Na capital baiana, 73% da população conhece mulheres agredidas em casa

A vendedora Maria Iracema dos Santos, 46 anos, não tem medo de “meter a cara” e resumir a triste história do seu casamento. “Começou às mil maravilhas. Depois veio o ciúme, os xingamentos e, por último, a porrada. Não tinha essa de tomar tapinha, não. Era porrada mesmo”, narra, agora sem vergonha.Acontece que, para chegar a esse nível de independência moral, sofreu calada por 18 anos. Na verdade, 18 anos, nove meses e quatro dias, como faz questão de contar.
O relato bate direitinho com os dados apontados na pesquisa sobre violência contra a mulher, realizada entre 14 e 19 de junho pelo Instituto Futura, parceiro do CORREIO.
No levantamento, 73,4% dos entrevistados dizem conhecer uma mulher que já foi vítima de violência. Além disso, 94,7% das pessoas ouvidas acreditam que as mulheres sofrem violência doméstica caladas, sem denunciar.
A pesquisa ouviu 398 pessoas que moram em Salvador. Para a maioria, o ciúme, o álcool, as drogas e a infidelidade (nessa ordem) são os fatores que mais levam às agressões.
Medo Os casos ocorrem por toda a cidade, mas, entre os que conhecem alguma mulher que já sofreu agressão, 81% são da Região 1, que engloba os bairros mais centrais.
Os motivos para a demora no posicionamento da mulher ante o problema também estão na pesquisa. Para 64,7%, isso ocorre devido ao medo do agressor.
Outros 31,3% acreditam que é a dependência financeira. “O problema é que a maioria só se coloca quando há agressão física. Muitas ficam anos sofrendo violência psicológica, sexual e até financeira. Aí, quando há a agressão, elas não têm forças para reagir”, analisa Lídia Lasserre, assistente social e subgerente do Centro de Referência Loreta Valadares (CRLV), que atende mulheres agredidas.
Um total de 18,6% dos entrevistados acredita que o receio da denúncia é causado por amor pelo agressor. “Ninguém deixa de gostar do companheiro de uma hora para a outra, mesmo após uma agressão”, afirma Rosane Andrade, assistente social da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), em Brotas. Os filhos são apontados por 10,3% como principal razão para a demora das denúncias.
Nos atendimentos que faz no CRLV, Lídia Lasserre confirma que o medo, a vergonha e a dependência emocional retardam a reação das vítimas. “Mais de 40% das mulheres que atendemos ficam cerca de dez anos dentro do ciclo de violência antes de denunciar”. Até mesmo a culpa é um fator muito frequente. “Algumas chegam aqui achando que são culpadas da própria violência que sofrem”.
Recuperada dos traumas, a vendedora Maria Iracema virou líder comunitária. Usa sua história para alertar outras mulheres. Jamais vai esquecer dos socos e pontapés, mas principalmente dos xingamentos. “Me chamava de vagabunda, de cachorra. Isso é que dói mais”, lembra.
“A violência psicológica mexe na autoestima. São as piores”, confirma a psicóloga Sueli Lobo. Depois de tanto sofrimento, Iracema aprendeu três lições: “A mulher tem que meter a cara, conhecer seus direitos e, o principal, não depender de homem”.
Bahia é 8º em homicídios femininos
No ranking nacional, a Bahia ocupa a 8ª posição em casos de homicídio feminino e a 5ª em atendimento no Ligue 180, serviço de informações para mulheres vítimas de violência.
O levantamento feito pelo Ministério da Justiça aponta que, em 2012, o estado registra 5,6 assassinatos de mulheres por cada 100 mil habitantes. Por isso, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), criada no início deste mês para investigar a crescente violência contra as mulheres no Brasil, já realizou procedimentos de apuração no estado.
O passo inicial foi dado na 1ª Vara da Violência Doméstica e Familiar, em Salvador, onde foram identificadas dificuldades estruturais, a exemplo de carência de serventuários, inexistência de equipe multidisciplinar e acúmulo de processos, que já chegam a 12 mil.(Correio)

