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Editorial-quem viveu, aprendeu: A verdadeira identidade política começa na formação do cidadão

Visão Cidade — O passado como referência, o presente como reflexão e o futuro como responsabilidade.

Quem viveu a educação das décadas de 1970 e 1980 certamente guarda lembranças de uma época em que a escola ocupava um espaço fundamental na formação intelectual, moral e social dos estudantes. Eram tempos de professores que cobravam, exigiam dedicação e disciplina, mas que também acreditavam no potencial de cada aluno. O compromisso com o ensino era entendido como uma responsabilidade capaz de transformar vidas e preparar cidadãos para enfrentar os desafios da sociedade.

Ao recordar aquele período, somos conduzidos a uma reflexão necessária: o que aprendemos na escola e o que estamos ensinando às novas gerações sobre cidadania, responsabilidade, respeito e participação política?

Essa memória faz parte da trajetória de muitos estudantes que passaram pelo Jardim Infantil, pela Escola Getúlio Vargas e pelo ICEIA. Para aqueles que viveram essa experiência, basta avançar na leitura para reencontrar um pouco de sua própria história, lembrar dos professores, das disciplinas, das exigências em sala de aula e dos ensinamentos que ultrapassaram os muros da escola.

Educação Moral e Cívica: Valores que marcaram uma geração

A Educação Moral e Cívica (EMC) fez parte da formação escolar de milhares de brasileiros. A disciplina abordava valores como honestidade, respeito, justiça, solidariedade e responsabilidade, além de trabalhar noções de direitos e deveres do cidadão.

É importante, entretanto, compreender o contexto histórico em que ela foi ministrada. Tornada obrigatória pelo Decreto-Lei nº 869, de 1969, durante a ditadura militar, a EMC também foi utilizada como instrumento de promoção da ideologia oficial do regime. Portanto, recordar sua presença nas escolas não significa ignorar as contradições daquele período, mas reconhecer que a formação cidadã continua sendo uma necessidade para qualquer sociedade democrática.

O mesmo vale para a Organização Social e Política do Brasil (OSPB), disciplina que apresentava aos estudantes conceitos relacionados à organização do Estado, às instituições brasileiras e à vida política nacional. Sob o regime militar, também esteve vinculada à orientação ideológica oficial e foi obrigatória a partir de 1969. Sua obrigatoriedade foi revogada pela Lei nº 8.663, de 1993.

Independentemente das controvérsias históricas que envolveram essas disciplinas, permanece uma questão essencial: como preparar os jovens para compreender a sociedade, conhecer seus direitos, cumprir seus deveres e participar conscientemente da vida política?

Não basta formar pessoas capazes de repetir conceitos. É necessário formar cidadãos que saibam interpretar os acontecimentos, questionar decisões, reconhecer injustiças e compreender que a democracia exige participação, conhecimento e responsabilidade.

ICEIA: Professores, disciplina e lembranças que permanecem

Quem passou pelo ICEIA certamente poderá recordar as aulas de Estudos Baianos ministradas pelo professor Carlos Otte. Seus métodos de ensino deixaram marcas na memória dos estudantes. Havia aulas em que os alunos precisavam copiar textos durante todo o período e avaliações nas quais tinham de elaborar, de próprio entendimento, resumos sobre conteúdos escolhidos pelo professor.

Para muitos, eram desafios que exigiam atenção, memória, interpretação e capacidade de organizar as ideias. Hoje, ao revisitar essas experiências, é possível reconhecer o quanto o exercício da escrita e da síntese pode contribuir para o desenvolvimento intelectual.

Nas aulas de OSPB e Educação Moral e Cívica, os estudantes também tinham contato com noções de cidadania, organização política e símbolos nacionais. Aprendiam sobre o Brasil, suas instituições e a importância de reconhecer os elementos que compõem a identidade nacional.

Mas será que estamos oferecendo às novas gerações oportunidades suficientes para desenvolver esse mesmo interesse pela história do país, pela cultura brasileira e pela participação cidadã?

A pergunta merece atenção. Não se trata de afirmar que tudo era melhor no passado, nem de desconsiderar os avanços da educação contemporânea. Trata-se de reconhecer que disciplina, dedicação, leitura, escrita e compromisso com a aprendizagem continuam sendo elementos indispensáveis à formação de qualquer estudante.

O civismo e o respeito aos símbolos nacionais

Muitos alunos daquela geração aprenderam a cantar o Hino Nacional Brasileiro, o Hino da Bahia, o Hino do Soldado e o Hino ao Dois de Julho. Essas lembranças permanecem vivas para aqueles que participaram dessas atividades escolares.

É comum ouvir relatos de ex-alunos que ainda recordam as letras, as cerimônias e os momentos em que esses símbolos eram apresentados na escola. Para eles, o aprendizado representava uma forma de conhecer a história, a cultura e as referências coletivas do país e do estado.

Entretanto, o civismo não pode ser medido exclusivamente pela capacidade de cantar um hino ou memorizar um símbolo. Ser cidadão também significa respeitar as diferenças, defender a democracia, conhecer a Constituição, cuidar do patrimônio público e compreender que os direitos de uma pessoa precisam conviver com os direitos das demais.

O verdadeiro compromisso com a pátria não se resume a palavras, cerimônias ou demonstrações de patriotismo. Ele se revela, sobretudo, nas atitudes cotidianas e na responsabilidade com o bem comum.

Educação física: Disciplina, Esporte e Convivência

As lembranças daquela época também passam pelas aulas de Educação Física, que proporcionavam experiências com diferentes modalidades esportivas, entre elas basquete, vôlei e natação.

Nesse contexto, merecem ser lembrados os professores Josair Estrela e Aurita, como representantes de tantos educadores que contribuíram para a formação de seus alunos. Também permanece na memória a diretora professora Elza Peon, lembrada por sua postura firme, seriedade e presença na condução da escola.

Registrar esses nomes é uma maneira de prestar homenagem a profissionais que fizeram parte da história de uma geração e reconhecer que a educação não se constrói apenas com conteúdos programáticos. Ela depende também de relações humanas, exemplos, dedicação e da capacidade de orientar crianças e adolescentes.

O esporte, assim como as demais atividades escolares, pode ensinar cooperação, respeito às regras, superação de limites e convivência com as diferenças. Valores que não se restringem às quadras ou às piscinas, mas acompanham o indivíduo ao longo da vida.

Identidade política não se confunde com obediência partidária

É justamente nesse ponto que a memória escolar encontra a realidade política do Brasil contemporâneo.

Quando falamos em verdadeira identidade política, não estamos falando de pertencer à direita ou à esquerda, defender determinado partido ou acompanhar cegamente uma liderança. A identidade política de um cidadão deve ser construída a partir do conhecimento, da consciência crítica, da coerência e da capacidade de avaliar propostas, decisões e resultados.

O eleitor precisa compreender que política não é um jogo de conveniências pessoais, tampouco uma disputa na qual tudo se justifica em nome da vitória. Política é a atividade que interfere diretamente na vida coletiva, nas oportunidades de emprego, na saúde pública, na educação, na segurança, na mobilidade e na qualidade dos serviços oferecidos à população.

Por isso, a formação política começa muito antes de chegar à urna eletrônica. Começa na família, passa pela escola, desenvolve-se na convivência social e amadurece com o acesso à informação e o exercício da cidadania.

Um cidadão consciente não entrega sua capacidade de pensar a um político, não transforma adversários em inimigos e não aceita informações sem verificar sua veracidade. Ele questiona, compara, fiscaliza e cobra. Sabe que o mandato pertence ao interesse público e que os representantes eleitos devem prestar contas de suas decisões.

É nesse sentido que os ensinamentos sobre responsabilidade individual e coletiva ganham relevância. A sociedade precisa de pessoas capazes de compreender que liberdade não significa ausência de responsabilidade e que divergência política não autoriza desrespeito, intolerância ou disseminação de mentiras.

O desafio da educação na era da desinformação

Vivemos um período em que a informação circula em velocidade extraordinária. As redes sociais aproximam pessoas, ampliam debates e permitem que acontecimentos sejam conhecidos quase instantaneamente. Ao mesmo tempo, facilitam a propagação de notícias falsas, conteúdos manipulados e discursos que exploram a falta de conhecimento para influenciar opiniões.

Nesse cenário, formar cidadãos conscientes tornou-se um desafio ainda maior.

Não basta exigir dos jovens que saibam informações de memória. É necessário ensiná-los a pesquisar, interpretar textos, verificar fontes, compreender os fatos e distinguir opiniões de informações comprovadas. A educação precisa preparar o estudante para pensar por conta própria, sem ficar vulnerável à manipulação política ou ideológica.

A família tem papel fundamental nesse processo, assim como a escola, os professores, os meios de comunicação e as instituições públicas. Cada um precisa assumir sua parcela de responsabilidade na construção de uma sociedade mais consciente, participativa e comprometida com a verdade.

Também é necessário reconhecer que os jovens de hoje enfrentam realidades diferentes das vividas pelas gerações anteriores. Por isso, não se trata de simplesmente reproduzir os métodos do passado, mas de preservar aquilo que continua essencial: o compromisso com o conhecimento, a valorização dos educadores, a responsabilidade, o respeito e a formação humana.

Conclusão: Recordar o passado para cobrar um futuro melhor

Quem viveu as décadas de 1970 e 1980 pode olhar para trás e recordar experiências que contribuíram para sua formação. Os professores, as disciplinas, as avaliações, as atividades esportivas e os ensinamentos de cidadania compõem uma memória que merece ser registrada e debatida.

Entretanto, a saudade não pode substituir a análise crítica. A educação daquele período também esteve submetida a um contexto político autoritário, e a formação cidadã de hoje precisa estar fundamentada nos princípios democráticos, no pluralismo, na liberdade de pensamento e no respeito aos direitos humanos.

O que precisamos recuperar não é a imposição ideológica do passado, mas o compromisso permanente com uma educação de qualidade, capaz de ensinar, orientar e preparar o cidadão para a vida.

Os jovens precisam de famílias presentes, escolas estruturadas, professores valorizados, acesso ao conhecimento e oportunidades reais de desenvolvimento. Precisam de um país que compreenda a educação como investimento estratégico e que ofereça condições para que cada cidadão possa construir seu próprio futuro.

A verdadeira identidade política não nasce da conveniência, da troca de favores ou da submissão a lideranças. Ela se fortalece por meio do conhecimento, da coerência, da consciência crítica e do compromisso com a coletividade.

O passado nos oferece lembranças e lições; o presente nos impõe responsabilidades; e o futuro dependerá daquilo que formos capazes de ensinar às próximas gerações.

Porque uma nação soberana não se constrói apenas com discursos patrióticos, mas com educação, justiça, democracia, responsabilidade e cidadãos preparados para pensar, escolher e cobrar.

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