Clubes perdem dinheiro com talentos e deixam de investir na base

Com problemas financeiros, equipes são obrigadas a vender precocemente jovens jogadores que se valorizam na Europa. Atenção da CBF à formação de atletas ainda é insuficiente
A falta de paciência tem prejudicado financeiramente os clubes brasileiros. Na ânsia de lucrar, as equipes negociam cedo demais jogadores promissores e, mais tarde, acompanham de longe o bom desempenho deles e o consequente aumento do valor de mercado. Foi assim com Philippe Coutinho, Alex Teixeira, Douglas Costa… E, para entender essa sistemática, o iG conversou com executivos e empresários que apontam a causa do problema: a situação financeira dos clubes impede que eles invistam corretamente em jovens atletas.
É impossível explicar o êxodo de jogadores brasileiros sem citar o interesse financeiro que norteia os clubes. Depois da década de 1980, quando ainda conseguiam competir no mercado com os europeus, os clubes brasileiros viram o número de transferência aumentar e chegar ao ápice em 2013. De acordo com a Fifa, 1.530 jogadores brasileiros foram vendidos para o exterior no ano passado.
“Para fazer caixa, os clubes deixam de investir e vendem. A vontade de melhorar a base é grande, mas a possibilidade é pequena. Por quanto tempo o Vasco vai manter o Thalles (atacante), por exemplo? O Vasco já fez isso com o Philippe Coutinho. E agora o Santos tem o Lucas Lima. Com todas as dificuldades financeiras que o clube tem, como vai segurá-lo? Não tem jeito. É uma grande oportunidade que o clube vê em começar a organizar o caixa”, disse René Simões
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Para ilustrar os exemplos citados por ele, vale o caso de Philippe Coutinho, hoje no Liverpool (ING), cujo valor aumentou 800% desde que deixou o Brasil com apenas 18 anos. Quando promovido a profissional no Vasco, o meia-atacante valia cerca de R$ 3,5 milhões e acabou vendido para a Internazionale de Milão por R$ 13,15 milhões. O valor de mercado dele atualmente gira em torno de R$ 69,29 milhões, segundo o site Transfermarkt.
Para o empresário Wagner Ribeiro, é natural que os clubes deixem de ganhar dinheiro com jovens atletas. “Posso citar o caso do Hulk. O Vitória recebeu dinheiro por ele, um valor pequeno se comparar à venda do Porto para o Zenit (por R$ 129 milhões). Mas é isso que acontece. Quando o jogador ainda é uma promessa, custa barato porque, como o próprio substantivo diz, é uma promessa. Você não sabe se (o jogador) vai virar ou não. Por mais absurdo que possa parecer, o clube tem muitas dívidas e, para administrar, acaba vendendo o jogador”, defendeu.
Embora mantenha a seleção de base, exija certificado dos clubes e organize duas competições (Copa do Brasil Sub 17 e Sub 20), a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) ainda não trata a formação de jogadores como ponto importante para a longevidade das equipes. O surgimento de profissionais especializados no assunto, por outro lado, anima.
“Eu acho que a base vem melhorando a cada ano. Ela ainda carece de uma filosofia implantada pela CBF que seja seguida por todos os clubes. Acho que o (Alexandre) Gallo está começando isso. Não vejo a necessidade de centralizar o poder na CBF, mas seria importante para as questões estratégicas e para a capacitação do profissional”, sugeriu Felipe Ximenes, diretor executivo de futebol do Flamengo.
Thiago Scuro concorda com a opinião do colega. “Pode haver uma responsabilidade da CBF em discutir, ensinar e aprender, algo que está acontecendo gradativamente. Pode pensar em uma carga horária maior nos cursos para formar os profissionais, porque cursos de dois e três dias não conseguem dar essa bagagem”.
Outro ponto bastante questionado é a Lei Pelé, que, embora tenha apresentado mais vantagens ao clube formador após reestruturação, terminou com o “passe” e abriu caminho para a fuga de talentos e maior participação de agentes.
“A Lei Pelé precisa ser reestruturada. O primeiro contrato com o garoto aos 16 anos é ruim, porque essa idade não é a linha divisória para saber se ele vai ser jogador ou não. Acredito que a idade ideal é 19, momento em que se define se ele vai seguir a carreira profissional ou não. Tem de se repensar tudo. É necessário ter paciência com esses jogadores e não ter a velocidade de torná-los ídolos no clube. Tem de ter tempo para amadurecer. Ninguém sai da universidade e constrói pontos sem erros”, argumentou René Simões.
Na próxima segunda-feira, a CBF organiza o terceiro encontro técnico das categorias de base, projeto iniciado por Ney Franco e pelo próprio René Simões. Durante o evento, serão debatidos o calendário e competições para a categoria. É um primeiro passo, embora muito curto, rumo a uma reestruturação. E, até que a mudança seja para valer, caberá aos clubes ao menos ter mais paciência. Se é que se pode pedir isso.
(IG)


