O agonizante relato do fundo do poço da cultura em Vera Cruz em período de pandemia

Por Joaca de Castro

Premiada, reconhecida e aclamada por todos de Vera Cruz e Itaparica, Kokoisa não é apenas uma cantora. É a marca registrada de uma história cantada que começa nos anos 90 com o Trio Geração 90 (falo desde que me lembro) até a triste data de 25 de novembro de 2020 em que ela declara no seu perfil do facebook estar saindo da cena musical e pede humildemente emprego pro seu fiel companheiro de teclado, Robson, com quem fez nas ultims 3 décadas uma dupla infalível: a RK Ritmus. “Boa noite gente estou aqui hoje pedindo um emprego pra Robson tecladista eu estou saindo da vida de ilusão musical ele precisa trabalhar qualquer coisa fala com ele direto 98XXXX-XXXX preciso ajudar meu amigo ele fez contabilidade eu administração foi bom o quanto durou seja da vontade de Deus Agradeço a todos”, escreveu a Kokoisa em seu facebook.

Seria apenas mais um fato triste e lamentável qual estamos vivenciando ao longo desses quase 11 meses de pandemia do novo Coronavirus, mas não é. Os comentários que seguem a postagem da diva da Ilha mostram que o buraco é muito mais embaixo. Ao menos identifiquei, antes de fechar este artigo, 3 outros artistas agonizando o terror enfrentado por eles durante este processo e o quão estão sozinhos nesta jornada.

Mas na Ilha tem pandemia? Tem. E pra honra e glória da Socicam e da Internacional Travessias, que, neste periodo de restrições, sequer pestanejaram pra reduzir custos, reduzir folha, restringir horários, economizar combustível e continuar a socar gente nas embarcações que, com dinheiro vivo, pagam pra se expor diariamente ao virus nas lanchas e ferrys. Mas os barzinhos, aqueles tradicionais quais alimentavam a beleza nata de ver artistas como Kokoisa brilhar… Ah…, estes tiveram que fechar.

A Ilha está de vento em popa. O que se vê nas ruas é a efervescência natural de Mar Grande e Bom Despacho. Aqui nos finas de semana a cachaçaria soteropolitana é livre e irrestrita, menos pra o sustento e glória de Kokoisa e de diversos outros artistas que amarguraram e amarguram o nada que lhes foram dado e negado pelo poder público. Uma lástima. A Lei Aldir Blanc aqui não chegou. Se chegou, não foi distribuida.

O social serviu pra campanha. Foi um excelente marketing de campanha que, como resultado, rendeu uma eleição histórica. Mas aos artistas locais, aos que fazem nossa alegria e estarão no nosso imaginário eternamente, restou o desabafo e o pedido humilde de Kokoisa nas redes sociais e a certeza de que, aqui, pra cultura, ninguém liga. Deveriam, mas não ligam. Até podem, mas…

Visão Cidade

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