Brasil verá ‘mini eclipse’ de Mercúrio pela 4ª vez no século

Nesta segunda-feira (11), vai ocorrer um evento astronômico interessante e pouco conhecido: um trânsito planetário. Volta e meia eu falo aqui de trânsito planetário, mas sempre em relação a planetas de outros sistemas estelares. Isso porque esse fenômeno é uma das técnicas de detecção de exoplanetas, os planetas fora do Sistema Solar. Além do trânsito planetário, a espectroscopia de alta precisão é outra técnica bastante usada.

Mas o que vem a ser um trânsito planetário?

Um trânsito planetário é o evento que se dá quando um planeta “passa na frente” de um observador que esteja observando a estrela do seu sistema. Com um alinhamento favorável das órbitas, é possível perceber quando um exoplaneta passa na frente da sua estrela através de uma minúscula redução no brilho dela. Muita gente chama isso de “mini-eclipse”, já que o planeta é incapaz de bloquear toda a luz da estrela. Essa é a técnica usada pelo finado telescópio espacial Kepler, recordista de descobrimentos de exoplanetas. Essa é também a técnica usado pelo seu sucessor, o satélite TESS.

Mas não é necessário ir muito longe para se ver um trânsito planetário, apenas esperar algum tempo. Às vezes, podemos observar trânsitos de planetas no nosso Sistema Solar.

De tempos em tempos, Mercúrio e Vênus passam na frente do disco solar e podemos observar isso aqui da Terra – claro, com os devidos cuidados. Como os dois planetas ficam entre a Terra e o Sol, é natural que isso aconteça, mas são necessárias condições especiais de inclinação das órbitas. Por isso, esses fenômenos não são tão comuns.

O trânsito de Mercúrio é mais comum, acontece por volta de 13-14 vezes a cada 100 anos. Já os trânsitos de Vênus são muito mais raros, com intervalos de mais de 100 anos. O último deles aconteceu em junho de 2012 e o próximo será em 2117.

O trânsito de segunda-feira deve começar às 09:35 da manhã e deve durar até às 15:04. Durante o evento, será possível ver Mercúrio como um círculo bem escuro contra a superfície iluminada do Sol.

Mas atenção! Nunca, jamais, em nenhuma hipótese olhe diretamente para o Sol! Principalmente se você tiver alguma luneta ou telescópio. As chances de uma lesão grave e permanente são imensas. Nem mesmo use soluções caseiras de vidros sujos ou radiografias, isso não filtra os raios ultravioleta.

O método mais seguro para se observar o Sol, suas manchas ou qualquer evento de trânsito como esse com uma luneta ou telescópio é fazer uma projeção da sua imagem em um anteparo claro. Galileu, que não era bobo nem nada, fazia isso em uma tela de pintura e desenhava as manchas que observava. Para se olhar para o Sol é necessário um bom filtro de densidade, ou seja, nada desses filtros coloridos.

Uma opção segura é procurar a famosa “lente de solda”, aquele vidro escuro que cobre o visor dos capacetes de proteção usados por soldadores profissionais. Você pode encontrá-los em casas de material para construção a menos de R$ 10 cada. Se você for mesmo procurar um, compre o número 14, que é o mais escuro de todos. Eu usei um desses no último eclipse solar total no Chile.

Os trânsitos de Vênus e Mercúrio tiveram importância muito grande na história da astronomia: foi em um trânsito de Vênus que foi possível finalmente se obter a distância Terra-Sol, em 1639. O valor obtido era bem menor do que o valor atual, mas ainda assim era o melhor de sua época. Aliás, até então não havia medidas de distâncias absolutas de planetas ao Sol, apenas as distâncias relativas à Terra.

Por exemplo, sabia-se que a distância de Vênus ao Sol era de uns 70% da distância Terra-Sol, mas ninguém tinha ideia de quantos quilômetros (ou léguas, na verdade) isso representava. Hoje em dia, trânsitos de Vênus e Mercúrio são usados para “calibrar” as observações de trânsitos de exoplanetas, ajudando a caracterizá-los melhor.

Para observar o evento de forma segura, procure um clube de astronomia, planetário ou universidade que esteja se programando para observar o trânsito. Em São Paulo, o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP) vai acompanhar desde cedo, assim como o Observatório do Valongo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Não perca, pois o próximo só em 13 de novembro de 2032! Este é o quarto deste século, com 13 trânsitos do planeta.(G1)

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