Grécia: Partidos do centro vão formar coligação mas terão Governo fraco

Os dois partidos do centro pró-austeridade manifestaram a intenção de formar uma coligação de governo na Grécia e as conversações vão arrancar terça-feira, mas isso não ofusca as dificuldades da tarefa, depois do sismo das eleições legislativas de domingo.
Nova Democracia (centro direita) e PASOK (socialistas), as duas formações políticas que têm alternado no poder desde 1974 perderam no conjunto mais de 40% dos votos por comparação com as eleições de 2009 – ao todo, tiveram então 77% dos votos; segundo as sondagens à boca das urnas e os primeiros resultados oficiais, não ultrapassam desta feita os 34%.
Apesar de terem visto o seu eleitorado diminuir drasticamente, os dois partidos que defenderam o memorando com a troika (e as duras medidas de austeridade que isso implicou) deverão conseguir 151 deputados, o mínimo para uma maioria no Parlamento de 300 lugares.
O grande vencedor da noite foi o Syriza, o partido da esquerda radical, que com 68% dos votos contados estava com 16,28% dos votos e 50 deputados, ultrapassando assim o histórico PASOK e subindo para segunda força política.
Em 2009, o partido liderado pelo jovem engenheiro Alexis Tsipras (38 anos) teve 4,6%, o que lhes permitiu ocupar 13 lugares no Parlamento. Era a quinta força política com o mais pequeno grupo parlamentar.
“Nós não somos contra o euro mas opomo-nos às políticas que estão a ser seguidas em nome do euro”, disse Alexis Tsipras, falando aos apoiantes em Atenas. “O Syriza pode ser o catalisador para uma grande mudança.” E ainda: “Durante dois anos eles tomaram decisões sem nos perguntar nada. O povo grego não lhes deu o mandato para tomar aquelas decisões. No país onde nasceu a democracia não há democracia nenhuma. Chegou o tempo de regressar à democracia.”
Tsipras lembrou ainda que os dois principais partidos do centro só deverão conseguir a maioria necessária para governar por causa do bónus que dá mais de 50 deputados ao partido vencedor. A regra baseia-se na convicção de que na Grécia os eleitores votam para serem governados mais do que para serem representados.
A outra grande surpresa da noite veio do outro extremo: o segundo vencedor destas legislativas é a extrema-direita do Aurora Dourada, que se aproximava dos 7% e dos 21 deputados. O partido que entra pela primeira vez no Parlamento prepara-se para ser a sexta força política entre sete partidos.
“A hora do medo soou para os traidores à pátria”, anunciou o líder do Aurora Dourada, Nikos Mihaloliakos, partido que defende a expulsão de todos os imigrantes da Grécia. “Nós estamos a chegar”, disse numa conferência de imprensa num hotel em Atenas, rodeado por uma dúzia de homens de cabeça rapada. “A Grécia não é senão o começo”, prometeu ainda.
Segundo a Constituição, as negociações para formar Governo vão desenrolar-se ao longo de três dias. Se o Nova Democracia, o mais votado, não conseguir negociar uma coligação, é a vez do Syriza tentar. Se o segundo partido mais votado também não conseguir, é ainda dada uma oportunidade ao terceiro. Alguns analistas apostam já que os dois partidos do centro vão conseguir formar governo – mas este será tão fraco que não deverá sobreviver às dificuldades que se adivinham.
A primeira tarefa do futuro executivo será decidir onde cortar cerca de 11,5 mil milhões de euros para enfrentar os esperados buracos orçamentais em 2013 e 2014, escrevia no seu site o jornal Wall Street Journal. Nas próximas semanas, a troika de inspectores internacionais da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional estará em Atenas para discutir as novas medidas de austeridade.
Recorde-se que a crise da dívida estalou na Grécia nos finais de 2009, com a revelação de que o défice público subira nesse ano de 6% para 12,7%, um valor revisto mais tarde para 15,4%. Como consequência do descontrolo das contas públicas, causado em grande parte pela ocultação de dados às instâncias europeias, a Grécia foi o primeiro país a recorrer aos fundos da União Europeia e do FMI, em Maio de 2010.

