Obama escolheu a hora certa para apoiar casamento gay

Desde que Barack Obama se tornou o primeiro presidente dos EUA a apoiar publicamente o casamento gay, há pouco mais de uma semana, os homossexuais e simpatizantes dividiram-se em dois grupos: o dos esperançosos que festejam a declaração e o dos céticos que reconhecem o avanço mas suspeitam de segundas intenções. E ambos estão corretos. A comemoração é válida, pois se trata sim de um momento histórico para o país, mas também é preciso enxergar que o discurso emotivo de Obama foi, na verdade, motivado por razões puramente racionais. A começar pelo momento exato escolhido para divulgar seu posicionamento – um dia depois da publicação de umapesquisa que diz que metade da população americana apoia esse tipo de união, no mesmo dia em que ganhava força nas redes sociais uma campanha que tenta revogar a lei que proíbe o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Carolina do Norte e um dia antes de uma reportagem do jornal Washington Post revelar que o pré-candidato republicano e seu futuro rival, Mitt Romney, praticava bullying contra colegas homossexuais na adolescência. Timing perfeito.
E mesmo que um levantamento divulgado logo depois pelo jornal The New York Times mostre que 67% dos entrevistados acreditam que a atitude de Obama resulta mais de cálculo político do que de convicção pessoal, o presidente não demorou para começar a colher os bons frutos de sua declaração – em apenas uma hora e meia, os cofres da campanha democrata receberam 1 milhão de dólares em doações. E isso não foi uma surpresa, e sim o resultado já esperado de uma manobra cuidadosamente orquestrada de olho nos benefícios políticos e financeiros. “Eu não concordo com editoriais que tenho visto na imprensa falando que a decisão de Obama foi arriscada. Na verdade, acho que foi uma estratégia esperta considerando as tendências apresentadas pela opinião pública. E eu não acho que ele vai perder muitos votos, de forma alguma”, disse ao site de VEJA David A. Schultz, professor de direito e especialista em política da Universidade de Hamline, nos EUA.
Minorias – Quando foi eleito, em 2008, Obama era considerado um verdadeiro representante das minorias americanas, que viam nele um presidente revolucionário capaz de atender a todas as suas causas. Mas pouco dessa ambição foi transformada em prática e, conforme seu mandato aproximava-se do fim, ele foi sendo acusado de se inclinar para o centro e perder a coragem para enfrentar a oposição no Congresso. “Barack Obama tem agora um problema de entusiasmo. As pessoas não estão tão entusiasmadas com ele como há quatro anos. Ele decepcionou os eleitores por prometer que iria pressionar muito os republicanos em assuntos sobre os quais ele não se esforçou tanto depois. Estamos vendo uma tentativa de tentar recuperar isso”, analisa Schultz. Portanto, Obama queria – e precisava – fazer as pazes com esses eleitores o mais rápido possível, especialmente os homossexuais a quem ele havia prometido defender.
Depois de abolir a lei discriminatória Don’t Ask, Don’t Tell (Não Pergunte, Não Conte, em tradução livre), que proibia militares de se assumirem gays, o presidente acabou voltando seus esforços a outros temas e deixou de lado a defesa dos direitos dos homossexuais. Por anos, ele relutou em se posicionar explicitamente sobre o casamento gay. E quanto mais ficava em cima do muro, maior era o risco de perder um valioso apoio para a reeleição, como enfatiza a reportagem especial publicada pela revista Newsweek sob o título O Primeiro Presidente Gay dos EUA. “Houve, é claro, frieza política por trás disso. Um em cada seis dos responsáveis por angariar fundos para a campanha de Obama é gay, e ele precisa do dinheiro deles”, diz o artigo assinado por Andrew Sullivan, blogueiro político e homossexual assumido. Além disso, completa Sullivan, alguns doadores gays já haviam ameaçado abandonar o democrata. Confira, na lista abaixo, as declarações dele sobre o tema ao longo dos anos:
(Veja)

