Sou a favor da demolição do estádio de Periperi! Saiba o motivo

Por: Jorge Andrade

Tenho cobrado de forma incisiva um posicionamento dos poderes municipais sobre políticas de geração de emprego e renda para a região do Subúrbio Ferroviário. Me posiciono assim por vários motivos: Sou filho de Periperi. Nasci, me criei, estudei, casei, tenho filhas e moro há 51 anos no mesmo lugar. Conheço cada canto do meu bairro. As figuras emblemáticas e folclóricas que por várias vezes cruzei nas ruas, outrora de chão e atualmente pavimentadas, vivem ainda na minha memória. Caminhei de mãos dadas com minha mãe nas ruas do meu bairro, enquanto ela entregava a roupa que lava.
Passei boa parte de minha infância em uma pequena chácara, de propriedade de meus avós paternos, localizada em frente ao estádio de Periperi e ao lado do Esporte Clube Periperi. Vi a evolução do bairro e dos outros circunvizinhos. Minha mãe, costureira e lavadeira de roupa, trabalhou na Sambra e seus avós e tios trabalharam na fábrica de tecidos de Plataforma. Marisquei nas praias de Periperi e Praia Grande, colhi jacás e mangas em São Bartolomeu. Assisti à revolução realizada por Castelo Branco que, sentado na cadeira do executivo municipal, em 11 dias tirou a maior parte das ruas do bairro do chão batido para o asfalto.
O Subúrbio Ferroviário é meu berço…
Dessa vivência e convivência com as pessoas de minha terra, nasceu a necessidade de ver a prosperidade bater a nossa porta. Não fui filho de família abastada. Estudei graças aos favores de patrões de minha mãe e vó. Tive a oportunidade que muitos que nasceram nas mesmas condições que eu não puderam experimentar. Nada disso me frustra ou me machuca. Pelo contrário, me fortalece ao ponto de enxergar que educação e trabalho são soluções eficazes para qualquer caso ou pessoa.
Recentemente, um tema tomou conta das discussões em rodas de conversas; demolir o estádio de Periperi – agora decadente e apenas utilizados para prática informal de futebol – e, em seu lugar, construir um supermercado, nos moldes de atacadão. Passei a defender a ideia com afinco. Não pelo fato de ser contra a prática esportiva e sim por reconhecer que os tempos cobram novas oportunidades para jovens e não tão jovens que saem das escolas secundárias e passam a buscar emprego em uma cidade que é campeã na taxa de desemprego. Onde conseguir uma vaga de emprego formal tornou-se uma aventura épica para os que saem dos bairros suburbanos e, lamentavelmente, em muitos casos são estigmatizados pelo CEP onde moram.
Tenho cobrado que o governo municipal aja com a lógica, tendo em vista que se alega que o estádio ainda possui uma função social. Pergunto se existiria função mais legitimamente social que a geração de emprego e renda? Em recente contato que realizei com a ABASE –Associação Baiana de Supermercados, foi informado que uma loja com 10 ou 15 postos de atendimento (caixas) pode empregar entre 150 a 300 pessoas diretamente, pagando um ticket médio salarial de aproximadamente R$ 1.300,00 – sem falar nos benefícios embutidos – Francamente, não me passa pela cabeça nada mais significativo do que injetar mensalmente algo em tornos de R$ 390.000,00 apenas em salários na economia local.
Essa conta, grosseira por ser apenas um exemplo trabalhado em números crus, não leva em consideração os empregos indiretos, Cooperativas de transportadores, terceirizados, nem tão pouco a mão de obra necessária para se construir o empreendimento. Será possível existir aplicação mais nobre para um terreno localizado no centro de uma das regiões mais pobres da cidade?
Destaco ainda que, como o projeto de desapropriação do terreno não foi concluído pelo ex-prefeito João Henrique, o munícipio teria que pagar à atual proprietária valores que superam a casa dos milhões de Reais. Realizado o pagamento, claro que retirado dos cofres públicos, a municipalidade teria que arcar com os custos da requalificação da área afim de transformar escombros em um equipamento público de relevância. Quanto custaria? Vamos acrescer a essa conta os impostos e taxas que o município deixaria de receber mensalmente com a abertura da loja de supermercado! Falamos aqui de cifras milionárias que seriam gastas pelo erário ou nele deixariam de entrar!
Isso sem frisar o fato, já salientado em outros textos, de que em Periperi existem outras cinco praças esportivas e pouquíssimos empreendimentos do porte de um atacadão. Em Paripe, bairro vizinho, encontramos um comércio pujante, lojas de grande porte e grandes marcas, um grande empreendimento do ramo supermercadista, mais dois mercados de médio porte e tantos outros de pequeno porte, convivendo lado a lado. Esse exemplo é prova que a vinda de loja do mesmo nível para Periperi não mataria os comércios aqui existentes.
O que há, na minha opinião, é uma cegueira crônica, egoísta em alguns aspectos, que despreza o bem que se pode promover para muitos, a importância do impacto econômica que tal empreendimento trará em detrimento de uma “tradição” que em nada soma para a estruturação de uma sociedade que seja mais saudável do ponto de vista social e econômico. Poucos que por ali passam dominicalmente ou em noites durante a semana, bem empregados e com suas rendas garantidas, não conseguem vislumbrar a necessidade de muitos outros moradores do bairro e da região que serão beneficiados pela abertura das vagas de emprego diretos ou indiretos.
Como filho de Periperi, avalio que passou da hora de largar o passado e seguir em frente rumo à novas conquistas. Acho que não é pedir muito…

 

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