Uso excessivo de eletrônicos pode prejudicar desenvolvimento infantojuvenil

Especialistas que estudam as implicações na saúde e na integridade psicossocial e física de crianças e adolescentes expostas ao uso excessivo de dispositivos eletrônicos online abordaram o tema hoje, dia 10, na ‘I Conferência Tecnologia e Infância’, realizada na sede do Ministério Público estadual do Centro Administrativo da Bahia (CAB). As palestrantes afirmaram que a utilização indiscriminada de dispositivos, conectados ou não à internet, como computadores, tablets e celulares, tem potencializado ou está relacionada a danos à segurança física e psicológica, à cognição socioafetiva e à saúde motora, auditiva e visual de crianças eadolescentes.

A psicóloga e psicanalista Ângela Baptista, especialista em diagnóstico e tratamento dos transtornos do desenvolvimento infantojuvenil, destacou o que é chamado de “autismo eletrônico”, uma automação do comportamento das pessoas, sobretudo das crianças, que as privaria do relacionamento propriamente humano, da troca do olhar e da palavra, tornando-as espécie de “pinóquio às avessas”, um boneco que se humanizou com a experiência. “Estamos suprimindo o instante de ver, o tempo de compreender e o momento de concluir. A automação idealizada tira a autonomia e faz com que as crianças percam a capacidade de criar, inventar e imaginar, fazendo-as se esquivar do outro”, disse. Ela explicou que, conforme as pesquisas especializadas, o abuso desses aparelhos eletrônicos online, “na era da internet generalizada”, tem potencializado comportamentos autistas, embora não sejam a causa ou estejam necessariamente relacionados a autismo estrutural.

Já a diretora de Projetos Especiais na Safernet Brasil, a psicóloga Juliana Cunha, apresentou o trabalho desenvolvido pela entidade há 12 anos, inclusive com parcerias com o MP brasileiro, e destacou que há uma distância de percepção (gap geracional) entre pais quanto aos riscos e ameças que o uso da internet pode oferecer. Conforme a especialista, pesquisas têm mostrado que, enquanto pais estão mais preocupados com desconhecidos que possam cometer aliciamento sexual, o que é grave e merece atenção, as crianças e adolescentes se incomodam e estão mais atentas ao que amigos e pessoas conhecidas falam e pensam deles. “Por isso, não podemos nos descuidar de quem está perto dos nossos filhos”, disse. Ela informou que a Safernet disponibiliza um serviço, chamado de ‘Helpline’, que possibilita canais, meio e recursos para que as pessoas procurem ajuda sobre como se proteger e se comportar na internet, principalmente em casos de ameaça e constrangimento. As discussões foram realizadas pela manhã, no painel voltado para crimes cibernéticos, com a mediação do coordenador do Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos (Nucciber), promotor de Justiça Moacir Nascimento Júnior. Sobre a questão da segurança das crianças no uso da internet, ele afirmou que existem meios e recursos tecnológicos para monitorar dados acessados, mas que não é possível controlar totalmente o conteúdo. Ele reforçou as análises das palestrantes e afirmou que o monitoramento mais eficaz é o que trabalha na prevenção e capacita com diálogo as crianças e adolescentes a se fortalecerem para utilizar a internet com responsabilidade e segurança.

Saúde

Sobre questões mais relacionadas à saúde, a pediatra Evelyn Eisenstein, membro do Departamento Científico de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), afirmou que a luz de Led emitida pelos dispositivos eletrônicos prejudica o sono das crianças, ao deixá-las mais alertas. Ela explicou que estudos já comprovaram a redução de melatonina, o hormônio do sono, em crianças superexpostas a esse tipo de luz, o que traz implicações para a produção do hormônio do crescimento e, portanto, possíveis interferências negativas no desenvolvimento infantil. “Criança não é um miniadulto. Além desse risco, temos o que chamamos de dissociação de cognição afetiva. Os pais precisam se preocupar mais com a mediação e o cuidado. O lado afetivo importa muito para o crescimento. Não é pensar que, ao deslizar o dedo numa tela, a criança vai ficar mais inteligente”, disse. Segundo a SBP, é recomendado desligar os aparelhos uma ou duas horas antes de dormir e não se recomenda o uso por crianças menores de três anos.

O evento também contou com a palestra da fonoaudióloga e psicopedagoga Telma Pantana, além da participação da presidente da Sociedade Baiana de Pediatria, a pediatra Dolores Fernandes. A conferência foi aberta pela coordenadora do Centro de Apoio de Defesa da Criança e do Adolescente (Caoca) do MP, procuradora de Justiça Marly Barreto, que mediou o painel de debates da tarde. “Devemos aprender de forma humilde a compor a tela do futuro de cada criança e adolescente com as telas tecnológicas sem descarrilhar dos trilhos”, disse. 

Cecom/MP



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