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Elieser Cesar
Triste Salvador! Oh quão dessemelhante!
Num discurso poético em que não faltaram citações ao poeta Gregório de Mattos, o “Boca do Inferno”, assim apelidado pela ácida crítica às autoridades do Século XVII na Bahia, o deputado federal Emiliano José (PT-BA) criticou da tribuna da Câmara, em Brasília, o que considerou “a agressão continuada de que Salvador vem sendo vítima por uma administração inepta”.
Segundo o parlamentar, “tal agressão atinge o povo, a paisagem, a cultura e é decorrente de uma administração que não consegue esconder que entregou a Cidade da Bahia aos interesses exclusivos dos negócios privados, contrariando de modo ostensivo o interesse público”.
Ao colocar a boca no inferno astral da capital baiana, foi inevitável para Emiliano José não recitar um trecho do poema Triste Bahia! Oh quão dessemelhante!:
“A ti tocou-te a máquina mercante,
Que tua em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me tocado,
Tanto, negócio e tanto negociante”.

O deputado voltou à poesia satírica e sem papas na língua do “Boca do Inferno” para se reportar a projetos polêmicos do executivo municipal, aprovado pela Câmara Municipal – para muitos observadores da política local – também tomado pela máquina mercante. Um exemplo disso, conforme o deputado petista, foi a aprovação da nova Lei de Ordenamento de Uso do Solo (Lous), “que irá depauperar e agredir a orla marítima, pronta a ser ocupada por arranha-céus”.
Não que Emiliano José não compreenda a importância do capital privada para o desenvolvimento. Sua verve gregoriana se volta para a sanha predatória do capital imobiliário. “Os negócios privados não podem ditar o ritmo e a natureza do desenvolvimento de qualquer comunidade, muito menos de um metrópole com mais de 3 milhões de habitantes , mas serem balizados pelos interesses do povo”, observou o deputado. Depois recitou, novamente, Gregório de Mattos:

“Que homem tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire e não lamente?”

Só faltou responder: João Henrique! Mas a resposta foi a ampliação da pergunta: “Completo Gregório dizendo que homem, que mulher, que jovem, que idoso, vendo o triste estado de Salvador, não lute?”.
O parlamentar poderia acrescentar Carlos Drummond de Andrade:
“Lutar com palavras é a luta mais vã.
Entanto lutamos mal rompe a manhã”.

O fato é que a cultura literária da Câmara dos Deputados se enriquece com o discurso poético do parlamentar vate Emiliano Gregório José de Mattos.

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