FT explica por que Obama perdeu influência nos Brics
Na análise feita por Edward Luce, do Financial Times, o texto mais lido e comentado hoje no site do jornal, o colunista mostra que a relação dos EUA com os países do Brics foi piorando ao longo do tempo. Apesar de, ao assumir, ter prometido restabelecer a relação com as potências emergentes, o articulista diz que, hoje, cada um tem um forte desacordo com os EUA – ou até pior do que isso. Citando um a um, Luce vai explicando por que a relação foi azedando. Seria o caso de discuti-la, ter uma “DR”, como se diz por aqui.
Com a Rússia, por exemplo, os EUA chegou a falar em “resetar” a relação. Essa promessa de um novo começo, diz o colunista, foi bem recebida por Dimitri Medvedev, mas depois que ele deixou a presidência e com Putin novamente no poder, as coisas pioraram.
A relações com a China também estão na direção errada, ele diz. A coisa até que começou bem. Ele lembra que no primeiro ano do governo Obama, lá foi ele para a China propondo uma parceria global para resolver os grandes problemas mundiais – das mudanças climáticas aos desequilíbrios financeiros. Passou-se a falar até do G2, grupo mega vip que incluiria só EUA e China, mas Luce diz que os chineses não se sentiram prontos para enfrentar em nível global os problemas contra os quais ainda estavam lutando no plano doméstico. Depois, o americano anunciou o “pivô para a Ásia”, movimento visto pela China – e com certa razão, segundo ele – como uma tentativa velada de assegurar uma aliança militar com os vizinhos da China. O capítulo mais recente da relação China e EUA é o seguinte: Obama visitará Japão, Coreia do Sul, Filipinas, Malasia e Pequim nem está no roteiro. Além disso, o discurso anti-EUA vindo de lá é o mais duro em anos, diz Luce.
Quando fala do Brasil, o colunista lembra que as coisas pioraram após os vazamentos de Edward Snowden, ex-analista da Agência de Segurança dos Estados Unidos. Lembra que a presidente Dilma cancelou uma visita de Estado a Washington em protesto à espionagem americana. As relações Brasil e EUA, segundo o articulista do FT, estão agora no “congelador”.
Já a embaixadora norte-americana na Índia, Nancy Powell, é tratada como “persona non grata” em Nova Déli desde que pediu demissão sem explicar as razões. Somente a relação com a África do Sul, diz o colunista, é que poderia ser descrita como normal, mas destaca que o país se absteve em votação da ONU sobre o referendo na Crimeia, assim como Brasil, Índia e China.
Para o colunista, cada uma dessas relações deterioradas tem narrativas específicas, mas há dois grandes temas interligando-as. O primeiro deles, segundo Luce, é que o mundo está se ajustando à diminuição do poder dos EUA. E ele cita um dado interessante: diz que o país mantém, de longe, a maior força militar do mundo, mas que fica um pouco menor a cada ano. O orçamento de Defesa da China, segundo ele, continua crescendo dois dígitos, enquanto que o dos EUA cai em termos reais.
O segundo ponto apontado por ele: os americanos, em geral, estão cansando das responsabilidades globais do país. Segundo ele, o pivô não é a Ásia, mas a América. Nenhum dos dois partidos, na visão de Luce, ouve o que Obama quer e os índices de audiência da TV mostram que o público não está sintonizado no que ele diz.
Por Valéria Maniero