Medicamento para disfunção erétil pode tratar sintomas da distrofia muscular


Um estudo desenvolvido nos Estados Unidos mostra uma nova possibilidade de medicamento para atenuar os sintomas da distrofia muscular. A inovação da pesquisa, porém, não está nesse remédio, mas em sua aplicação. O medicamento utilizado é o Cialis, composto por uma substância denominada taladafila, amplamente indicado para homens no tratamento de disfunção erétil. A pesquisa foi publicada na última edição do periódico Science Translational Medicine.
Caso esse uso venha a ser comprovado, não será a primeira vez que esse tipo de medicamento serve a um fim diferente daquele para o qual foi planejado. O Viagra, mais famoso remédio para disfunção erétil, foi desenvolvido em 1989, para o tratamento de angina, dor no peito causado pela baixa oxigenação do coração, em decorrência do estreitamento das artérias que conduzem o sangue ao órgão.
Ação do medicamento — A razão pela qual essas diferentes aplicações são possíveis é que, na base de todas essas doenças, está a regulação do fluxo sanguíneo.
Medicamentos como o Cialis inibem a produção de uma enzima que quebra as moléculas de monofosfato cíclico de guanosina (GMPc). Essa substância, em contato com o óxido nítrico, promove um relaxamento dos músculos dos vasos sanguíneos, permitindo o aumento no fluxo sanguíneo na região.
Em pacientes com distrofia muscular, ocorre a falta da enzima que produz o óxido nítrico. O uso do Cialis, ao aumentar a produção de GMPc, corrige essa deficiência, pois a presença de uma substância compensa a falta da outra, mantendo o fluxo sanguíneo normal.
Estudo – Os pesquisadores se basearam em um estudo publicado em 2007, que mostrou que o uso de Cialis melhorava a função muscular em camundongos mdx, que possuem uma doença muscular hereditária semelhante à distrofia muscular humana.
No estudo publicado no Science Translational Medicine, os pesquisadores mediram o fluxo sanguíneo do antebraço de dez pacientes com Distrofia Muscular de Becker e 7 pessoas saudáveis, encontrando o mesmo resultado para todos. Depois, os participantes fizeram exercícios com um handgrip (aparelho que mede a força da mão para apertar ou segurar algo) enquanto suas pernas ficavam uma câmara de pressão negativa, utilizada por cardiologistas para avaliar a capacidade do coração do paciente em responder ao estresse cardiovascular.
Em condições normais, o organismo compensa o aumento de volume dos vasos das pernas por meio do estreitamento em outras regiões, mas sempre deixando espaço suficiente para que o sangue flua e todo o corpo receba oxigenação. Porém, nos pacientes com Distrofia Muscular, ocorreu um estreitamento tão intenso nos vasos do antebraço que estava sendo exercitado que o fluxo sanguíneo chegou a ser interrompido.
Na segunda parte do experimento, cada participante ingeriu um comprimido, que podia ser Cialis ou placebo e realizou o teste. Após duas semanas, cada um tomou o outro comprimido e repediu a medição. Esse procedimento é feito para evitar que os aspectos psicológicos do paciente possam interferir no resultado.
Resultados – O remédio apresentou efeito em 8 dos dos dez pacientes estudados, ou seja, o fluxo sanguíneo foi normalizado, reduzindo os danos musculares no paciente. A hipótese dos pesquisadores é que os dois participantes que não apresentaram efeito teriam uma mutação da doença, tornando-a muito branda para apresentar resultados.
Por se tratar de um estudo realizado com medicamentos de fácil acesso pela população, Mayana Zatz, presidente da Associação Brasileira de Distrofia Muscular (ABDIM), e os autores do estudo alertam sobre a necessidade de se enfatizar que se trata de uma pesquisa, e ainda não há indicação clínica para o uso em pacientes.
(Veja)

