Centro reúne projetos e manifestações culturais do Subúrbio

Na Praça São Brás, no bairro de Plataforma, a fachada onde se lê ‘Centro Cultural Plataforma’ é muito mais do que um espaço para receber grandes apresentações e espetáculos. O local funciona como um celeiro de grandes e até das pequenas ideias, um palco onde surgem, todos os dias, manifestações artísticas em diferentes linguagens criadas e produzidas principalmente pelos moradores do Subúrbio Ferroviário de Salvador. São crianças, jovens e adultos que atuam na formação de uma nova percepção sobre os moradores da comunidade e que descobrem, por meio da arte, uma forma de ter voz.
De segunda a sexta-feira, o espaço fica aberto para a população. Treze grupos residentes ensaiam com regularidade e com horário marcado na agenda do local. São duas salas de ensaio e um teatro com capacidade para 206 pessoas, sendo três lugares reservados para pessoas com deficiência. Nos finais de semana, diversos projetos têm a oportunidade de se apresentar ao público nos palcos e espaços do centro. Tudo sob responsabilidade dos moradores.
Depois de ser desativado e permanecer fechado por cerca de 20 anos, o centro foi reaberto em 2007, através do Governo do Estado. Desde então, o espaço – vinculado à Secretaria de Cultura (Secult) – é cuidado de perto pelos moradores do Subúrbio Ferroviário. Seja nas intervenções de grafite nas paredes ou na coordenação do local, os membros da comunidade participam ativamente da gestão, de acordo com o coordenador do centro, Márcio Bacelar. “Mais do que estimular novas manifestações, o espaço atende a uma demanda que sempre existiu no Subúrbio. Ele consegue ampliar e dar visibilidade aos talentos da periferia, é um espaço democrático, aberto e nosso”, conta.
Mudança de paradigmas
Nascido e criado no Subúrbio Ferroviário, José Eduardo Ferreira dos Santos, professor doutor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), atualmente estuda de que forma a arte e a beleza influenciam no cotidiano das comunidades suburbanas. Ele é o criador do projeto ‘Acervo na Laje’, que reúne obras e contribuições de artistas da periferia de Salvador, e acredita na arte como fator de mudança de paradigmas e estereótipos.
“Espaços como o Centro Cultural e o Acervo estão nessa corrente de construção de alternativas às situações de violência, de tráfico de drogas e outras, mas empoderando os jovens para que eles descubram que têm um potencial artístico e podem construir uma trajetória diferente daquela que historicamente foi construída pelos moradores do subúrbio”, explica José Eduardo.
Oficinas
Coordenando oficinas de teatro e dança para crianças e jovens, além de alongamentos para terceira idade, desde 2008, no Centro Cultural Plataforma, a enfermeira aposentada Maria Nauzina desenvolve trabalhos comunitários no bairro há cerca de 40 anos. Ela lidera o grupo Herdeiros de Angola e fala com muito carinho dos ‘filhos e filhas’ que ajudou durante uma vida inteira como voluntária. “Eu entendi que a arte é um veículo de comunicação e pode mudar vidas. Através dela é possível resgatar a infância para muitos meninos que têm no teatro e na dança uma alternativa à realidade violenta que vivenciam”.
Dança e música
Entre os grupos de dança que utilizam o espaço localizado em Plataforma, há lugar para todos os ritmos, como o break, jazz, dança contemporânea, performance e até stiletto, no qual homens e mulheres executam as coreografias usando salto alto. Desenvolvendo a postura, sensualidade e coordenação dos jovens dançarinos do centro cultural, Filipe Rosário faz parte dos cerca de 20 meninos e meninas que participam do Salt Jazz, grupo de stiletto.
“Estamos aqui há quase um ano e essa é uma oportunidade de conhecer outros grupos e outras pessoas. Surgimos depois de um projeto chamado Plataforma de Talentos e foi muito bom vir pra cá. Todos os dias rompemos barreiras e mostramos que não são só as mulheres que andam de salto alto e têm estilo dessa maneira. Estamos muito felizes como o projeto tem se desenvolvido”, afirma Filipe.
Profissionais
Entre os 13 grupos residentes do centro, já há quem trabalhe profissionalmente com o que desenvolve no Subúrbio, como os atores do Clube da Lulu, que se apresentam no teatro, fazem animação em festas infantis e, em 2015, alcançaram a maior arrecadação em bilheteria de Plataforma. “A ideia é criar um entretenimento de qualidade para as crianças. Vemos hoje as crianças absorvendo uma cultura feita para adultos, para um público da maior idade. [Mas] aqui trabalhamos melhor essas atividades. Depois de vir ensaiar aqui, conseguimos montar um espetáculo completo voltado para o público infantil, o primeiro feito no Subúrbio, por pessoas daqui, a se apresentar no palco”, comemora o fundador do clube, Eric Reis.
Jadson Palma é outro talentoso morador do Subúrbio que almeja viver da arte que produz. Ele montou a própria linha de roupas e acessórios feitos para homens, mulheres e também disponíveis em tamanhos infantis. A loja funciona online, por meio da página da JP Modas no Facebook, e vende camisetas pelo preço fixo de R$ 60. “As estampas são únicas, expressivas e o objetivo é que o cliente se identifique com as estampas, que têm muita personalidade, e mandamos entregar em casa”, diz JP.
Repórter: Anna Larissa Falcão(SECOM)


