O matuto e seu compadre — ô dupla de dois
— Ô compadre!
— Ô compadre! Até que enfim tu apareceu, homem! Já tava pensando que tinha esquecido da nossa prosa de domingo!
— Que nada, compadre! Eu não vim domingo passado nem no outro. Amanhã seria o terceiro domingo sem aparecer. Aí pensei: vou hoje mesmo, porque amanhã não sei se vou poder. Vim logo prosear com tu, porque já tem um tempão que a gente não conversa.
— Pois é, compadre. Senta aí. E me diga uma coisa: tu tem acompanhado essa política?
— Oxente, compadre! E tem como não acompanhar? É fala-fala, promete-promete, diz que vai fazer, depois diz que está fazendo, depois diz que fez e o povo fica sem saber se foi feito ou se ainda vai fazer!
— É uma confusão dos pecados, compadre!
— Mas é assim mesmo. Tudo muda, tudo vai para um lado, depois vai para o outro, e o povo fica ali, na expectativa.
— Mas uma coisa é certa, compadre: dia 4 de outubro chega e a conversa muda de figura.
— E como muda! Quando a noite chegar, a gente já vai começar a saber quem ganhou, quem perdeu, quem vai para segundo turno, quem pode levar no primeiro, quem será deputado, quem será senador, governador e presidente.
— Pois é, compadre. E é aí que entra a responsabilidade do povo. Porque votar não é brincadeira, não. O povo tem que aprender a escolher.
— E escolha é o que não falta, compadre! Tem candidato pedindo voto em todo canto. É na rua, na internet, no celular, na televisão, no rádio…
— E nós vamos ter que escolher, compadre. Vamos escolher deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e vice, presidente e vice.
— Rapaz, é voto que não acaba mais!
— E justamente por isso o eleitor precisa prestar atenção. Porque depois não adianta reclamar do escolhido se a escolha foi feita sem pensar.
— É verdade, compadre. Mas me diga uma coisa: o que tu tá achando dessa campanha?
— Vou te dizer uma coisa: tá meio diferente. Até aquelas meninas das bandeiras estão mais quietas. Antes era uma bandeira pra cá, outra pra lá, gente pulando de um lado para o outro…
— E a zoadeira dos carros de som, compadre?
— Sumiu quase toda!
— E sabe por quê?
— Por quê?
— Porque a política também se digitalizou, compadre! Agora é internet, celular, vídeo, rede social… A campanha cabe na palma da mão.
— É a tal da globalização, compadre?
— Deve ser! Tudo acontece num estalar de dedo. Mas o povo diz que é para ficar tudo melhor.
— Se é melhor ou não, eu não sei. Só sei que quem não acompanhar fica para trás.
— E nessa política tem cada assunto que vira piada na roça!
— Tem mesmo. Olha essa história de anúncio de aumento de benefício para depois das eleições…
— Pois é, compadre. O povo já começa a fazer brincadeira, dizendo que tem gente comprando voto fiado!
— Ô compadre, esse povo não perde uma! Tudo vira piada!
— E a conversa sobre a ponte do Dique Grande?
— Rapaz, essa também virou assunto. Tem gente comentando, tem gente fazendo gozação e até notícia de apuração por parte das autoridades. Mas, quando existe apuração, o melhor é esperar os fatos e deixar as autoridades fazerem o trabalho delas.
— É isso, compadre. O povo fala, comenta, brinca, mas não pode esquecer que política é coisa séria.
— Muito séria.
— Porque no final das contas somos nós que vamos votar.
— E ninguém precisa mandar na cabeça de ninguém.
— Cada eleitor tem sua consciência.
— Cada eleitor tem sua escolha.
— E cada voto tem sua consequência.
— Então, compadre, dia 4 a gente vai lá cumprir nosso dever.
— Vai mesmo. E depois volta para a roça e continua nossa vida.
— Mas com uma esperança, compadre.
— Qual?
— Que quem for escolhido saiba olhar para o povo. Que a Bahia possa crescer, que o Brasil possa avançar e que a nossa roça também seja lembrada.
— E que venha desenvolvimento para quem vive longe dos grandes centros.
— E que projetos importantes, como a ponte do Dique Grande, se forem realizados, tragam progresso de verdade para a população.
— É isso, compadre. Porque nós não queremos promessa bonita.
— Queremos resultado.
— Não queremos conversa fiada.
— Queremos compromisso.
— E não queremos que a roça seja lembrada só na época do voto.
— Queremos ser lembrados depois que a urna fechar.
— Agora tu falou bonito, compadre!
— Bonito nada! Falei o que o povo da roça pensa.
— Então pronto. Domingo que vem tu vem de novo?
— Se Deus quiser, compadre!
— E se não vier?
— Tu vai lá na porteira me buscar!
— Combinado!
Ô dupla de dois!
Visão Cidade



