposta – Prof. Hamilton Assis
Com certeza. O Dia da Consciência Negra é todos os dias. Todos os dias em que venho à Câmara exercer meu papel de vereador, vindo desse lugar de homem negro e periférico — historicamente desrespeitado —, eu reafirmo minha identidade e minha consciência. Elas me movem a construir projetos que atendam toda a população, especialmente os mais marginalizados, e nesse contexto, particularmente o povo negro.
Visão Cidade


