Copa: Fifa mantém sigilo sobre ingressos sorteados

Na próxima segunda-feira (11/11) a Federação Internacional de Futebol (Fifa) inicia a nova etapa de sorteio para venda de ingressos da Copa do Mundo 2014, quando mais de 220 mil bilhetes serão disponibilizados aos candidatos que se inscreveram no site oficial da federação. Mas o clima não é de comemoração e sim de muita polêmica, revolta dos torcedores e até envolve uma ação coletiva na Justiça. Isso porque a Fifa, na primeira rodada de sorteio realizada na semana passada, destinou 71,5% dos ingressos sorteados a residentes brasileiros com direito a desconto, mas não divulgou no seu site e nem em qualquer outro lugar os critérios adotados na seleção e os nomes das pessoas contempladas. Rumores vindos do setor de Turismo questionam se a demanda liberada pela federação realmente chegou ao público certo ou tomou um atalho que pode levar a grupos jurídicos no papel de “cambistas” da Copa.
O ex-consultor jurídico do Ministério dos Esportes e um dos principais negociadores da Lei Geral da Copa de 2014, o jurista Wladimyr Camargos esclarece que a legislação é muito clara quanto à destinação dos ingressos, na sua quantidade e categoria de público beneficiado, porém em momento nenhum obriga a Fifa a divulgar publicamente os procedimentos e mecanismos de sorteio, que ficaram exclusivamente na sua responsabilidade. E é nessa brecha que a federação está se garantindo e recusando a abrir a sua “caixa preta”.
Segundo Camargos, a Lei Geral da Copa (Lei 12.663/2012), congrega os dispositivos legais do Direito, direcionados na organização da Copa das Confederações 2013 e da Copa do Mundo 2014. “Se a Fifa estiver seguindo as leis específicas, está na sua razão. Mesmo como um dos participantes da formulação do projeto, não tenho condições de avaliar se o sorteio realizado foi ou não legal, porque não tenho acesso aos métodos usados, somente a Fifa pode responder a essa questão”, afirmou o jurista.
Camargos explicou que, pela Lei Geral da Copa, 300 mil ingressos são destinados a brasileiros que se inscreveram no sorteio. O artigo 26 trata da categoria 4, aquela composta por pessoas com prioridades, como estudantes, idosos com 60 anos ou mais e quem participa de programa sociais do governo federal, como o Bolsa Família. Esse grupo tem direito à meia entrada e também prioridade na seleção. Já o artigo sete do decreto 77832012 da lei, determina que a regularidade do sorteio deve ser garantida pelo Ministério do Esporte e um outro órgão federal destinado à acompanhar as seleções. Os limites de bilhete e suas vias de distribuição estão detalhados no parágrafo primeiro do mesmo artigo.
O Procon-RJ entrou com uma ação coletiva contra a Fifa, exigindo esclarecimentos sobre o sistema de sorteio de ingressos. A autarquia considera que os mais de seis milhões de torcedores que fizeram os seus cadastros no site da federação e participaram do sorteio não foram devidamente informados das etapas e métodos da seleção. Os últimos eventos esportivos da Fifa cancelados pela prefeitura do Rio de Janeiro também dão sinais de que o prefeito Eduardo Paes está evitando novas manifestações na cidade, organizadas por grupo que não concordam com os altos custos da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. A mesma postura está sendo mantida pelo governo estadual, que está retirando do seu calendário os maiores eventos esportivos programados para os próximos meses.
Na terça-feira passada (5), ao mesmo tempo que a Fifa divulgava em seu site o resultado da primeira rodada de sorteio, a organização da Soccerex Global Convention confirmava, também pelas redes sociais, que o governo do Rio de Janeiro havia cancelado a realização da maior feira de negócios do futebol no mundo na cidade, que estava programada para acontecer entre os dias 30 de novembro e 5 de dezembro. Em um vídeo postado no site da organização e através de uma nota oficial, o presidente da Soccerex, Duncan Revie, criticou o governo do Rio e afirmou que as declarações oficiais são “inverdades” e “falsas alegações” ao tentar justificar a falta de apoio financeiro para a edição do evento em 2013. Revie atribui o cancelamento unilateral a um clima de “tensão social” e “pressão popular” que paira no país e que a realização do evento poderia gerar protestos.
A Soccerex seria realizada no Maracanã e já tinha confirmada a presença de mais de 100 clubes e 600 empresas. Nos três anos anteriores, a feira foi realizada no Forte de Copacabana, em Copacabana, Zona Sul da cidade, e reuniu um público superior a 15 mil pessoas, entre empresários, ex-jogadores, dirigentes, pessoas ligadas ao futebol e visitantes.
Em meados de outubro, o colunista da Revista Veja, Lauro Jardim, afirmou que a Fifa e o prefeito Eduardo Paes estavam se “estranhando”. O motivo seria o aviso de desistência da prefeitura de destinar recursos para cobrir parte da estrutura da Fan Fest, uma arena de shows e transmissão das partidas durante a Copa de 2014. Segundo o colunista, o Rio é a única capital que descumpriu o combinado e a Fifa estava avaliando que Paes “está preocupado com a reação do carioca por causa de supostos gastos excessivos com a Copa”.
(Jornal do Brasil)

