Regulação: Um ato digno de ser revisto

A população sofre diariamente, sobretudo no segmento da saúde pública. Há uma clara contradição entre o que alguns governantes dizem e a realidade enfrentada pelos baianos. Na Bahia, há um exemplo notório e doloroso: o sistema de regulação hospitalar, que se tornou uma verdadeira caixa-preta — um labirinto de humilhação, sofrimento e incerteza.
Milhares de cidadãos padecem à espera de um atendimento digno. A regulação parece uma brincadeira de cabra-cega, onde não se sabe a quem recorrer. Em muitas cidades, o acesso à saúde virou uma via-crúcis. Secretarias de Saúde e direções de UPAs sofrem junto com os pacientes, principalmente quando não fazem parte da base aliada do governo estadual. A regulação, essencial para cirurgias, exames de média e alta complexidade, tornou-se um obstáculo cruel. Enquanto os diagnósticos e tratamentos são adiados, doenças avançam e vidas se perdem.
Todos os dias, relatos de familiares desesperados ganham espaço na televisão, jornais, sites de notícia e redes sociais. Casos de óbitos por falta de regulação se repetem, revelando uma falha estratégica sem precedentes. A tragédia se repete, e o Estado permanece inerte, sem apresentar nenhuma perspectiva de mudança.
Vamos a uma análise simples: os grandes hospitais de referência hoje não atendem mais em regime de emergência aberta — só recebem pacientes regulados. Essa regulação, por sua vez, deve ser solicitada por UPAs ou hospitais de menor porte. As UBS (Unidades Básicas de Saúde) apenas encaminham o paciente, mas não fazem regulação. Imagine a situação de alguém com um trauma grave, como fratura ou ferimento profundo, que não pode ser atendido diretamente num hospital de referência. Primeiro, precisa passar por uma UPA, e então aguardar vaga via regulação. Isso é inaceitável. Esse é o retrato da saúde na Bahia.
A regulação deveria ser um mecanismo de garantia de acesso justo e organizado, mas se tornou um sistema falido, viciado por interesses políticos e burocráticos. Em muitos casos, quem consegue acesso é quem tem “QI” — ou seja, “quem indica”. A politicagem e os favores pessoais passaram a determinar quem vive e quem morre. A justiça, por vezes, é acionada como último recurso, obrigando o Estado a agir — mas isso é exceção, não regra. No fim das contas, quem mais sofre é o povo.
Além disso, há uma prática questionável de pessoas que, por trabalharem em instituições de saúde ou estarem ligadas a políticos, se autointitulam “fulano da saúde” ou “fulana da saúde”, se promovendo nas redes sociais como se fossem heróis, quando na verdade atuam dentro de um sistema de favorecimento. Em algumas unidades, especialmente da rede conveniada ou privada, é comum ver acompanhantes escolhidos a dedo, indicando que há uma seleção informal e injusta em curso.
É urgente repensar tudo isso. O povo não pode continuar sofrendo à mercê da burocracia, do apadrinhamento e da omissão estatal. O governo da Bahia precisa olhar com mais responsabilidade para o interior, investindo em hospitais regionais, infraestrutura médica e profissionais de saúde. A chamada “ambulancioterapia” — o envio contínuo de pacientes para a capital por falta de estrutura nas cidades — é uma consequência direta do abandono da saúde nos municípios.
Fala-se muito nas policlínicas, mas estas, na maioria das vezes, atendem apenas casos ambulatoriais e exames de baixa ou média complexidade. A saúde da Bahia precisa de um novo norte. É hora de encarar a regulação com seriedade, transparência e compromisso com a vida.
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