1982, o renascimento do futebol-arte:2

Na Copa anterior, a presença do Doutor chegou a ser reclamada por alguns especialistas, porém sem grande entusiasmo. Afinal, aos 24 anos e ainda no Botafogo de Ribeirão Preto, ele parecia mais preocupado em concluir seu curso de Medicina do que em jogar futebol. Mas agora, aos 28, com o diploma na mão e já consolidado como ídolo do Corinthians, Sócrates, com seu futebol cerebral, tinha tudo para explodir internacionalmente.
Havia, também, uma base formada por jogadores “recuperados” da malograda campanha de quatro anos antes, na Argentina. Um deles era o firme zagueiro Oscar, que em 1978 formou uma dupla de área quase perfeita com Amaral. Aos 28 anos, Oscar, às vésperas da Copa da Espanha, era o capitão do time, mas depois repassaria o posto para Sócrates. Já Amaral, seu companheiro de zaga em 1978, não teve a mesma sorte: em declínio físico e técnico, passando do Corinthians para o Santos e em seguida para o futebol mexicano, acabou esquecido. Em seu lugar, entrou o emergente Luizinho, do Atlético Mineiro, um clássico zagueiro de apenas 23 anos.
Outros importantes veteranos da campanha de 1978 que estavam em momento muito melhor que o de quatro anos antes eram os meio-campistas Toninho Cerezo e Zico. Chamado por muitos de “peladeiro” por seu estilo participativo e brigador, Cerezo mostrara que também sabia jogar. Ídolo do Atlético Mineiro, estava pronto para se transferir para a Roma, da Itália, depois daquele Mundial.
Já Zico se encontrava no melhor de sua forma — ao contrário do que acontecera em 1978, quando, às voltas com contusões, participara de cinco dos sete jogos da campanha brasileira, mas apenas em um deles, o da estreia, contra a Suécia, conseguiu jogar os 90 minutos. Aos 29 anos, Zico chegava à Espanha não só como maior ídolo do Flamengo e melhor jogador do Brasil, mas como candidato a craque da própria Copa do Mundo.
Paolo Rossi faz gol para a Itália contra a seleção brasileira durante a Copa do Mundo de 1982
O maior senão daquele time fantástico esteve, desde o início, no comando do ataque. O centroavante titular era para ser o genial Reinaldo, do Atlético Mineiro, outro veterano de 1978, que o próprio Telê Santana definia como “um dos maiores jogadores que já vi jogar”. Mas Reinaldo acabou se machucando durante a excursão à Europa. O trombador Serginho, do São Paulo, 28 anos, que ficara de fora em 1978 por causa de uma longa suspensão por motivos disciplinares, e o refinado Careca, do Guarani, 21 anos, acabaram sendo os escolhidos.
No entanto, apenas uma semana antes da estreia na Copa, em um treino já em Portugal, Careca teve uma distensão no músculo adutor da coxa esquerda. Cortado em 11 de junho de 1982, acabou substituído no time por Serginho e na lista de convocados por Roberto Dinamite, do Vasco, que não teria nenhuma oportunidade ao longo da competição.
A Seleção de 82 era também o time do polivalente Paulo Isidoro, do Grêmio, 28 anos, meia deslocado por Telê para suprir a ausência de um ponta-direita nato. Do sex simbol Éder, 25 anos, ponta-esquerda do Atlético Mineiro e dono de um chute potentíssimo, principalmente nas cobranças de faltas. Do 12º titular Dirceu, 30 anos, do Atlético de Madri, aliás um dos dois únicos jogadores que atuavam fora do país, ao lado de Falcão.
Entre os reservas, havia gente com boas condições de brigar pela posição com os titulares, como o zagueiro Edinho, do Fluminense, e o volante Batista, do Grêmio, ambos com 27 anos. A grande maioria, no entanto, entrou para a história como meros coadjuvantes daquela equipe fantástica: Paulo Sérgio, do Botafogo, e Carlos, da Ponte Preta (goleiros); Edevaldo, do Internacional (lateral-direito); Pedrinho, do Vasco (lateral-esquerdo); Juninho, da Ponte Preta (zagueiro); e Renato, do São Paulo (meia).
Do Flamengo campeão da Libertadores e do Mundial no ano anterior, foram convocados apenas Zico, Leandro e Júnior. E esquecidos o goleiro Raul, o zagueiro Mozer e os meio-campistas Andrade e Adílio. Também ficaram de fora o meia Jorge Mendonça, 28 anos, artilheiro do Brasil pelo Guarani naquele mesmo ano, e o veterano goleiro Leão, 32 anos, que passava por ótimo momento no Grêmio. A ambos, restou apenas gravar comerciais para uma marca de televisão em que diziam: “Eu não vou para a Espanha, mas verei a Copa do Mundo por um TV Mitsubishi”.
Em maio, uma pesquisa do Instituto Gallup realizada em 17 países apontou o Brasil como favorito para vencer a Copa. Condição em que permaneceria até o fatídico jogo contra a Itália.

