Ajuste econômico: Por que o Brasil vai na contra-mão da Europa?

A nova equipe econômica do governo deixou claro: 2015 será um ano de “ajustes”. Os gastos públicos serão cortados para que se consiga economizar 1,2% do PIB e os juros devem se manter em um patamar elevado para ajudar a segurar a inflação. Também está sobre a mesa um aumento dos impostos.
O curioso, porém, é que o Brasil parece abraçar a austeridade em um momento em que, fora do país, políticas dessa linha são colocadas em xeque.
De um lado os EUA, que adotaram uma estratégia focada nos estímulos à economia, conseguiram se recuperar e podem ter uma expansão de 3% em 2015.
Já a zona do euro – que implementou uma política de cortes de gastos radicais e aumentos de impostos – ainda patina, com crescimento medíocre e desemprego na casa dos 11% (e instabilidade política em países como Grécia).
Até o Banco Central Europeu parece ter admitido os limites dessa estratégia ao anunciar, recentemente, um pacote de compra de títulos para injetar recursos na economia e estimular os empréstimos e o consumo.
Para a maior parte dos economistas ouvidos pela BBC Brasil, porém, a dicotomia entre “ajustes” e “estímulos” é contraproducente.
“Há ajustes bons e ajustes ruins”, explica Étore Sanchez, da consultoria LCA. “Assim como há pacotes de estímulos mais eficientes que outros para impulsionar a economia. Além disso, a realidade de cada país deve ser considerada: o que funciona nos EUA ou na Europa pode não funcionar no Brasil – e vice versa.”
No caso brasileiro, por exemplo, ele opina que, por mais que se tenha estimulado o consumo nos últimos anos, a falta de reformas para resolver problemas logísticos, burocráticos e outros gargalos acabou funcionando como um freio ao investimento, impedindo um crescimento sustentável.
Mas o que faz o Brasil acabar com a política anticíclica justo no momento mais baixo do “ciclo”, fazendo uma “correção de rumos” aparentemente oposta a da Europa? E o que é preciso fazer para evitar os riscos da estratégia de “ajustes” em um contexto de economia estagnada?
Consenso
A necessidade de um ajuste fiscal e de mudanças na política econômica parece ser consenso entre economistas – sejam eles pró ou antigoverno, desenvolvimentistas ou ortodoxos.
Primeiro, em função do baixo crescimento e inflação muito próxima do teto da meta definida pelo Banco Central (6,5%) – interpretados como um sinal de problemas da política econômica do primeiro governo Dilma Rousseff.
Segundo, pelo que é percebido como um certo “descontrole” das contas públicas. O governo admitiu que este ano não economizará 2% do PIB, como prometido, e uma mudança legal foi aprovada às pressas no Congresso para permitir o descumprimento dessa meta.
“O ideal certamente não seria retirar os estímulos anticíclicos com um crescimento tão baixo”, diz Sanchez, da consultoria LCA.
“Mas o fato é que o governo já esgotou suas ferramentas para tentar impulsionar a economia e agora não tem alternativas diante da necessidade de segurar a inflação, colocar as contas em dia e recuperar a confiança dos investidores e dos mercados.”
André Biancarelli, economista da Unicamp, diz não achar que “a situação (das contas públicas) seja desesperadora”. “Mas não há como negar que algo precisa ser feito para colocá-la na linha.”
Como os cortes de gastos e altas de juros poderiam ajudar o país a retomar o crescimento?
(BBC)

