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Bahia: Sistema Ferry-Boat afunda no descaso e falta de gestão

Relato de um usuário: Entre os anos de um mil novecentos noventa e cinco ao ano de dois mil e um, a minha memória me faz lembrar, que nesse período, o sistema Ferry boat, chegou a operar com mais de oito embarcações, vou descrever o nome das referidas embarcações, 1 Baia de todos os santos, 2 Catamarã Morro de São Paulo, 3 Navio Maragogipe, os ferryes, 4 Agenor Gordilho, 5 Juraci Magalhães, 6 Vera Cruz, 7 Mont Serrat, 8 Ipuaçu, 9 Rio Paraguaçu, 10 Maria Betânia, 11 Ivete Sangalo e 12 Ana Nery

Até quando o povo baiano será obrigado a conviver com uma travessia marcada por embarcações insuficientes, longas filas, estruturas deterioradas e promessas que não saem do papel?
Editorial | Visão Cidade
Os feriados prolongados deveriam representar momentos de descanso, lazer e reencontro para milhares de famílias. Na Bahia, entretanto, para quem depende do sistema ferry-boat na travessia entre Salvador e a Ilha de Itaparica, esses períodos frequentemente se transformam em uma verdadeira prova de resistência, paciência e indignação.
Moradores de Salvador e da Região Metropolitana, turistas e cidadãos que se deslocam em direção aos municípios de Vera Cruz e Itaparica, ao Recôncavo Baiano e a outras regiões do estado enfrentam um problema que já deixou de ser pontual. A precariedade do sistema ferry-boat tornou-se motivo recorrente de reclamações, questionamentos e cobranças por providências.
A situação exige uma pergunta direta: como um serviço de tamanha importância para a mobilidade da população baiana chegou a esse nível de precariedade?
Um serviço essencial tratado como se fosse secundário
Para quem viaja de automóvel entre Salvador e a Ilha de Itaparica, o ferry-boat é uma ligação estratégica. Embora os passageiros que viajam a pé contem com a alternativa das lanchas que operam entre Salvador e Mar Grande, quem precisa atravessar com seu veículo depende diretamente da capacidade operacional do sistema.
O cenário se agrava quando uma das embarcações deixa de operar por problemas técnicos ou necessidade de manutenção. Com uma frota operacional já limitada, qualquer interrupção pode comprometer toda a dinâmica da travessia, aumentando as filas e prolongando o tempo de espera.
O que deveria ser um serviço organizado, eficiente e previsível passa a representar um transtorno para milhares de pessoas. E o mais preocupante é que a população já parece ter sido condicionada a esperar pelo pior sempre que se aproxima um feriado prolongado.
Mas não são apenas os feriados que expõem as deficiências. Os problemas também se manifestam durante os dias comuns da semana, demonstrando que a questão não se resume ao aumento sazonal da demanda. Existe um problema estrutural que precisa ser enfrentado com planejamento, investimento, fiscalização e responsabilidade administrativa.
Quando o problema atinge a saúde, o descaso ganha outra dimensão
Entre os usuários mais prejudicados estão as pessoas que dependem do Tratamento Fora do Domicílio (TFD) e precisam se deslocar dos municípios da Ilha de Itaparica e de outras localidades para Salvador em busca de atendimento médico.
São pacientes transportados em ambulâncias, ônibus e micro-ônibus, muitos deles em condições de saúde que exigem cuidados especiais. Para essas pessoas, a travessia não é um passeio, uma viagem de lazer ou uma escolha eventual. É uma necessidade.
Imagine o sofrimento de um paciente que precisa realizar sessões de hemodiálise na capital, sair de casa ainda de madrugada e enfrentar uma longa viagem até Salvador. Depois de passar pelo procedimento médico, muitas vezes desgastante, ainda precisa enfrentar o caminho de volta, novamente sujeito às filas e aos atrasos.
É necessário compreender que, por trás de cada veículo parado e de cada hora de espera, existem pessoas, famílias, compromissos médicos e necessidades humanas que não podem ser ignorados.
A mobilidade também é uma questão de saúde pública, dignidade e respeito ao cidadão.
Não se pode tratar a situação como se fosse apenas um inconveniente de transporte. Quando um sistema essencial não oferece condições adequadas de funcionamento, os efeitos ultrapassam os terminais e chegam diretamente à vida da população.
Uma frota que encolheu enquanto a necessidade permaneceu
Ao recordar o funcionamento do sistema no final da década de 1990 e no início dos anos 2000, usuários antigos relatam uma operação que chegou a contar com aproximadamente 12 embarcações, além de alternativas de transporte marítimo que contribuíam para a mobilidade entre os dois lados da Baía de Todos-os-Santos.
Naquele período, havia diferentes modalidades de embarcações e serviços, incluindo catamarãs e opções de travessia rápida. Também existiam alternativas comerciais que permitiam ao passageiro planejar melhor seu deslocamento.
Ao longo dos anos, porém, parte da frota deixou de operar. Embarcações foram retiradas de serviço, algumas acabaram destinadas à sucata, e a capacidade operacional foi diminuindo, enquanto a população continuou dependendo do transporte.
É justamente nesse ponto que a sociedade precisa cobrar explicações.
Como um serviço estratégico para a Bahia chegou a uma situação na qual a indisponibilidade de uma única embarcação pode agravar significativamente a operação? Quais foram os critérios adotados para a retirada dos antigos navios? Que investimentos foram realizados na renovação e na manutenção da frota? E quais medidas concretas foram tomadas para garantir a continuidade e a qualidade do serviço?
Essas perguntas precisam ser respondidas com dados, documentos e transparência.
Não basta reconhecer as dificuldades. É preciso demonstrar o que foi feito, o que deixou de ser feito e quais providências serão efetivamente adotadas.
A responsabilidade do Governo do Estado não pode ser ignorada
O sistema ferry-boat é um serviço público estratégico cuja operação está vinculada à atuação do Governo do Estado da Bahia, por meio dos órgãos e das estruturas responsáveis pela gestão e pela fiscalização.
Por isso, a responsabilidade política e administrativa não pode ser afastada diante das dificuldades enfrentadas pelos usuários.
Cabe ao governo assegurar que o serviço seja prestado com condições adequadas de segurança, regularidade, eficiência e respeito ao cidadão. Cabe também aos órgãos fiscalizadores acompanhar a operação, exigir o cumprimento das obrigações contratuais e regulatórias e cobrar soluções quando as condições oferecidas à população forem insuficientes.
Nesse contexto, a Agerba precisa esclarecer quais medidas de fiscalização vêm sendo adotadas, quais exigências foram feitas aos responsáveis pela operação e quais providências estão previstas para enfrentar os problemas recorrentes.
A população não precisa de discursos genéricos nem de justificativas repetidas a cada feriado. Precisa de resultados.
E aqui está uma das principais contradições dessa história: enquanto o cidadão enfrenta filas, atrasos e incertezas, o poder público precisa demonstrar, de maneira objetiva, que está trabalhando para recuperar a qualidade de um serviço essencial.
Se há limitações financeiras, que sejam apresentadas com transparência. Se existem dificuldades técnicas, que sejam explicadas. Se há necessidade de investimentos, que sejam definidos prazos, responsabilidades e fontes de recursos.
O que não se pode admitir é que a precariedade se transforme em normalidade administrativa.
Promessas de novas embarcações precisam sair do papel
A expectativa de incorporação de novos navios à frota foi apresentada como parte das possíveis soluções para melhorar a travessia. Entretanto, qualquer anúncio dessa natureza precisa ser acompanhado de informações claras sobre contratação, aquisição, chegada das embarcações, condições de operação e previsão de entrada em serviço.
A população não pode permanecer indefinidamente aguardando promessas sem um cronograma público e verificável.
Se foram anunciadas duas novas embarcações, é legítimo perguntar: em que estágio está o processo? Quando chegará a primeira? E quando a segunda estará disponível para atender aos usuários?
Mais do que anunciar reforços, é necessário garantir que as embarcações tenham condições de operar, que exista manutenção preventiva e que a frota seja suficiente para atender à demanda, inclusive nos períodos de maior movimento.
Navios parados, manutenção inadequada e falta de planejamento não podem continuar compondo o cotidiano de um serviço tão importante para a economia e para a mobilidade regional.
A estrutura de embarque também exige atenção
Outro problema que merece atenção é a condição das estruturas destinadas aos passageiros que embarcam e desembarcam a pé.
Quando as plataformas e os acessos destinados aos pedestres apresentam deterioração ou deixam de funcionar adequadamente, o fluxo de pessoas pode ser prejudicado, aumentando o risco de desorganização e de situações incompatíveis com a segurança e a dignidade dos usuários.
É fundamental que as autoridades esclareçam a situação dessas estruturas, informem quais intervenções são necessárias e apresentem um calendário de recuperação.
O passageiro que paga sua tarifa tem direito a instalações adequadas, acessibilidade, orientação e segurança. Não se pode exigir que ele cumpra suas obrigações sem que o serviço ofereça, em contrapartida, condições mínimas de funcionamento.
Também é necessário apurar eventuais denúncias de tratamento desrespeitoso por parte de colaboradores. Os trabalhadores precisam de condições adequadas para exercer suas funções, mas o usuário deve ser tratado com urbanidade e respeito. A administração tem o dever de apurar reclamações e corrigir falhas.
E a ponte Salvador–Itaparica? O ferry-boat precisa funcionar até lá
Muito se fala sobre a construção da ponte Salvador–Itaparica, projeto que promete transformar a mobilidade e a dinâmica econômica da região. Entretanto, a expectativa em torno dessa obra não pode servir de justificativa para deixar o sistema ferry-boat perder sua capacidade operacional.
Mesmo diante da perspectiva de uma futura ligação rodoviária, é indispensável que o serviço atual continue funcionando com segurança e eficiência durante todo o período de transição.
Uma obra dessa dimensão exige planejamento, execução e tempo. Enquanto ela não estiver concluída e efetivamente disponível para a população, o ferry-boat continuará desempenhando uma função essencial.
E existe outra questão: o transporte marítimo pode continuar tendo importância regional, turística e operacional mesmo após a implantação de uma nova ligação terrestre. Por isso, qualquer decisão sobre o futuro do sistema precisa considerar estudos técnicos, demanda, viabilidade econômica e interesse público.
Não se trata de defender a manutenção de um serviço ineficiente, mas de exigir que o patrimônio público seja administrado com responsabilidade.
A Bahia não pode simplesmente assistir à deterioração de sua infraestrutura marítima sem conhecer os motivos, os custos e as consequências dessa situação.
Quem ganha com a deterioração de um patrimônio público?
Esta é uma pergunta legítima diante de tantos anos de dificuldades: quem responde pelo processo de enfraquecimento de um serviço tão necessário à população?
É importante distinguir crítica de acusação. Não cabe atribuir interesses particulares ou apontar responsáveis por eventuais irregularidades sem provas. Cabe, sim, cobrar transparência, auditorias quando necessárias, prestação de contas e esclarecimentos sobre as decisões que levaram à situação atual.
Se embarcações foram retiradas de operação, a sociedade tem o direito de conhecer os motivos. Se houve venda de bens como sucata, deve ser possível consultar os procedimentos administrativos, os valores envolvidos e a destinação dos recursos. Se existiram falhas de planejamento, é preciso identificar como serão corrigidas.
O patrimônio público pertence à coletividade. Sua conservação e utilização adequada não são favores concedidos à população, mas obrigações de quem administra os bens e os serviços públicos.
O que não pode continuar é o cidadão pagando a conta da ineficiência com seu dinheiro, seu tempo, sua saúde e sua tranquilidade.
A população exige respostas, não desculpas
O ferry-boat não é um serviço secundário. É uma ligação estratégica entre Salvador e a Ilha de Itaparica, fundamental para moradores, trabalhadores, comerciantes, estudantes, pacientes e turistas.
Sua importância econômica e social exige uma atuação firme do Governo do Estado, dos responsáveis pela operação e dos órgãos fiscalizadores.
É hora de apresentar um plano público de recuperação do sistema, com metas objetivas, prazos definidos e acompanhamento dos resultados. Esse plano deve contemplar a disponibilidade da frota, a manutenção preventiva, a renovação das embarcações, a recuperação das plataformas, a organização das filas, o atendimento aos passageiros e a transparência na divulgação das informações operacionais.
Também é necessário estabelecer mecanismos para que a sociedade acompanhe a execução das medidas anunciadas.
O cidadão precisa saber quantas embarcações estão efetivamente operando, quais estão em manutenção, por que foram retiradas de serviço, qual é a previsão de retorno e quais investimentos estão sendo realizados.
Não é pedir demais. É exigir o mínimo que se espera de uma administração comprometida com o interesse público.
Com a palavra, as autoridades competentes!
O Visão Cidade abre espaço para que o Governo do Estado da Bahia, a Agerba e os responsáveis pela operação do sistema ferry-boat apresentem seus esclarecimentos à sociedade.
O que está sendo feito para recuperar a frota? Qual é o cronograma para a chegada e a entrada em operação das novas embarcações anunciadas? Quais providências serão adotadas para recuperar as estruturas destinadas aos pedestres? E que medidas concretas garantirão uma travessia mais segura, organizada e eficiente?
São perguntas que merecem respostas claras, fundamentadas e acompanhadas de compromissos verificáveis.
A população da Ilha de Itaparica, de Salvador e de toda a região atendida pelo sistema não pode continuar refém de uma travessia marcada pela incerteza.
A Bahia precisa decidir se continuará assistindo à deterioração de um serviço essencial ou se finalmente adotará as medidas necessárias para recuperá-lo.
O ferry-boat não pertence a um governo, a uma empresa ou a um grupo político. Trata-se de um serviço de interesse público, cuja finalidade é atender à população.
E quando um serviço público deixa de corresponder às necessidades de quem depende dele, a cobrança não é perseguição política: é exercício de cidadania.
O povo paga, o povo utiliza e o povo tem o direito de exigir.


Visão Cidade — nosso compromisso é com você.

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