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1982, o renascimento do futebol-arte: 1

Telê Santana (c) comandando a seleção brasileira durante a Copa do Mundo de 1982México, 1970. O Brasil é tricampeão mundial apresentando um grande futebol. 

Alemanha Ocidental, 1974. O técnico, Zagallo, é o mesmo, mas o jogo da Seleção não. O time que buscava o tetra não vai além do quarto lugar. Mais até que o resultado, frustrou ver uma equipe descaracterizada, que abandonara suas origens ofensivas para se render à força física e a um jogo burocrático. 

Argentina, 1978. Na prática, o ponto futuro, o overlaping e outras teorias preconizadas pelo técnico Cláudio Coutinho rendem ao Brasil apenas um terceiro lugar, ainda que invicto, e o título de “campeão moral”, expressão cunhada pelo próprio treinador. 

A partir de então, resgatar o verdadeiro futebol brasileiro, o chamado futebol-arte, torna-se obsessão nacional, verdadeira questão de honra. Nesse clima, começa a surgir a Seleção Brasileira de 1982.
Coutinho duraria no cargo por mais um ano e meio, ajudado pelo fato de que durante onze desses 18 meses, entre junho de 1978 e maio de 1979, o time não disputou nenhuma partida. Em outubro de 1979, ainda com Coutinho no comando, dois maus resultados contra o Paraguai (derrota por 2 a 1 em Assunção e empate por 2 a 2 no Maracanã) eliminam o Brasil da Copa América. 

Fora de campo, o futebol brasileiro também passa por mudanças, assim como o próprio país, que com base na anistia aos exilados e presos políticos, começa a se redemocratizar. A velha Confederação Brasileira de Desportos (CBD), comandada pelo almirante Heleno Nunes e que até então agregava todos os esportes no país, passa a ser dividida em várias federações independentes. Em 24 de setembro de 1979, nasce a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Seu primeiro presidente, o empresário carioca Giulite Coutinho, toma posse em 18 de janeiro de 1980. Para dirigir sua primeira seleção, ele escolhe o mineiro Telê Santana. 

Pela primeira vez em muitos anos, a Seleção Brasileira passa a contar com um técnico permanente, sem a necessidade de dividir seu trabalho com algum clube. Então com 49 anos, Telê havia sido um aplicado ponta-direita do Fluminense durante toda uma década, de 1951 a 1960. Como técnico, começou em 1967, nos juvenis do próprio Flu. Dois anos depois, é promovido ao time principal e ganha logo de cara o título carioca de 1969. No Atlético, onde foi campeão mineiro, em 1970, e ganhou o primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971, Telê ficou até 1976. Em 1977, levou o Grêmio ao título gaúcho, encerrando a hegemonia de oito anos do Internacional. De 1978 a 1980, no Palmeiras, levou a equipe a praticar um futebol fluente, ofensivo, bem a seu gosto. 

Um de seus melhores resultados à frente do Alviverde, aliás, acabou decidindo o futuro técnico da Seleção Brasileira: a histórica vitória por 4 a 1 sobre o Flamengo de Cláudio Coutinho em pleno Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro, na tarde de 9 de dezembro de 1979. Telê tinha fama de amante do futebol bem jogado, mas também de pé-frio, de montar equipes que apresentavam um futebol vistoso e, na hora agá, não ganhavam campeonatos. Fama que o acompanharia até o final da carreira, na década de 1990, quando enfim ganhou todos os títulos possíveis pelo São Paulo, do bicampeonato estadual (no caso o Paulista, em 1991/92) ao bicampeonato mundial de clubes (em 1992/93). 

Entre junho e dezembro de 1980, Telê Santana dirigiu a Seleção Brasileira em oito amistosos. Obteve 6 vitórias, um empate e sofreu uma única derrota, para a União Soviética, por 2 a 1, no Maracanã, em sua segunda partida. Em janeiro de 1981, o Brasil disputou o Mundialito de Montevidéu, no Uruguai. Após empatar com a Argentina (1 a 1) e golear a Alemanha Ocidental (4 a 1), perdeu a final para os donos da casa, de virada, por 2 a 1.

Vieram então as Eliminatórias para a Copa de 1982 e uma série de amistosos, totalizando 19 jogos de invencibilidade, com 4 empates e 15 vitórias. Nas Eliminatórias, mesmo sem contar com Falcão (único titular que atuava no exterior, na Roma, da Itália), o Brasil passou com tranquilidade pelas fracas Venezuela (1 a 0 em Caracas e 5 a 0 em Goiânia) e Bolívia (2 a 1 em La Paz e 3 a 1 no Maracanã).

Nos amistosos, três vitórias memoráveis, durante uma excursão à Europa: 1 a 0 na Inglaterra em Londres (a primeira vitória brasileira jogando no templo sagrado de Wembley), 3 a 1 na França, em Paris, e 2 a 1 na Alemanha, em Stuttgart, jogo em que o goleiro Waldir Peres defendeu duas vezes as cobranças do mesmo pênalti, chutadas pelo lateral-esquerdo Breitner. Nesses 19 jogos, o Brasil de Telê sofreu apenas 10 gols e marcou 52. Zico fez 18 e Sócrates, 7. 

Sócrates (e), Telê Santana (c) e Zico (d) pela seleção brasileira durante a Copa do Mundo de 1982

Em 13 de abril, Telê Santana foi internado na Clínica Pró-Cardíaco, no Rio, com pneumonia e hipotensão (sua pressão chegou quase a zero). Após três dias no hospital, recebeu alta. No dia 26 de abril, em meio a especulações quanto a seu estado de saúde, divulgou a lista dos 22 que iriam à Copa.

Waldir Peres, do São Paulo, era um emérito pegador de pênaltis. Terceiro goleiro nos dois Mundiais anteriores, teria, enfim, sua primeira grande chance como titular em uma Copa, já aos 31 anos. 

O jovem Leandro, lateral-direito de 23 anos, despontara no Flamengo campeão mundial do ano anterior como um dos mais técnicos de sua posição no Brasil em todos os tempos. Aquele supertime do Flamengo — indiscutivelmente o melhor do país na época, campeão nacional em 1980 e 1982 e novamente campeão em 1983 — cedia também o lateral do outro lado do campo, pela esquerda: Júnior. 
Aos 28 anos, após ter sido ignorado por Coutinho na Copa anterior, Júnior atingira maturidade suficiente para chegar à Espanha como um dos melhores jogadores do mundo, inclusive como ótima opção de apoio ao ataque. Em altíssimo astral, gravou o sucesso “Povo Feliz”, que acabou se tornando uma espécie de hino daquela Seleção: “Voa, canarinho, voa, mostra pra esse povo que és um rei… Voa, canarinho, voa, mostra lá na Espanha o que eu já sei…” 

O rol dos esquecidos por Coutinho em 1978 incluía ainda pelo menos dois outros supercraques. O primeiro era o meio-campista Falcão. Preterido em favor do tosco Chicão na lista de convocados para a Copa da Argentina, ele já havia deixado o Internacional para se transformar no Rei de Roma (e da Roma). Na Espanha, aos 28 anos, foi talvez o melhor jogador do Brasil naquela Copa. O outro era o meia Sócrates. 

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