Estados Unidos estão a perder a “paciência” com o Paquistão

Não haverá paz no Afeganistão enquanto “houver um porto seguro para os terroristas no Paquistão”, disse o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Leon Panetta, de visita ao país, depois de num só dia terem morrido 39 civis, parte deles num polémico ataque da NATO. Mais, os Estados Unidos estão a “atingir os limites da paciência” perante a falta de acção do Paquistão no combate ao terrorismo.
“É muito importante que o Paquistão tome uma atitude para impedir a existência deste tipo de portos seguros”, frisou Panetta esta quinta-feira numa conferência de imprensa em Cabul, perante o ministro da Defesa afegão, Abdul Rahim Wardak. “A preocupação é crescente porque esses santuários estão a ser usados pelos Haqqanis [um grupo de militantes islamistas] para atacar as nossas forças.”
Panetta visitou o Afeganistão no dia seguinte àquele que foi o mais sangrento para os civis desde o início do ano. Só na quarta-feira, e num espaço de horas, morreram 39 civis. Pelas mãos dos taliban mas também das forças da NATO no país (ISAF). Em Kandahar dois ataques bombistas dos taliban num mercado às portas de uma base aérea americana mataram 21 pessoas. Mas há outras mortes que estão a abafar estas: as de 18 civis que foram vítimas de um ataque aéreo das tropas da NATO a uma casa de família, onde se tinham escondido combatentes taliban.
“Um ataque da NATO em que civis perdem a vida e vêem a sua propriedade danificada não tem qualquer justificação”, afirmou num comunicado o Presidente afegão, Hamid Karzai, que, depois da morte de tantos civis num ataque da ISAF, antecipou o regresso de uma viagem à China. “Não é aceitável.”
Um fotojornalista da AFP que viu os corpos conta que entre as vítimas estavam cinco mulheres e sete crianças. Festejavam um casamento à hora do ataque aéreo. Um porta-voz da força da NATO disse que estava a investigar o caso. Na sua versão, no ataque morreram apenas “múltiplos insurgentes”. De acordo com as Nações Unidas, no ano passado bateram-se recordes na perda de vidas de civis no Afeganistão.
O senador republicano John McCain tem defendido que o anúncio de uma data para a retirada das tropas da NATO do Afeganistão é contraproducente nos esforços para derrotar os taliban, por lhes estar a enviar a mensagem errada, lembra o Los Angeles Times. Mas para Panetta, o problema está no Paquistão, onde os taliban e outros extremistas se refugiam e procuram apoio perante os ataques das forças afegãs e da coligação.
Os Estados Unidos têm exigido ao Paquistão que faça mais no combate ao terrorismo, mas as difíceis relações entre os dois países, que o secretário da Defesa descreveu numa entrevista à estação televisiva ABC como “das mais complicadas” de sempre para os EUA, não têm ajudado. E Panetta não parece empenhado em melhorá-las: na véspera, em Nova Deli, numa conferência num instituto de investigação, riu-se, com a audiência, do embaraço dos dirigentes militares paquistaneses depois do raide em que, em Maio do ano passado, os EUA mataram Osama bin-Laden.
Com a recusa de Islamabad em facilitar o acesso ao Afeganistão às forças da NATO, multiplicam-se os ataques americanos com drones no Paquistão. Uma acção militar que o Governo já disse considerar ilegal e uma violação da soberania do país. Ainda no início desta semana, os Estados Unidos mataram o homem tido como o “número dois” da Al-Qaeda, Abu Yahya al-Libi, num ataque com aviões não tripulados na fronteira daquele país com o Afeganistão.
(Publico.pt)

