5G no Brasil ainda pode levar anos para ser implementado

tecnologia 5G ainda pode demorar sete anos para chegar aos celulares dos brasileiros. Isso porque o leilão do 5G , que deve acontecer ainda no primeiro semestre deste ano, é só um dos passos de uma longa jornada que conta com diversos desafios para a implementação completa da rede.

A chegada do 5G ao Brasil depende de diversos fatores, e o tão aguardado leilão é apenas um deles. Além do certame, a instalação de equipamentos, as leis sobre antenas e a discussão da presença chinesa na implementação da rede são algumas das questões que afetam diretamente o tempo que vai levar até que o 5G seja implementado.

O que se perde com o atraso do 5G

E o atraso do 5G, que está presente em 34 países de acordo com o último levantamento da Viavi Solutions, impacta muito mais do que apenas na velocidade da internet que chega ao celular de cada cidadão.

Essa, na verdade, é a vantagem menos expressiva para a adoção da nova rede. As  maiores ajudas do 5G devem vir em carros autônomos, automatização no agronegócio, indústria e cirurgias à distância, por exemplo. A rede, que vai tornar a internet muito mais rápida, deve auxiliar na implementação de inteligência artificial , internet das coisas e big data , automatizando diversos setores da economia e causando uma verdadeira revolução.  

“Só em questão de geração de emprego em tecnologia da informação, inteligência artificial, estamos prevendo mais de um milhão de novos trabalhadores qualificados entrando no setor, porque o 5G vai permear em todas as áreas da economia brasileira. É na saúde, na educação, na mídia, em tudo. Vai ser um mundo de dados trafegando com muito mais velocidade e menor latência”, afirma Vivien Suruagy, presidente da Federação Nacional de Instalação e Manutenção de Infraestrutura de Redes de Telecomunicações e de Informática (Feninfra), que brinca que o 5G tem capacidade para transformar o mundo em um episódio de “Os Jetsons”.

Marcos Ferrari, presidente-executivo da Conexis Brasil Digital, nova marca do SindiTelebrasil, o sindicato das empresas de telefonia, define o 5G como “muito mais uma tecnologia voltada para negócios do que diretamente para o consumidor”.

Isso não significa, porém, que o cidadão comum não vai se beneficiar diretamente com a chegada da rede 5G. Vivaldo José Breternitz, professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie, comenta que assistir streaming, jogar online e fazer transmissões ao vivo também vai ser bem mais confortável com 5G do que com o atual 4G .

“A grande vantagem do 5G não está para um cidadão comum telefonar para o outro. Para nós, cidadãos comuns, o que nós vamos ter de vantagem é um pouco mais de estabilidade, ver vídeos e jogar com mais conforto”, comenta.

Muito mais do que um leilão

Mas para tudo isso realmente estar em pleno funcionamento no Brasil, ainda é preciso um grande esforço do governo e do setor de telecomunicações . Os especialistas comentam que muitas questões ainda devem ser resolvidas antes do leilão.

Dentre elas, estão a forma como o leilão será realizado, as atuais leis de antenas do país e a relação com as TVs parabólicas . No que diz respeito ao leilão, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) prevê que ele aconteça ainda no primeiro semestre deste ano, mas questões importantes ainda não foram definidas.

Uma bastante importante é saber se o leilão será arrecadatório ou não, ou seja, se seu foco vai ser arrecadar verba para a União ou simplesmente investir no setor de telecomunicações. “Toda vez que o governo faz um leilão, ele faz autorização ou concessão mas exige, em contrapartida, o pagamento de uma outorga. Ou seja, você vai explorar, mas tem que pagar X ao governo. Se esse X for muito grande no leilão do 5G, ele pode dificultar os investimentos”, explica Marcos. 

“As participantes [do leilão] vão pagar para o governo e não vão ter dinheiro para investir [no 5G]”, resume Vivien. As reivindicações do setor são, portanto, de um leilão devidamente precificado, e não focado apenas nos lucros.

Além disso, outra questão bastante importante a ser definida ainda antes do leilão é a legislação relacionada à instalação de antenas no Brasil. De acordo com dados levantados pela Feninfra, o Brasil tem, atualmente, uma média de 2.591 habitantes por antena de celular. Para o pleno funcionamento do 4G, o necessário seriam mil habitantes por antena, o que indica que o país já está atrasado. Para a chegada do 5G, a federação estima que seja necessária a instalação de mais 700 mil antenas.

Vivien explica que, com as legislações municipais vigentes atualmente, isso é impossível. A presidente conta que há, atualmente, milhares de pedidos para instalação de antenas em espera, alguns parados há mais de sete anos, enroscados em leis que o setor considera atrasadas e que dificultam a adoção da infraestrutura necessária.

“Não adianta nada nós falarmos de 5G se não resolvermos a questão das antenas”, opina Vivien. Para ela, se isso não for solucionado, “não vai sair o 5G, vai ser um sonho, nós não vamos ter essa tecnologia”.

Marcos explica como as leis municipais são ultrapassadas, o que dificulta a instalação de novas antenas. “Pega São Paulo, por exemplo. A lei foi derrubada agora mas, até então, se exigia, para instalar uma pequena antena, como se fosse uma obra. Uma antena do tamanho de uma caixa de sapato, para instalar isso em um prédio, tinha que ter todas as obrigações de uma obra, de uma edificação. Então, isso atrasa bastante, porque a legislação é ainda de quando a antena de celular era grande, de três ou quatro metros”.

Outra questão muito importante a ser resolvida antes do leilão do 5G é a relação com as TVs parabólicas. Frequências que serão leiloadas são, hoje, utilizadas para esse fim, e ainda não se foi definida uma solução para o tema – dentre as opções, estão mitigar as interferências ou migrar as TVs de banda. Essa indefinição também atrasa a nova tecnologia.

“O 5G vai ocupar uma faixa que hoje presta serviço de TVs parabólicas. Dependendo da solução que for dada pela agência reguladora, pelo governo, esse prazo do leilão até começar os investimentos pode demorar até dois anos”, avalia Marcos.

O leilão do 5G e a Huawei

Sejam essas questões resolvidas ou não, o leilão do 5G irá fazer a licitação das radiofrequências nas faixas de 700 MHz, 2,3 GHz, 3,5 GHz e 26 GHz. Essas serão utilizadas para a implementação da nova rede. 

De forma mais simplificada, é como se as frequências a serem leiloadas fossem estradas bloqueadas. A partir do momento em que as empresas de telecomunicações as adquirem, elas podem circular por ali – na mesma comparação, os veículos seriam os dados. Isso vai permitir que a circulação de dados seja feita muito mais rápido do que no 4G , como se essas estradas tivessem mais vias do que as anteriores.

De acordo com a Anatel, o objeto do leilão “não é a implementação de redes móveis de 5ª geração no país, mas sim a conferência de novas autorizações de uso de radiofrequências para que os interessados possam expandir a prestação de serviços de telecomunicações no Brasil”. Isso significa que caberia às empresas de telecomunicações definir o que fazer com as frequências, sem um compromisso direto com a implementação do 5G. Apesar disso, o edital do certame, que ainda não foi oficializado e está em debate na Anatel, “poderá estabelecer compromissos de investimentos específicos para a tecnologia 5G”, como informa a agência.

Depois do leilão, as empresas que adquirirem as frequências terão que instalar toda a infraestrutura para que a nova rede funcione. Isso significa a compra e instalação de antenas, torres, computadores e fibra óptica.

Parece simples, mas pode levar anos. Os especialistas ainda afirmam que, além da demora usual para a instalação de infraestrutura e a dificuldade a respeito das antenas, questões político-ideológicas também podem travar as operações.

Atualmente, se discute a presença, ou não, da Huawei na implementação do 5G brasileiro. A companhia chinesa, que fornece infraestrutura, ficou de fora do 5G norte-americano depois de ser acusada de enviar dados dos usuários para o governo chinês. Nenhuma das acusações tem provas, e a questão acabou se tornando quase uma guerra fria entre Estados Unidos  e China .

Com forte influência no governo de Jair Bolsonaro , as decisões tomadas nos Estados Unidos têm reflexo por aqui . Até agora, se discute se a Huawei poderá fazer parte da implementação do 5G, questão que ainda não foi definida. 

De acordo com a Anatel, “a escolha dos fornecedores dos equipamentos a serem utilizados pelas prestadoras de serviços de telecomunicações em suas redes é dessas próprias empresas, vez que se trata de relação privada, não regulada pelo Estado”, o que indica que as próprias operadoras de telefonia poderão optar por comprar infraestrutura da Huawei. A empresa chinesa, porém, ainda pode ser banida do Brasil, cenário que faria com que o 5G demorasse ainda mais para chegar ao país.

Hoje, as instalações de gerações anteriores como 3G e 4G no Brasil são dominadas por três empresas: a chinesa Huawei , a sueca Ericsson e a finlandesa Nokia . Estima-se que a presença da Huawei seja de quase 50% do mercado nacional. Se a companhia não puder operar no 5G brasileiro, todos esses equipamentos terão que ser trocados, o que resultaria em um custo muito alto (que pode ser refletido na conta dos consumidores) e em um atraso de cerca de três a quatro ano na implementação da rede, como estima Vivien.

“As empresas de telecom têm já equipamentos, no Brasil, de Nokia, Ericsson e Huawei, e esses equipamentos vão ser usados também para 5G, não serão suficientes mas serão utilizados também. Se houver, de alguma forma, um veto do governo federal ao equipamento chinês, as operadoras vão ter que substituir os equipamentos que eles têm por outros. E esse tipo de equipamento é muito complexo, muito caro e não tem à pronta entrega. Então esse prazo [da implementação do 5G no Brasil] pode ser mais longo se for preciso substituir o equipamento da Huawei”, explica Vivaldo.

Do lado das operadoras de telefonia, há a vontade de continuar investindo em equipamentos de quaisquer países, sem restrições. “Acreditamos o seguinte: desde quando foi feita a privatização, em 1997, o Brasil chegou ao quinto maior setor de telecomunicações do mundo usando dois princípios apenas, regulação e competição. A competição se dá de maneira muito forte e a regulação tem, inclusive, a obrigação, pela Lei Geral de Telecomunicações, de estimular a competição. Então, se nós chegamos ao ecossistema que temos hoje, foi graças à demasia desses dois princípios. Qualquer alteração ou interferência no funcionamento pleno desses dois princípios pode atrasar a implementação do 5G, com certeza”, diz Marcos.

Quero o 5G na minha mesa agora

Todas essas questões envolvidas na implementação do 5G no Brasil podem pesar para uma maior ou menor demora na chegada da rede. De acordo com a Anatel, o tempo para que a tecnologia esteja em plena operação “dependerá da gestão de cada prestadora de serviços de telecomunicações que vencer as licitações”.

Apesar disso, a agência afirma que, se o leilão envolver compromissos de investimentos a respeito da instalação de redes 5G , as vencedoras terão os prazos que serão estabelecidos, “observando-se um horizonte temporal típico de três a sete anos”.

Para responder a pergunta de quanto tempo o 5G pode demorar a chegar ao Brasil, Vivaldo lembra do processo que foi a chegada da geração anterior, o 4G. “Veja bem, o 4G começou a ser implantado aqui no Brasil em 2013. Nós estamos em 2021 e ainda não tem 4G no Brasil inteiro. Com o 5G deve acontecer mais ou menos a mesma coisa”. De acordo com levantamento de julho de 2020 do SindiTelebrasil, a  cobertura do 4G no Brasil, cujas frequências foram leiloadas em 2012, chega a 4.997 municípios, onde mora 97,5% da população nacional.

Já Marcos consegue pensar em cenários otimistas e outros nem tanto. Ele lembra que, assim como as gerações anteriores, o 5G não vai chegar de uma vez só ao Brasil todo, mas sim aos poucos. Normalmente, as empresas de telefonia investem primeiro em grandes centros, onde há mais retorno. “Uma vez feito o leilão, em uma perspectiva mais positiva, nas grandes capitais e grandes cidades, de dois a três anos, em um cenário otimista. Ou até um pouco menos, acho que dois anos seria um tempo ideal. Até quatro anos, em um cenário pessimista”, opina.

Em um cenário bastante otimista, Vivien acredita no 5G chegando aos grandes centros em três anos. “Supondo que, este ano, nós resolvamos a questão das leis municipais de antenas, eu acredito que, em três anos, nós conseguimos dar um ‘boom’ de 5G no país. Agora, não podemos ter aquela discussão sobre equipamento chinês”, estima.

(IG)

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