As duas faces

Quando Nelson Barbosa saiu do cargo de secretário executivo do Ministério da Fazenda, em 2013, seguia um plano para voltar como titular. Deixou consolidar a ideia de que entrara em conflito com o ministro Guido Mantega, mas não disse o que os separara. Na Fundação Getúlio Vargas (FGV), sustentou ideias mais ortodoxas e com elas circulou pelo mercado financeiro.
Enquanto trabalhou com o ministro Mantega, sempre defendeu as mesmas ideias que estavam sendo implantadas. Foi um dos ideólogos de coisas como “nova matriz” ou “novo tripé” e muitas vezes foi o porta-voz mais eloquente das ideias implantadas por aquela equipe. Em 2009, ele respondeu com rara violência a um documento oficial do Banco Central, o Relatório de Inflação, que alertava que os gastos públicos das ações anticíclicas poderiam pressionar a inflação e provocar a elevação dos juros.
“Há uma tentativa de terrorismo fiscal para provar uma expectativa de elevação dos juros. Há quem diga que se não voltarmos à política do Estado Mínimo, a situação será insustentável. Isso é o que eu chamo de terrorismo e com terrorista não se negocia”, disse Barbosa, que na época era secretário de Política Econômica de Mantega.
Nos anos em que passou na equipe, ele foi negociador de políticas que causaram enormes rombos às contas públicas, como o chamado Novo Regime Automotivo. Mas o erro que pode lhe custar mais caro foi ter assinado em 15 outubro de 2012 a portaria 357 que adiou por dois anos o pagamento do que o Tesouro devia ao BNDES. Essa portaria foi oficialmente considerada uma pedalada pelo TCU. Por isso o ministro está respondendo ao Tribunal de Contas. Se for considerado responsável ficará inabilitado para funções públicas.
Durante o tempo em que ficou no governo ele defendeu as políticas adotadas, de expansão do gasto, de isenções e subsídios. Disse que a redução das tarifas de energia garantiria a inflação abaixo de 5%. Ao sair do governo em 2013 ele, em uma entrevista em Washington, disse que a política econômica estava errada. Em quatro meses ele passou a ver o que não via e disse que a dívida estava crescendo muito e as tarifas, represadas. Nas conversas que passou a ter com o mercado financeiro, ele defendia ideias como o fim da dupla indexação do salário mínimo.
Durante a campanha eleitoral, fez constantes visitas ao mercado financeiro para defender a presidente Dilma, que foram entendidas como sinal de que ele seria o ministro da Fazenda. Acabou preterido e ficou no Planejamento. Teve com o ministro Joaquim Levy uma relação de dissonância constante. Dentro do governo, ele defendia pontos de vista diferentes, mas não explicitava a divergência. Em uma entrevista que fiz com ele, em 3 de setembro, perguntei se, quando o ministro Joaquim Levy saísse, ele assumiria o Ministério da Fazenda. Negar, ele não negou. Desconversou. Disse que estava focado nas tarefas do Ministério do Planejamento e disposto a ajudar a equipe.
A grande questão em relação a Nelson Barbosa é quem ele realmente é, e no que, de fato, acredita. Ontem na entrevista ele defendeu o ajuste fiscal, a meta de 0,5% de superávit para o ano que vem, e disse que fará isso em negociação com o Congresso.
O novo ministro da Fazenda tem mostrado apetite para negociar com o Congresso, só não tem tido êxito. Ele listou ontem como sucesso ter aprovado a redução da pensão por morte e a adoção da fórmula 85/95 para a aposentadoria. A verdade é a seguinte: a proposta de pensão por morte, feita pela MP 664, foi o maior tiro no pé da história das propostas do governo. A medida era para economizar um pouco, numa questão lateral da Previdência, mas acabou sendo veículo para o fim do Fator Previdenciário. E, como resposta, o Congresso propôs a fórmula 85/95 que amplia o gasto previdenciário. Barbosa apresentou isso ontem como avanços, mas foi, como define Levy, uma contrarreforma.
Nelson Barbosa conseguiu o que queria. Ele sustentou este ano um discurso paralelo ao do ministro Levy e foi fácil conquistar ouvidos para as suas ideias porque ele e Dilma compartilham visões de mundo. Agora é com ele. Nelson Barbosa terá que dizer com que conjunto de convicções pretende exercer o cargo de ministro da Fazenda.
(Blog da Miriam Leitão)


