Notícias

Quando a urna aperta, a lealdade some: Otto Alencar e a política do abandono

A política costuma ser vendida como arena de convicções, mas com frequência se comporta como um pronto-socorro de sobrevivência. Quando a pressão eleitoral aperta, alguns líderes — daqueles que se proclamam “homens de partido”, defensores da lealdade e da palavra empenhada — passam a tratar alianças como objetos descartáveis: servem enquanto garantem fôlego, atrapalham quando exigem reciprocidade. E então são deixadas para trás, sem cerimônia, sem explicação convincente, sem o mínimo constrangimento.

É por isso que chama atenção a avaliação recorrente, dentro da própria classe política, de que o senador Otto Alencar (PSD) teve sua liderança contestada depois de soltar a mão do principal aliado e compadre, Angelo Coronel (PSD), para dedicar apoio à chapa puro-sangue do PT. Não se trata apenas de uma manobra pragmática — pragmatismo é quase um idioma oficial em ano pré-eleitoral —, mas do gesto simbólico que acompanha a decisão: o rompimento com quem não era somente um parceiro circunstancial, e sim alguém descrito como compadre, isto é, um vínculo que transborda o partidário e alcança o pessoal.

E aqui está o ponto moral e político da questão: se, diante do cálculo eleitoral, um político é capaz de abandonar até um aliado com quem mantém laços pessoais, o que o impediria de lançar ao vento outros personagens que nele confiaram — quadros do partido, lideranças locais, eleitores, apoiadores, gente que apostou seu capital político na palavra de um comandante? A régua de confiabilidade despenca. O gesto vira precedente. A mensagem é simples e devastadora: em tempos difíceis, a lealdade é um luxo que o líder não se permite; a fatura recai sempre sobre o lado mais fraco da corrente.

Some-se a isso o componente da autoridade. Liderança não é apenas ocupar um lugar na mesa; é sustentar posições sob pressão, construir consenso e, sobretudo, assumir o ônus das escolhas. O que se diz nos bastidores — que Otto raramente foi submetido aos desafios reais de um líder porque sempre esteve à sombra de protagonistas, de ACM a Jaques Wagner, sob cuja coordenação o grupo petista se organiza na Bahia — ajuda a explicar por que, no primeiro grande teste público de musculatura política, o desempenho parece ter sido de hesitação. A confissão de estar “sem diagnóstico” eleitoral não é apenas uma frase infeliz: é um retrato de improviso, de quem se acostumou a operar com a proteção de estruturas alheias e, de repente, precisa justificar o próprio rumo.

Otto construiu, ao longo do tempo, uma imagem de lealdade e disciplina partidária — “homem de partido”, repetiu-se. O problema é que imagem, na política, só se sustenta se houver coerência entre discurso e gesto. Quando o gesto contradiz o discurso, a narrativa vira pó, e a autoridade passa a ser disputada pelos próprios aliados. Não surpreende, portanto, que pessedistas já admitam que essa reputação está em xeque.

No fim, a crise não é apenas sobre uma escolha tática entre chapas. É sobre o tipo de liderança que se pretende exercer. Há políticos que atravessam anos amparados por sombras confortáveis, sem precisar demonstrar esforço real para conquistar posições, sem enfrentar a aspereza de construir maioria com as próprias mãos. Mas chega um momento em que a sombra não basta. Quando a política exige densidade, coragem e fidelidade mínima aos compromissos assumidos, o líder que viveu de abrigo costuma revelar sua fragilidade — e, na pressa de se manter “vivo” na corrida eleitoral, pode acabar matando o que é mais caro: a confiança que o sustenta.

Por: Jorge Andrade

Um comentário sobre “Quando a urna aperta, a lealdade some: Otto Alencar e a política do abandono

  • Muito boa narração de tudo que estamos vendo!!! Garantiu força e cargos pra filhos irmãos genros etc… quem quiser que morra agora…

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *