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Coronavírus: 7 perguntas sobre a doença ainda sem resposta

Quase tudo que o que sabemos hoje sobre o avanço do surto do novo coronavírus está desatualizado e incompleto.

A Organização Mundial da Saúde fala em 93.094 infectados e 3.198 mortos em 77 países e territórios, segundo os dados desta quarta-feira (4/03). Mas esses números não contam toda a história.

“Alguns números mudam porque coisas novas estão acontecendo, mas muitos números estão mudando porque estamos descobrindo coisas que já aconteceram”, resume Marc Lipsitch, professor de epidemiologia da Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Para Neil Ferguson, especialista do Centro para Análise de Doenças Infecciosas do Imperial College, de Londres, o descompasso entre a confirmação de casos, o surgimento de sintomas e a piora da doença até uma eventual morte indica que o surto hoje pode ser dez vezes maior.

Mas quantas pessoas estão doentes de fato? Qual é a taxa de mortalidade? Quem se recupera do vírus uma vez está livre da doença? Há risco para mulheres grávidas e crianças?

A BBC News Brasil reuniu as mais importantes dúvidas sem resposta acerca do surto, e os esforços que especialistas e autoridades têm feito com dados e inferências para tentar respondê-las com o maior grau de certeza possível.

1. Afinal, qual é a taxa de mortalidade do novo coronavírus?

Estima-se hoje que essa taxa gire em torno de 2%, mas esse número tem variado bastante desde o início do surto na cidade chinesa de Wuhan, em dezembro.

Em tese, o cálculo do que tem se chamado popularmente de taxa de mortalidade do novo coronavírus é sido relativamente simples. Identifica-se quantas pessoas ficam infectadas, quantas morrem e aplica-se uma regra de três.

Mas os cálculos feitos para calcular quão letal é uma doença podem envolver outras peças, como o período de um ano, um espaço geográfico determinado e a taxa de mortes por mil habitantes, algo que não tem sido feito atualmente.

Pode ser mais fácil calcular isso quando um surto já acabou, mas é muito complexo em meio ao avanço da doença. Mas por quê?

A principal lacuna é o número real de infectados. Nem todo mundo que contrai o vírus apresenta sintomas, como tosse seca, febre e falta de ar. E ele pode ser transmitido mesmo que esses sinais não apareçam no período de incubação (de um a 14 dias).

Atualmente, o número oficial de infectados é 93.160 e o de mortos, 3.198. Se a taxa de mortalidade como se tem falado fosse calculada a partir desses números, poderíamos dizer que ela mata 3,4 pessoas a cada cem infectadas, conforme divulgou a Organização Mundial da Saúde.

Mas isso seria impreciso porque estaríamos nos baseando apenas no que os especialistas chamam de “ponta do iceberg”. Esse cenário ignora dois grandes pontos: o total de pessoas infectadas assintomáticas ou nem tão doentes a ponto de irem para o hospital (o que diminuiria a taxa de mortalidade) e o total de mortes que ainda está por acontecer (o que elevaria a taxa de mortalidade).

Para se ter uma ideia da dimensão do número de casos que passam abaixo do radar, Christl Donnelly, professora de epidemiologia do Imperial College, cruzou dados de pessoas doentes com o número de voos para estimar que dois terços dos casos “exportados” por Wuhan não foram detectados ou monitorados pelas autoridades estrangeiras.

Ferguson, também do Imperial College, explica que o surto tem dobrado de tamanho a cada cinco dias e que leva 20 dias entre o surgimento de sintomas e uma eventual morte.

Ou seja, “as mortes que vemos hoje correspondem ao estado de epidemia de 20 dias atrás em cada um desses países. Isso quer dizer que a epidemia deveria ser 10 vezes menor 20 dias atrás, e então você multiplica isso por um fator de cem, no caso das mortes, e você tem um multiplicador por mil”.

infográfico da taxa de mortalidade a partir dos grupos sociais

Lipsitch, de Harvard, afirma que o melhor jeito de estimar com mais precisão o número real de pessoas doentes é a partir de estudos serológicos com amostras da população, procurando anticorpos nas pessoas para saber se elas foram infectadas ou não, a despeito de sintomas ou notificações oficiais. Essas análises estão em curso na China, mas devem demorar a gerar resultados.

Até agora, o estudo mais amplo sobre o novo coronavírus analisou mais de 44 mil casos na China. Foi identificada uma taxa geral de mortalidade em torno de 2,3%, mas ela varia bastante a depender da faixa etária.

O grupo com a mais alta taxa de mortalidade envolve pessoas com 80 anos ou mais: 14,8%. E não foram registradas mortes de crianças de até 9 anos.

E as mortes eram cinco vezes mais comuns entre as pessoas que tinham diabetes, pressão alta ou doenças cardiovasculares ou respiratórias.

2. É possível pegar o vírus duas vezes?

Até pouco tempo atrás, acreditava-se que isso não fosse possível, diante do que se sabe sobre outras infecções virais respiratórias.

Em geral, uma vez infectada, a pessoa ganha imunidade contra a doença. Isso acontece porque o corpo reage aos ataques de vírus e bactérias, por exemplo, e aprende a combater esses micróbios.

O sistema imunológico guarda uma memória dos invasores contra quem já lutou antes. Parte dessa memória é mantida nas células B, que são um tipo de célula imune especializada na produção de apenas um tipo de anticorpo.

Mapa da disseminação do coronavírus, por 4 de março de 2020

O mapa usa dados periódicos da OMS e pode não refletir as informações mais atualizadas de cada país.

Mas informações divulgadas por autoridades da China e do Japão lançaram dúvidas sobre isso: algumas pessoas que já haviam se recuperado da doença foram diagnosticadas novamente com o vírus.

É muito cedo, no entanto, para afirmar se isso é mesmo possível ou houve, por exemplo, alguma falha de diagnóstico, se houve alguma grande mutação ou se o vírus apenas recuou a ponto de não ser mais detectável e depois voltou com força na mesma pessoa.

Há também a hipótese de a doença ser capaz de fazer o corpo “esquecer” como combateu a infecção, quase como uma “amnésia imunológica” — isso ocorre com o sarampo, por exemplo, que destrói celulas B com essa memória.

De todo modo, especialistas têm dito que é mais provável no caso do que tenha um erro no exame do que uma nova infecção pelo mesmo vírus.

3. O novo coronavírus passa para o útero ou pela amamentação?

Em geral, mulheres grávidas são mais suscetíveis a infecções respiratórias, como no caso da H1N1, mas especialistas e autoridades afirmam não haver motivo para acreditar que elas ou os bebês sejam mais vulneráveis aos efeitos do novo coronavírus do que qualquer outra pessoa.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, de 147 mulheres analisadas, 8% desenvolveram um caso agudo da doença e 1%, crítico.

Também não há qualquer indício de que o vírus possa ser contraído pela amamentação ou no útero, afirma o epidemiologista Wei Zhang da Universidade Northwestern, nos EUA, coautor de um estudo sobre o novo coronavírus publicado na revista especializada The Lancet.

Mas essa hipótese ganhou força no início de fevereiro, quando médicos de Wuhan anunciaram que uma mulher infectada com o novo coronavírus deu à luz um bebê que também foi diagnosticado com a doença horas depois.

Até agora, os bebês que contraíram o novo coronavírus conseguiram se recuperar da doença.

Os dados ainda são escassos, mas autoridades e especialistas recomendam que mulheres grávidas comuniquem imediatamente os médicos caso apresentem sintomas.

4. Se o novo coronavírus atinge menos as crianças, escolas precisam ser fechadas?

Primeiro, é importante esclarecer que os especialistas não sabem explicar a baixa incidência do coronavírus em crianças. Mas tem hipóteses para isso.

Segundo eles, isso pode acontecer porque:

  • as crianças teriam um sistema imunológico mais forte, levando a menos complicações e, consequentemente, menos diagnósticos oficiais;
  • há também a possibilidade de o coronavírus ser mais um do rol de vírus com sintomas mais brandos em crianças, como o da catapora, o que também gera menor detecção formal pelo sistema de saúde.
  • o início do surto coincidiu com o período de recesso escolar, expondo as crianças a menor risco de contágio, e os adultos tendem a agir mais como cuidadores nessas situações, mandando a criança para casa de um parente caso alguém esteja doente na própria casa, por exemplo;

O fechamento de escolas, aliás, é uma das medidas mais drásticas adotadas para conter o avanço do surto, afetando também a capacidade dos pais ou responsáveis de trabalharem. Japão e Itália, por exemplo, fecharam todas as escolas.

O governo britânico já falou que as escolas poderiam ficar fechadas por até dois meses e um quinto da força de trabalho do país poderia ser infectado pela doença, na pior das hipóteses previstas em um relatório.

Mas Lipsitch, da Universidade Harvard, tem dúvidas sobre a necessidade disso porque não se sabe qual é o papel que crianças desempenham como transmissores nessa epidemia.

“Saber isso é essencial porque uma das maiores medidas adotadas é fechar escolas, como foi feito no japão. Mas não sabemos se essa é uma medida importante de controle da doença ou se é uma medida extremamente cara e desmedida.”

O fechamento de escolas faz parte da estratégia de combate à doença quando o surto já está instalado em um lugar. Ou seja, há transmissão da doença entre as pessoas que vivem ou circulam ali. Busca-se o menor contato social possível na população.

5. Que animal está ligado à origem do surto atual de coronavírus?

A hipótese mais provável, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é que a epidemia tenha começado em um mercado da cidade chinesa de Wuhan e sido transmitida de um animal vivo para um hospedeiro humano, antes de se espalhar de humano para humano.

Nesse mercado eram vendidos tanto animais vivos quanto já abatidos. Mas não se sabe ainda qual animal está ligado ao novo coronavírus.

Vários animais poderiam servir como “hospedeiros” do novo vírus, especialmente o morcego, conhecido por ser portador de um número considerável de coronavírus diferentes.

Quando cientistas decifraram o código genético do novo coronavírus, após coletar uma amostra de um paciente infectado, morcegos se tornaram os principais suspeitos.

Eles não costumam ficar muito doentes, mas têm a capacidade de espalhar patógenos a uma grande distância e de forma bem ampla.

Também não é possível afirmar se o vírus saltou de um morcego, por exemplo, diretamente para o homem ou se passou antes por outro animal.

Mas faltaria a segunda parte do quebra-cabeça: o principal suspeito de ter incubado o vírus em seu corpo é o pangolim.

Este mamífero, que se alimenta de formigas, talvez seja a espécie mais traficada em todo o mundo — e é, por isso, ameaçada de extinção.

Há uma grande demanda por pele de pangolim, especialmente para uso medicinal na China, embora sua carne também seja requisitada em outros países.

Mas não se sabe se o animal ou partes dele eram vendidas no mercado de Wuhan.

6. Cachorros e gatos podem se infectar e transmitir a doença para humanos e outros animais?

Não há qualquer evidência científica de que cães e gatos possam transmitir o novo coronavírus para humanos ou outros animais, afirmou a secretária de Saúde de Hong Kong, Sophia Chan.

O comunicado ocorreu depois da notícia de que o cachorro de uma pessoa infectada com o vírus foi examinado e recebeu um diagnóstico “positivo”, mas “fraco”.

Gráfico mostra como reduzir o risco de infecção por coronavírus

O cachorro, da raça lulu da Pomerânia, está em quarentena sob observação e passará por novos exames. O animal não apresentou sintomas.

7. Como isso tudo acaba?

Diante do quadro de queda do número de novos casos da doença na China, as autoridades já estimam que as transmissões estarão totalmente sob controle até abril. Por outro lado, temem que um eventual “efeito bumerangue”, já que outros países agora enfrentando o avanço do coronavírus.

Mas como tudo isso vai acabar? Em tese, são três grandes possibilidades:

  • medidas adotadas por autoridades de saúde impedem que haja contato entre pacientes infectados e pessoas saudáveis, evitando novos contágios;
  • processo de imunização do hospedeiro, ou seja, quanto maior a circulação do vírus, mais pessoas adquirem anticorpos contra ele e ficam imunes, fazendo com que o vírus perca força, ou sejam vacinadas;
  • E a hipótese mais extrema em casos de novas epidemias: toda a população mundial é dizimada, o que seria um fracasso para o vírus, porque ele morreria junto. (BBC)


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