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Atestado de Óbito da Saúde

programa mais médicosApesar do rebuliço e das manifestações contrárias, o programa Mais Médicos teve pouquíssimo efeito em Goiás. Isso porque apenas dois médicos de nacionalidade estrangeira devem integrar equipes médicas no interior do Estado. E diante da noção de que 55 municípios goianos não tem médicos residentes, apesar dos 9.615 médicos em exercício  profissional no Estado, cabe ao questionamento se a “falta de estrutura” – repetidamente alegada como justificativa para que os médicos brasileiros não atendam no interior do País – não é na verdade um eufemismo para a falta de luxos. Afinal, ao momento de graduação, todo médico realiza um juramento que lhe define como defensor da saúde humana, em muito apagada do ideário da Medicina brasileira, que parece, hoje, se sentir mais motivada a representar um nicho aristocrático do mercado de trabalho, do qual apenas a elite consegue participar.
  Mas não é o acesso à saúde, tanto preventiva quanto emergencial, um direito do ser humano?
Entretanto, não é apenas aos médicos que se direcionam os questionamentos. A sociedade é dinâmica e nada funciona sozinho, então, para entender por quais razões os médicos brasileiros evitam ir para o interior, é primeiro necessário entender o que os motiva a ficar nos grandes centros urbanos, fazendo com que mais de 50 municípios tenham seu atendimento prejudicado quando a média de médicos por habitantes é 1,5 para cada mil habitantes, contingente de 50% maior do que o estipulado pelo Ministério da Saúde como desejável para atendimento abrangente e funcional. Assim, o problema, em primeiro lugar, não é quantidade, e sim distribuição – problema esse que não atinge somente Goiás mas todo o País, já que apenas 8% dos médicos formados no País atuam em Países com até 50 mil habitantes. E, mesmo com a solicitação de 2.856 prefeituras para que as equipes fossem aumentadas, apenas 3.800 profissionais foram contratados: 29% do esperado, o que escancara a falta de motivação dos médicos brasileiros em atender a demanda criada em seu próprio País. 
 Enquanto a classe profissional se digladia por salários e estrutura de trabalho, ainda que essas sejam as reivindicações válidas, a população espera, mas suas doenças não. E se muitos morrem em flagrantes vergonhosos para a mídia brasileira, mais ainda são os que deixam de ser salvos pela falta de algo ainda mais simples, a informação. Sim, a informação, pois é esse o ponto que diferencia o Brasil de Cuba – o fato de que a população local não tem praticamente nenhum ensinamento a respeito de prevenção básica, o que faz com que outros problemas de infraestrutura (como saneamento básico) tenham impacto ainda maior do que teriam normalmente.
razão
A falta de eficácia do Estado gera enfermidade, um negócio bastante lucrativo. É o que diz                Renan Marino, 57, médico pediatra e homeopata: “A indústria farmacêutica, na verdade, foi se infiltrando sorrateiramente nas faculdades, há mais ou menos duas décadas. A parte terapêutica da Medicina sumiu, e agora só há interesse nas indústrias. A tradição de análise bioquímica e patológica ficou superficial, e muitas vezes o médico não tem consciência se aquilo é passado, propagandeando, é certo ou não.”
  Renan Marino fala também sobre a cultura que restringe o exercício profissional: “E como muitas vezes os próprios chefes estimulam esse tipo de postura, os profissionais perdem sua capacidade crítica, sempre recorrendo a medicamentos para solucionar problemas, o que faz com que cometam erros básicos. A presença das indústrias farmacêuticas é muito forte na atividade de um médico, o que nos leva a perguntar até onde é lícito um laboratório pagar viagens, congressos, cursos, dar bonificações? Os médicos acabam ficando na mão das indústrias, uma influência deletéria para a área é cada dia mais forte”, alerta o médico.
lógica
O Brasil é o nono maior mercado para a indústria médica e farmacêutica, movimentando, segundo o Ministério da Saúde, em torno de R$ 28 bilhões anuais. E, tornando-se uma máquina rentável, a indústria farmacêutica passa a ser gerida pela lógica de mercado capitalista.
Em palavras de alguém com experiência na área, os depoimentos dados pelo britânico Richard Roberts, para a revista PijamaSurf:  “Os medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos pela indústria farmacêutica, que, no entanto, desenvolve drogas que são consumidas cronicamente, de forma massificada. Alguns medicamentos que poderiam curar toda a doença não são investigados. Elas não estão tão interessadas em curar você quanto em conseguir ganhar dinheiro, por isso que a investigação, de repente, é desviada para a descoberta de medicamentos que não curam, e sim que fazem a doença ser cronificada e fazem aparecer uma melhoria, que desaparece quando você para de tomar o medicamento. A indústria da saúde é regida pelos mesmos valores e princípios que o mercado capitalista, os quais são muito parecidos com uma máfia”, declara o cientista.
A citação pode parecer sensacionalista, mas se houver um momento de reflexão, logo surgem associações entre os cartéis de drogas (ilegais) e as indústrias farmacêuticas (de drogas legais, mas ainda assim drogas); repressão e estímulo ao consumo por manipulação dos preços, criação de necessidades de mercado (vacinas ou remédios que viciam, por exemplo), formação de monopólio; em resumo, eliminação da concorrência através de artifícios considerados não somente antiéticos, mas também ilegais, que por fim pretendem dominar o mercado e manter os consumidores ativos e não realmente lhes trazer melhorias.
Preocupação ou racismo?
São várias declarações que revelam o preconceito e temor dos médicos brasileiros em ter seu monopólio desafiado. Entre eles, chamam a atenção a declaração da jornalista Micheline Borges, do Rio Grande do Norte, que postou a seguinte declaração em seu Facebook: “Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas tem (sic) uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo? Afe que terrível (sic). Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impôe a partir da aparência… Coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja o nosso povo!”.
Infelizmente, uma pessoa como essa é capaz de ser jornalista, exibindo não apenas um festival de ignorância e estereotipação, mas também desconhecimento total sobre o tema. Isso porque o Brasil é 58° País a receber a ajuda de médicos cubanos, numa parceria garantida pela mais antiga organização de médicos do mundo, a Organização Pan-Americana de Saúde, criada em 1902. Assim, não apenas os médicos entendem de dengue e febre amarela, mas também estão acostumados a trabalhar em países onde o espanhol não é a língua natural, com climas e culturas diferentes, juramentados a servir os carentes e não apenas a lucrar com uma profissão elitizada. A diferença se dá, em grande parte, pelo ensino da Medicina em Cuba ser público, e portanto aberto a quem tiver interesse na área, e não apenas a quem tiver acesso à escolas particulares e anos “investindo” antes de ingressarem para a lucrativa carreira de médicos, na qual querem ter seu investimento revertido em salários altos e luxos que, realmente, muitas cidades do interior não podem oferecer.
“Desde 2005 sabíamos que havia um acordo para que o governo cubano recebesse alunos indicados pelo governo Lula, do MST e de seu partido , o PT, para estudar Medicina em Havana. Assim, esses alunos teriam acesso ao ensino sem nenhum tipo de seleção, numa indicação ideológica, e o ex-presidente comprometeu-se a repatriar esses profissionais. Esse acordo entre Lula e Fidel já era de conhecimento, então não é de se espantar que os médicos venham pra cá agora, sem fazer o Revalida. Toda essa operação deveria ser batizada de ‘Cavalo de Tróia’ ”, brinca Marino.
ENSAIO
Cabe aqui a experiência do Tocantins, que Pedro Pofírio, da revista Forum, exemplifica como prova: “Em 2005, quando o governador de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele País. A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da Medicina pública, que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero. Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata expulsão dos médicos cubanos”, conta.
   “E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais da saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de formação de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens  do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde, acrescenta”. Ainda aponta para dados que comprovam que a Medicina  fica restrita a quem teve berço de ouro: “Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na Medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado.”
“Portanto, enumeremos aqui alguns dos entraves : 1) o médico brasileiro não entende que sua função tem caráter humanitário; 2) o médico brasileiro é racista e inseguro acerca da qualidade de seu próprio trabalho; 3) ele prefere que a população continue sem atendimento e chama de desqualificados profissionais com uma média de 15 anos de experiência; 4) todas as anteriores são na verdade máscaras para esconder o vexaminoso e criminal universo que existe por trás do péssimo atendimento do SUS.”
No fogo cruzado, ficam profissionais que vivem em uma realidade muito diferente da nossa, mas com desejos semelhantes. Ou como define Marino, que já foi para Cuba a trabalho duas vezes : “O povo cubano é ótimo e muito parecido conosco, mas há hostilidade no governo, que é uma ditadura, que mantém as famílias desses médicos como reféns. Somos feitores de escravos brancos, é uma situação delicada”, acredita, apesar de reconhecer que “os médicos cubanos são bons, interessados e se preparam; são hospitaleiros, muito diferente do governo de Cuba, que já cometeu diversos crimes contra a humanidade. O médico cubano não confude ideologia comunista com ética profissional”, acredita.
      Já para os cubanos, que não parecem estar sofrendo com a situação, e sim dispostos a trabalhar, destacam-se depoimentos como o da médica Jaceio Pereira, de 32 anos, que declarou ao site do médico Dráuzio Varella que “apesar de ser a mais jovem do grupo, tem bastante experiência profissional e no início de sua formação já trabalhava com saúde da família”. Ela pediu o apoio do povo brasileiro e respeito aos profissionais de seu país: “Queremos ajudar e dar saúde a todos aqueles que não têm acesso aos serviços médicos”, disse. “Queremos dar amor e queremos receber amor”, resume a médica.
DM

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