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Praias limpas: os gráficos assustam, mas as respostas continuam faltando



Até quando o povo da Bahia terá de escolher entre o lazer e o risco de entrar na água?
A praia sempre foi, para o baiano, muito mais do que uma paisagem bonita. É espaço de convivência, lazer, esporte, turismo, trabalho e, principalmente, uma das poucas opções de diversão verdadeiramente acessíveis à população.
Mas existe uma pergunta que precisa ser feita — e precisa ser feita em voz alta:
Que praias estamos entregando para o povo da Bahia?
Os números recentes de balneabilidade chamam a atenção. O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) apontou, em boletim divulgado em 18 de setembro de 2026, 12 pontos impróprios para banho em Salvador, considerando parâmetros relacionados à presença de Escherichia coli.
E o problema não termina na capital.
Quando olhamos para a Baía de Todos os Santos, para o Litoral Norte e para outras áreas da Região Metropolitana, encontramos uma realidade que precisa ser discutida com seriedade: praias, rios, lagoas e manguezais que sofrem com lançamento inadequado de esgoto, resíduos, drenagem urbana e outras formas de degradação ambiental.
Não estamos falando apenas de números em um gráfico.
Estamos falando de pessoas.
Estamos falando do pai que leva o filho à praia. Da família que não tem dinheiro para viajar para um destino turístico distante. Do trabalhador que encontra no mar seu sustento. Do pescador, do marisqueiro, do comerciante, do ambulante e de todos aqueles que dependem diretamente da qualidade das águas.
A praia é democrática. O mar não cobra ingresso.
E justamente por isso não podemos aceitar que o cidadão tenha acesso gratuito à praia, mas precise pagar com a própria saúde quando a água estiver contaminada.
O Bahia Azul e a pergunta que permanece
É impossível discutir saneamento e despoluição na Bahia sem lembrar do Programa Bahia Azul.
Criado na década de 1990, o programa foi concebido para enfrentar a degradação ambiental da Baía de Todos os Santos e ampliar o saneamento em Salvador e municípios do seu entorno. O investimento global previsto chegou a cerca de US$ 600 milhões, envolvendo recursos de instituições como BID, Banco Mundial e contrapartida estadual.
O programa tinha objetivos claros: ampliar o esgotamento sanitário, reduzir a poluição, melhorar a qualidade ambiental e produzir efeitos positivos sobre a saúde da população.
Houve obras, houve investimentos e houve resultados.
Relatórios oficiais registraram, por exemplo, a ampliação da cobertura de esgotamento sanitário em Salvador durante a execução do programa.
Mas a história não termina aí.
E é justamente nesse ponto que começa a pergunta que o Visão Cidade entende que precisa ser colocada diante das autoridades:
O que foi feito depois do Bahia Azul?
Porque saneamento básico não pode ser tratado como uma obra com começo, meio e fim.
Rede de esgoto precisa de manutenção. Ligações precisam ser realizadas corretamente. Sistemas precisam ser ampliados. Rios precisam ser monitorados. Águas precisam ser protegidas. E, sobretudo, o planejamento precisa continuar.
Um estudo do próprio Estado já registrava problemas importantes no entorno da Baía de Todos os Santos, inclusive lançamento de efluentes em galerias de drenagem e bueiros com destino final em rios e praias, além da necessidade de ampliar as ligações domiciliares.
Portanto, a questão não é simplesmente perguntar se o Bahia Azul deu certo ou deu errado.
A questão é outra:
O que foi feito para que os resultados daquele grande programa fossem mantidos, ampliados e atualizados ao longo das décadas?
Não basta dizer: “esta praia está imprópria”
O trabalho de monitoramento do Inema é fundamental. Informar a população sobre quais pontos estão próprios ou impróprios é uma obrigação de transparência e uma ferramenta de proteção à saúde pública.
Mas existe uma diferença enorme entre informar o problema e resolver a causa do problema.
O cidadão precisa saber que determinada praia está imprópria.
Mas também precisa saber:
Por quê?
Qual é a origem da contaminação?
Existe lançamento irregular de esgoto?
Existe deficiência na rede coletora?
Existe extravasamento?
Existe problema de drenagem?
Existe ocupação irregular?
Existe falha de fiscalização?
Existe algum ponto de lançamento conhecido?
E, principalmente:
Quem é responsável por resolver?
É aí que entra o papel das autoridades públicas.
Do Farol da Barra a São Tomé de Paripe, do Litoral Norte à Baía de Todos os Santos
Salvador possui uma das orlas mais conhecidas do Brasil.
Da região do Farol da Barra a Itapuã, Piatã, Placaford, Stella Maris e outras praias, passando pela região de Paripe, Tubarão, São Tomé de Paripe e tantos outros pontos, a qualidade ambiental precisa ser tratada como política pública permanente.
E quando atravessamos a Baía de Todos os Santos, a preocupação permanece.
Mar Grande, Barra do Pote, Ponta de Areia, Amoreiras, Gameleira, Madre de Deus, Salinas da Margarida e tantas outras localidades possuem uma relação direta com o mar.
Não se trata apenas de turismo.
Trata-se de economia, saúde, meio ambiente e dignidade.
O mar não pode ser a lata de lixo da cidade
Existe uma equação que não fecha.
De um lado, o poder público investe em saneamento.
De outro, ainda encontramos situações de degradação ambiental.
De um lado, promovemos o turismo.
Do outro, convivemos com pontos de água impróprios para banho.
De um lado, vendemos a Bahia como destino de praias paradisíacas.
Do outro, o cidadão recebe o aviso de que não deve entrar na água.
Alguma coisa precisa ser revista.
E não estamos falando apenas de um governo.
Estamos falando de uma política pública que atravessa administrações, partidos e décadas.
O mar não tem partido. O esgoto também não.
A contaminação não pergunta quem governa, quem votou em quem ou qual partido está no poder.
Ela simplesmente chega à água.
A pergunta do Visão Cidade
Por isso, este editorial não quer apenas apontar o problema.
Quer cobrar respostas.
Ao Governo do Estado: quais são hoje os principais pontos críticos de lançamento de esgoto e poluição que afetam as praias e rios da Bahia?
Ao Inema: quais são as causas identificadas para os pontos recorrentes de impropriedade e quais providências são adotadas depois da constatação?
À Embasa e aos municípios: onde existem deficiências de coleta, tratamento e ligações domiciliares que ainda impactam rios, praias e a Baía de Todos os Santos?
Aos órgãos ambientais: qual é o planejamento de longo prazo para recuperar e preservar as águas da Bahia?
E existe uma pergunta maior, que talvez seja a mais importante de todas:
Se já investimos tanto em saneamento, por que ainda precisamos conviver com praias impróprias para banho?
A Bahia não pode se acostumar com o aviso de “praia imprópria”.
Isso precisa ser exceção, não rotina.
A população não quer apenas um gráfico indicando onde pode ou não pode entrar no mar.
Quer o direito de entrar na água sem medo.
Quer praias limpas.
Quer rios vivos.
Quer uma Baía de Todos os Santos protegida.
Quer saneamento básico funcionando.
E quer saber para onde foi o compromisso assumido décadas atrás de transformar a realidade ambiental da Bahia.
Porque uma coisa é certa:
não basta ter uma das mais belas costas do Brasil. É preciso cuidar dela.
O Bahia Azul fez parte de uma grande tentativa de transformar essa realidade. Agora, décadas depois, cabe às autoridades explicar qual é o próximo passo.
A Bahia precisa de um novo pacto pela água.
E, nesse pacto, o cidadão não pode ser apenas espectador.
Precisa ser beneficiário.
Praia limpa não é luxo. É direito, saúde, meio ambiente e qualidade de vida.


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