Fundação Cidade Mãe abre o horizonte para jovens carentes

A possibilidade de conquistar um futuro melhor através da arte. É este o sentimento dos alunos da Empresa Educativa de Canabrava, uma das onze unidades pertencentes à Fundação Cidade-Mãe (FCM), da Prefeitura de Salvador. As crianças e jovens, de 8 a 17 anos, fazem parte de um grupo teatral, que encenam atualmente a peça “Um dia é da caça e o outro é do caçador”.
Durante o espetáculo, apresentado na última terça-feira (22) a gestores municipais na sede da Fundação, no Engenho Velho de Brotas, os jovens representaram uma família que ignora as medidas de prevenção à dengue. Os personagens não têm o cuidado necessário ao guardar garrafas e pneus velhos, que são entulhados no quintal da casa, criando pontos propícios à proliferação do mosquito Aedes aegypt.
A apresentação é rápida, mas consegue dar o recado à população sobre o quanto é importante cada um fazer a sua parte no combate à doença. “Para eles, a peça representa o cotidiano que enfrentam na comunidade. Eles vêem tudo isso acontecer no quintal das casas de vizinhos e outros moradores”, diz a educadora social Cristiane Conceição.
Para os jovens, participar da peça representa um futuro melhor para cada um dos participantes. O mais velho do grupo tem apenas 15 anos, mas já busca as aulas livres de Teatro na Universidade Federal da Bahia (Ufba) e também pensa em cursar uma graduação. “Quero fazer do teatro meu caminho para o futuro, mostrando que eu posso fazer algo melhor com minha vida”, afirma Gerônimo Henrique, que há sete anos e meio está na FCM.
“Foi com muita insistência que consegui entrar no grupo e hoje sei que posso escolher um caminho melhor”, fala Daniela Freitas, de 17 anos. Aluna da entidade há quatro anos, ela destaca que, após as aulas, percebeu que a vida pode ser diferente e é possível não deixar o rótulo de morador de periferia ser um obstáculo.
Com encontros semanais, as crianças e jovens têm convívio com a arte cênica, tornando-se também multiplicadores junto à comunidade onde moram. “É gratificante ver o resultado das atividades de cidadania com as crianças e adolescentes da fundação, mostrando que as dificuldades sociais podem ser superadas com força de vontade”, completa Eliane Braz Azevedo, chefe de gabinete da entidade.
A equipe de teatro da Empresa Educativa de Canabrava já recebeu convites para apresentar esta peça e outros temas (sobre o Estatuto da Criança e Adolescente e Os Saltimbancos, por exemplo) em escolas municipais, órgãos da prefeitura e locais definidos pela empresa. A comunidade de Canabrava é a primeira a assistir as apresentações. Os temas podem ser adaptados para cada situação, a depender da resposta da comunidade.
Acolhimento – A Fundação Cidade Mãe atende 1.100 jovens que frequentam aulas de teatro, dança, capoeira e diversos esportes. A entidade, sem fins lucrativos, é vinculada à Prefeitura de Salvador, através da Secretaria Municipal do Trabalho, Assistência Social e Direitos do Cidadão (Setad), e tem a missão de reduzir as desigualdades sociais enfrentadas pelos jovens em situação de risco social.
As ações da entidade giram em torno das vertentes de proteção básica e especial. Nesta última, o trabalho é direcionado aos adolescentes infratores, encaminhados pelo Conselho Tutelar e pelas varas da Infância e Juventude, para que recebam a atenção necessária e evitem o retorno às ruas. Eles são levados para as casas de acolhimento, espaços noturnos e provisórios para atendimento de crianças de 8 a 17 anos, que não possuem o convívio com familiares.
Nestas condições especiais, os jovens são atendidos em unidades como a Casa D. Timóteo Amoroso Anastácio, a Casa de Oxum, e o Abrigo José Peroba, este no bairro de Tancredo Neves, com capacidade de abrigar 40 jovens, entre 8 e 14 anos. “São jovens que estão em situação de risco grave, sem família e sem perspectiva de futuro, que ganham uma oportunidade de mudar de vida”, explica Luís Rogério Cruz, presidente da FCM.
Na proteção básica, crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade, que mantêm convívio com suas famílias, são atendidos nas unidades educativas. Lá, eles freqüentam as oficinas culturais de dança, teatro, capoeira, música, artes plásticas e diversas modalidades de esporte, em horário oposto à frequência escolar.
Os assistidos recebem ainda atendimento psicopedagógico, em que as dificuldades de aprendizado são identificadas e resolvidas, com o acompanhamento de profissionais de uma equipe multidisciplinar. “Esses jovens têm qualidades que nem eles mesmos conhecem, mas quando são acompanhados de perto por profissionais, os talentos aparecem”, alerta Luís Rogério.
Parcerias – Além das unidades educacionais e casas de acolhimento, a FCM conta com parcerias importantes para o desenvolvimento das atividades. Dentre as instituições estão a Cristo é Vida (Rio Vermelho), Revita (Canabrava) e AABB Comunidade (Piatã).
No programa da Fundação Banco do Brasil, através do AABB Comunidade, a parceria é duradoura. Em recente reunião entre os presidentes das duas instituições, um novo acordo foi assinado para manter o atendimento de 240 crianças e adolescentes, de 8 a 16 anos, oriundos dos bairros adjacentes, como Alto do Coqueirinho, Piatã, Baixa do Tubo, Km 17 e Nova Brasília.
“O melhor é quando encontramos profissionais atuando em suas áreas de trabalho e que foram formados dentro da fundação. Isso é uma mostra de que o futuro está garantido para eles e para todos, que participam dos projetos e das atividades”, acredita Cruz.

